Anlise da Inteligncia de Cristo

#Anlise da Inteligncia de Cristo

EDITORA ACADEMIA DE INTELIGNCIA

#Copyright  Editora Academia de Inteligncia

Criao, Editorao e Fotolitos: Macquete Grfica Produes (0XX11) 6694-6477 Reviso: Ana Maria Barbosa Cludia Jlio Alves Caetano

Catalogao na Fonte do Departamento Nacional do Livro C982m Cury, Augusto Jorge. O mestre da sensibilidade, vol. 2 : Anlise da inteligncida de Cristo / Augusto
Jorge Cury -- So Paulo: Ed. Academia de Inteligncia, 2000. 219 p. ; 21 cm.
ISBN: 85-87643-02-9

1. Jesus Cristo -- Personalidade e misso. 2. Jesus Cristo - Psicologia 3. Inteligncia. Ttulo. CDD-232.903

Editora Academia de Inteligncia Fone/fax: (0XX17) 342-4844 E-mail: academiaint@mdbrasil.com.br

#Dedi

co este livro a todos aqueles que abrem as janelas de sua mente e procuram rever continuamente a sua maneira de ver a vida e reagir ao mundo, pois so eles que encontram
a sabedoria...

#Prefcio................................................................................... 9 Introduo..........................................................................
11 0 1. A maturidade revelada no caos.................................. 15 02. O semeador de vida e de inteligncia ......................... 29 03. Manifestando
sua inteligncia antes de tomar o clice ............................................................... 43 04. As atitudes incomuns de Cristo na ltima ceia: a
misso ............................................................................. 59 05. Um discurso final emocionante .................................. 79 06.
Vivendo a arte da autenticidade.................................. 97 07. A dor causada pelos amigos ....................................... 115 08. Um clice insuportvel:
os sintomas prvios ............. 133 09. A reao depressiva de Jesus: o ltimo estgio da dor humana ...................................................................
147

010. O clice de Cristo .................................................... 011. O homem como ser insubstituvel ...........................

173 193

Notas bibliogrficas........................................................... 215

#O

MESTRE DA SENSIBILIDADE faz parte da coleo Anlise da Inteligncia de Cristo. Embora

haja interdependncia entre eles, cada livro poder ser lido separadamente, sem obedecer a uma seqncia. O Mestre da sensibilidade teve uma existncia pautada por
desafios, perdas, frustraes e sofrimentos de toda ordem. Ele tinha todos os motivos para ter depresso durante sua trajetria de vida, mas no a adquiriu; pelo
contrrio, era alegre e seguro no territrio da emoo. Tinha tambm todos os motivos para ter ansiedade, mas no a adquiriu; pelo contrrio, era tranqilo, lcido
e sereno. Todavia, no Getsmani, expressou que sua alma estava profundamente triste. O que ele vivenciou nesse momento: depresso ou uma reao depressiva momentnea?
Qual a diferena entre esses dois estados? Quais procedimentos Cristo adotou para administrar seus pensamentos e superar sua dramtica angstia? Jesus disse: "Pai,
se possvel, afaste de mim este clice, mas no faa como eu quero, mas como tu queres!"1. Ele hesitou diante da sua dor? Alguns vem ali recuo e hesitao. Todavia,
se estudarmos detalhadamente seus comportamentos, compreenderemos que ele expressou, naquela noite densa e fria, a mais bela poesia de liberdade, resignao e autenticidade.
Estava plenamente consciente do clice que iria beber. Seria espancado, aoitado, zombado, cuspido; teria uma coroa de espinhos cravada em sua cabea e, por fim,
passaria por seis longas horas na cruz at a sua falncia cardaca. A psicologia e a psiquiatria tm muito a aprender com os pensamentos e reaes que o mestre expressou
ao longo de sua histria, principalmente nos seus ltimos momentos. Diante das mais dramticas situaes, ele demonstrou ser o mestre dos mestres da escola da vida.
Os sofrimentos, ao invs de abat-lo, expandiam sua sabedoria. As perdas, ao invs de destru-lo, refinavam-lhe a arte de pensar. As frustraes, ao invs de desanim-lo,
renovavam-lhe as foras. A misso, propsito ou objetivo de Jesus Cristo  impressionante. No queria apenas colocar o homem numa escola de sbios, mas tambm imergi-lo
na eternidade. Ele valorizava o homem ao mximo, por isso nunca desistia de ningum, por mais que o frustrassem. Sob o cuidado afetivo dele, as pessoas comearam
a contemplar a vida sob outra perspectiva. Investigar a sua personalidade nos far assimilar mecanismos para expandir nossa qualidade de vida e prevenir as mais
insidiosas doenas psquicas da atualidade: a depresso, a ansiedade e o stress.

#e, como os outros livros desta coleo, no trata de religio, no  um estudo teolgico, mas um estudo psicolgico da humanidade de Cristo. Embora no trate de
teologia, provavelmente abordarei detalhes ainda no investigados teologicamente. Podemos estudar grandes pensadores, tais como Plato, Montesquieu, Descartes, Marx,
Max Weber, Adam Smith, Hegel, Freud, Jung, Darwin, todavia ningum foi to complexo, interessante, misterioso, intrigante e de difcil compreenso como Cristo. Como
estudaremos, ele no apenas causou perplexidade nos homens mais cultos da sua poca, mas ainda hoje seus pensamentos e intenes so capazes de perturbar a mente
de qualquer um que queira estud-lo com profundidade e sem julgamentos preconcebidos. Jesus incendiou o mundo com sua vida e sua histria. H mais de dois bilhes
de pessoas que dizem am-lo, integrantes de inmeras religies. Todavia, no  possvel amar algum que no se conhea. E no  possvel conhecer adequadamente a
Jesus Cristo sem estudar os ltimos dias de sua vida, pois ali esto contidos os segredos de sua complexa misso, bem como os mais dramticos elementos que constituram
o seu clice, o seu sofrimento. Ele usou cada segundo do seu tempo, cada pensamento da sua mente e cada gota do seu sangue para mudar o destino no apenas do povo
judeu, mas tambm de toda a humanidade. Ningum foi como ele. Fez milagres espantosos, aliviou a dor de todas as pessoas que o procuraram ou que cruzaram o seu caminho,
mas quando precisou aliviar a sua prpria dor, agiu com naturalidade, esquivou-se de usar o seu poder. O mestre da vida afirmou categoricamente: "eu vim para esta
hora"2. Seu objetivo fundamental seria cumprido nos ltimos momentos de sua histria. Portanto, se quisermos conhec-lo profundamente, precisamos imergir no contedo
dos pensamentos e sentimentos que ele expressou antes de ser preso, julgado e sofrer a morte clnica. Eles revelam seus mais complexos e importantes segredos. Embora
este livro tenha significativas limitaes, meu desejo  que estes textos tragam uma grande ajuda para os que admiram e amam esse personagem bimilenar. Entretanto,
ressalto que este livro no foi escrito apenas para os leitores do cristianismo, mas para todas as pessoas de todo tipo de cultura e religio: judeus, budistas,
islamitas etc. Ele  dirigido tambm aos ateus, pois estes igualmente tm direito de estimular a sua inteligncia a partir das nobilssimas funes intelectuais
do mestre de Nazar. Falando sobre o atesmo, por ter estudado sua dimenso psquica e filosfica, opino que no h ateu, pois todo ateu  o "deus de si mesmo".
Por qu? Porque apesar de desconhecer inmeros fenmenos da existncia, tais como os mistrios do universo, os segredos do tempo e os segredos da construo da inteligncia
humana, os ateus possuem uma crena atesta to absolutista de que Deus no existe que s um "deus" poderia ter. Todo radicalismo intelectual engessa a inteligncia
e fere o bom senso. Gostaria de convidar todos os leitores, ateus ou no, religiosos ou no, a estudarmos juntos a personalidade daquele que revolucionou a trajetria
humana, expressa nas suas quatro biografias ou evangelhos. Embora tenha havido excelentes escritores que discorreram diversos aspectos de sua vida, neste estudo
raramente usarei alguma referncia deles, pois gostaria de voltar s origens e realizar uma anlise a partir do que ele falou, expressou, discursou, reagiu e deixou
subentendido nas entrelinhas dos seus pensamentos e nos seus momentos de silncio. Estud-lo  uma aventura que todos os que pensam no devem se furtar a fazer.
O mestre de Nazar era to surpreendente que objetivava romper o crcere intelectual das pessoas estimulando-as a serem livres no territrio da emoo. Por isso,
expunha suas idias e nunca as impunha. Naqueles ares apareceu um homem convidando as pessoas a pensar nos mistrios da vida.

Est

#As convices pessoais pertencem ao leitor, que deve procur-las com liberdade e conscincia crtica. A divindade de Cristo  uma dessas convices. Entretanto,
independente de tais convices, a personalidade do mestre de Nazar  to intrigante que  possvel extrair dela sabedoria e belssimas lies existenciais. Em
muitos textos discorrerei sobre fenmenos no observveis, pois eles saturam os discursos finais de Cristo, tais como a superao da morte, a eternidade, os limites
do tempo, o seu poder sobrenatural. No entanto, quero que o leitor tenha em mente que, ao estud-los, no estarei investigando os itens relacionados  f ou s convices
ntimas, mas aos intrigantes fenmenos ligados ao seu plano transcendental. Cristo vem da palavra grega "Mashiah" (Messias), que significa o "ungido". Jesus vem
da forma grega e latina do hebraico "Jeshua", que significa "o Senhor  a salvao". Usarei os nomes Cristo, Jesus e mestre de Nazar despreocupadamente, sem a inteno
de explorar os significados de cada um. Apenas em alguns textos darei preferncia especfica a um ou outro e, quando o fizer, o prprio texto deixar clara minha
inteno. Muitos leitores do primeiro livro da srie "Anlise..." me enviaram e-mails e cartas dizendo que, aps sua leitura, abriram as janelas de suas mentes e
ficaram surpresos com a personalidade de Cristo. Entretanto, neste segundo livro, creio que ficaremos mais encantados e at perplexos com a ousadia e complexidade
dos pensamentos do mestre de Nazar, sendo que diversos deles foram produzidos no auge da sua dor.

#CAPTULO

1

A MATURIDADE REVELADA NO CAOS

#

fcil reagirmos e pensarmos com lucidez quando o sucesso bate  nossa porta, mas  difcil

conservarmos a serenidade quando as perdas e as dores da existncia nos invadem. Muitos revelam irritabilidade, intolerncia e medo nessas situaes. Se quisermos
observar a inteligncia e maturidade de algum, no devemos analis-la nas primaveras de sua vida, mas no momento em que atravessa os invernos de sua existncia.
Muitas pessoas, incluindo intelectuais, comportam-se com elegncia quando o mundo os aplaude, mas perturbam-se e reagem impulsivamente quando os fracassos e os sofrimentos
cruzam as avenidas de suas vidas. No conseguem superar suas dificuldades nem mesmo extrair lies de suas intempries. Houve um homem que no se abalava quando
contrariado. Jesus no se perturbava quando seus seguidores no correspondiam s suas expectativas. Diferente de muitos pais e educadores, ele usava cada erro e
dificuldade dos seus ntimos no para acus-los e diminu-los, mas para que revisassem suas prprias histrias. O mestre da escola da vida estava menos preocupado
em corrigir os comportamentos exteriores e mais preocupado em estimul-los a pensar e a expandir a compreenso dos horizontes da vida. Era amigo ntimo da pacincia.
Sabia criar uma atmosfera agradvel e tranqila, mesmo quando o ambiente  sua volta era turbulento. Por isso dizia: "Aprendei de mim, pois sou manso e humilde..."3.
Sua motivao era slida. Tudo ao seu redor conspirava contra ele, mas absolutamente nada abatia seu nimo. Ainda no havia passado pelo caos da cruz. Sua confiabilidade
era to slida, que de antemo proclamava a vitria sobre uma guerra que ainda no tinha travado e que, o que  pior, enfrentaria sozinho e sem armas. Por isso,
apesar de ser ele quem devesse ser confortado pelos seus discpulos, ainda conseguia reunir foras para anim-los momentos antes de sua partida, dizendo: "Tende
bom nimo, eu venci o mundo"4. Muitos psiquiatras e psiclogos possuem lucidez e coerncia quando discorrem sobre os conflitos dos seus pacientes, mas quando tratam
dos seus prprios conflitos, perdas e fracassos, no poucos tm sua estrutura emocional abalada e fecham as janelas da sua inteligncia. Nos terrenos sinuosos da
existncia  que a lucidez e a maturidade emocional so testadas. Ao longo da minha experincia como profissional de sade mental e como pesquisador da psicologia
e educao, estou convencido de que no existem gigantes no territrio da emoo. Podemos liderar o mundo, mas temos enormes dificuldades em administrar nossos pensamentos
nos focos de tenso. Muitas vezes temos comportamentos descabidos, desnecessrios e ilgicos diante de determinadas frustraes. O mestre da escola da vida sabia
das limitaes humanas, sabia que nos  difcil gerenciar nossas reaes nas situaes estressantes. Tinha conscincia de que facilmente erramos e de que facilmente
punimos a ns mesmos ou aos outros. Entretanto, queria de todo modo aliviar o sentimento de culpa que esmagava a emoo e criar um clima tranqilo e solidrio entre
os seus discpulos. Por isso, certo dia,

#ensinou-os a se interiorizarem e orarem, dizendo: "Perdoai as nossas ofensas assim como temos perdoado aqueles que nos tm ofendido"5. Quem vive sob o peso da culpa
fere continuamente a si mesmo, torna-se seu prprio carrasco e, de outro lado, quem  radical e excessivamente crtico dos outros torna-se um "carrasco social".
Na escola da vida no h graduao. Quem nela se "diploma" faz perecer sua criatividade, na medida em que no mais possui a capacidade de ficar assombrado com os
mistrios que a norteiam. Tudo se torna comum para ele, nada havendo que o anime e o instigue. Nessa escola, o melhor aluno no  aquele que tem conscincia do quanto
sabe, mas do quanto no sabe. No  aquele que proclama a sua perfeio, mas o que reconhece suas limitaes. No  aquele que proclama a sua fora, mas o que educa
a sua sensibilidade. Todos temos momentos de hesitao e insegurana. No h quem no sinta o medo e a ansiedade em determinadas situaes. No h quem no se irrite
diante de determinados estmulos. Todos temos fragilidades. S no as enxerga quem  incapaz de viajar para dentro de si mesmo. Uns derramam lgrimas midas; outros,
secas. Uns exteriorizam seus sentimentos; outros, numa atitude inversa, os represam. Alguns, ainda, superam com facilidade determinados estmulos estressantes, parecendo
inabalveis, mas tropeam em outros aparentemente banais. Diante da sinuosidade da vida, como podemos avaliar a sabedoria e a inteligncia de algum: quando o sucesso
lhe bate  porta ou quando enfrenta o caos?  fcil expressar serenidade quando nossas vidas transcorrem num jardim, difcil  quando nos defrontamos com as dores
da vida. Os estgios finais da vida de Cristo foram pautados por dores e aflies. Teria ele conservado seu brilho intelectual e emocional nas suas causticantes
intempries?

O mestre brilhou na adversidade: uma sntese das funes da sua inteligncia
No primeiro livro estudamos a inteligncia insupervel de Cristo. Ele no freqentou escola, era um simples carpinteiro, mas para nossa surpresa expressou as funes
mais ricas da inteligncia: era um especialista na arte de pensar, na arte de ouvir, na arte de expor e no impor as idias, na arte de pensar antes de reagir. Era
um maestro da sensibilidade e um agradvel contador de histrias. Sabia despertar a sede do saber das pessoas, vacin-las contra a competio predatria e contra
o individualismo, estimul-las a serem pensadoras e a desenvolver a arte da tolerncia e da cooperao social. Alm disso, era alegre, tranqilo, brando, lcido,
coerente, estvel, seguro, socivel e, acima de tudo, um poeta do amor e um excelente investidor em sabedoria nos invernos da vida. Cristo foi visto ao longo dos
sculos como um sofredor que morreu na cruz. Tal conceito  pobre e superficial. Temos de analis-lo na sua grandeza. Apenas no pargrafo anterior listei vinte caractersticas
notveis da sua inteligncia. Quem na histria expressou as caractersticas do mestre de Nazar? Raramente algum rene meia dzia dessas caractersticas em sua
prpria personalidade. Elas so universais, por isso foram procuradas de forma incansvel pelos intelectuais e pensadores de todas as culturas e sociedades. Apesar
de Cristo ter possudo uma complexa e rica personalidade, dificilmente algum fala confortavelmente dele em pblico, tal como nas salas de aula de uma universidade
ou numa conferncia de recursos humanos. Sempre que nele se fala h o receio de que se esteja vinculando-o a uma religio. Entretanto,  necessrio discorrer sobre
ele de maneira aberta, desprendida e inteligente. Aquele que teve

#a personalidade mais espetacular de todos os tempos tem de ser investigado  altura que merece. Porm, infelizmente, at nas escolas de filosofia crist, sua vida
e sua inteligncia so pouco investigadas, quando muito so ensinadas nas aulas de ensino religioso. H pouco tempo, minha filha mais velha mostrou-me um livro de
histria geral. Por estranho que parea, este livro resumiu em apenas uma frase a vida daquele que dividiu a histria da humanidade. Como isto  possvel? Nele,
apenas relata-se que Jesus havia nascido em Belm na poca do imperador romano Augusto e morrido na poca de Tibrio. Nem os livros de histria o honram. A superficialidade
com que a histria tratou Jesus Cristo, bem como outros homens que brilharam na sua inteligncia,  um dos motivos que conduzem os jovens de hoje a no crescer,
em sua maioria, no rol dos que pensam. Os educadores no tm conseguido extrair o brilho da sabedoria de Cristo. No conseguem inseri-lo nas aulas de histria, de
filosofia, de psicologia. Eles so tmidos e contrados, no conseguem dizer aos alunos que iro discorrer sobre Jesus sem uma bandeira religiosa, mas ressaltando
a sua humanidade e sua complexa personalidade. Eu realmente creio que, mesmo numa escola que despreza qualquer valor espiritual, como aconteceu na Rssia, o ensino
sistemtico da histria de Cristo poderia revolucionar a maneira de pensar dos seus alunos. At mesmo nas escolas de filosofia budista, hindusta, islamita, judia,
se fossem ensinadas as caractersticas fundamentais da inteligncia do mestre de Nazar, tanto aos alunos do ensino fundamental como aos do ensino mdio e universitrio,
os estudantes teriam mais condies de se tornarem pensadores, poetas da vida, homens que irrigariam a sociedade com solidariedade e sabedoria.

Uma crise na formao de pensadores no terceiro milnio
Uma importante pesquisa que realizei com mais de mil educadores de centenas de escolas apontou que 97% deles consideram que as caractersticas da inteligncia, que
foram vividas e ensinadas exaustivamente pelo mestre de Nazar, so fundamentais para a formao da personalidade humana. Entretanto, para o nosso espanto, mais
de 73% dos educadores relataram que a educao clssica no tem conseguido desenvolver tais funes. Isto indica que ela, apesar de conduzida por professores dedicados,
que so verdadeiros heris annimos, atravessa uma crise dramtica. A educao pouco tem contribudo para o processo de formao da personalidade e para com a arte
de pensar. A escola e os pais esto perdidos e confusos quanto ao futuro dos jovens. No VII Congresso Internacional de Educao* ministrei uma conferncia sobre
"O funcionamento da mente e a formao de pensadores no terceiro milnio". Na ocasio, comentei com os educadores que, no mundo atual, apesar de terem se multiplicado
as escolas e as informaes, no multiplicamos a formao de pensadores. Estamos na era da informao e da informatizao, mas as funes mais importantes da inteligncia
no esto sendo desenvolvidas. Ao que tudo indica, o homem do sculo XXI ser menos criativo do que o do sculo XX. H um clima no ar que denuncia que os homens
do futuro sero repetidores de informaes, e no pensadores. Ser um homem com mais capacidade de dar respostas lgicas, mas com menos capacidade de dar respostas
para a vida, ou seja, com menos capacidade de superar seus desafios, de contemplar o belo, de lidar com suas dores, enfrentar as contradies da existncia e perceber
os sentimentos mais ocultos das pessoas. Infelizmente, ser um homem com menos capacidade de proteger a sua emoo e com mais possibilidade de se expor a doenas
psquicas e psicossomticas.

#A culpa no est nos professores, pois estes possuem um trabalho estressante e, apesar de nem sempre terem salrios dignos, ensinam freqentemente como poetas da
inteligncia. A culpa est no sistema educacional que se arrasta por sculos, que possui teorias que compreendem pouco tanto o funcionamento multifocal da mente
humana como o processo de construo dos pensamentos*. Por isso, enfileira os alunos nas salas de aula e os transforma em espectadores passivos do conhecimento,
e no em agentes modificadores da sua histria pessoal e social. O mestre de Nazar queria produzir homens que se interiorizassem e que fossem ricos e ativos nos
bastidores da inteligncia. Entretanto, vivemos numa sociedade que exterioriza o homem. A competio predatria, a parania da esttica e a parania do consumismo
tm ferido o mundo das idias, tm contrado o processo de interiorizao e a busca de um sentido mais nobre para a vida. Invertemos os valores: a embalagem vale
mais que o contedo, a esttica mais do que a realidade. O resultado disso? Infelizmente est nos consultrios de psiquiatria e de clnica mdica. A depresso, os
transtornos ansiosos e as doenas psicossomticas ocuparo os primeiros lugares entre as doenas do homem do sculo XXI. Por favor, no vamos culpar excessivamente
a famosa serotonina contida no metabolismo cerebral por estes transtornos psquicos. Precisamos ter uma viso multifocal e perceber que h importantes causas psquicas
e psicossociais na base deles. Os jovens, bem como os adultos, no aprendem a viver a vida como um espetculo. No se alegram por pertencerem a uma espcie que possui
o maior de todos os espetculos naturais, o espetculo da construo de pensamentos. Como  possvel um ser humano, tanto um intelectual quanto algum desprovido
de qualquer cultura acadmica, conseguir em milsimos de segundos acessar a memria e, em meio a bilhes de opes, resgatar as informaes que constituiro as cadeias
de pensamentos? Voc no fica pasmado com a mente humana? Eu fico assombrado com a construo da inteligncia.  possvel se encantar e perceber complexidade at
na inteligncia de uma criana deficiente mental ou autista. Na minha experincia com crianas autistas, cujo crtex cerebral est preservado, quando estimulamos
os fenmenos que constroem os pensamentos, muitas delas desabrocham para a convivncia social como uma flor que recusa a solido e quer pertencer a um jardim. Quem
no  capaz de se encantar com o espetculo dos pensamentos nunca penetrou em reas mais profundas do seu prprio ser. Os pensamentos mais dbeis que produzimos
so, ainda que no percebamos, construes complexas. To complexas que a psicologia ainda se sente uma "cincia menina" para compreender os fenmenos que delas
participam. Quem  incapaz de contemplar a vida tambm no consegue homenage-la a cada manh. No consegue acordar e bradar: "Que bom! Eu estou vivo. Posso viver
o espetculo da vida por mais um dia". Quantas vezes olhamos para o universo e declaramos que, embora sejamos to pequenos e possuamos tantas dificuldades e erros,
somos um ser nico e exclusivo; um ser que pensa e tem conscincia de que existe? Cristo vivia a vida como um espetculo. Tdio no fazia parte da sua histria.

Contrapondo-se s sociedades modernas
O mestre de Nazar tinha posies contrrias s das sociedades modernas. Ele provocava a inteligncia das pessoas que o circundavam e as arremetia para dentro de
si mesmas. Conduzia-as a viver a vida como um espetculo de prazer e de inteligncia. A presena dele animava o pensamento e estimulava o sentido da vida. Um dia,
apontando um deficiente fsico, algumas pessoas querendo saber o motivo dessa deficincia, indagaram-lhe: "Quem pecou, ele ou os seus pais?"6.

#Aquelas pessoas esperavam que ele dissesse que a deficincia era devido a um erro que ele mesmo havia cometido ou que os seus pais tivessem cometido no passado.
Tais pessoas estavam escravizadas pelo binmio do certo e errado, do erro e da punio. Mas, para surpresa delas, ele disse uma frase de difcil interpretao: "Nem
ele nem seus pais, mas aquela deficincia era para a glria de Deus"7. Aparentemente suas palavras eram estranhas, mas por meio delas ele colocou as dores da existncia
em outra perspectiva. Todos ns abominamos as dores e dificuldades da vida. Procuramos bani-las a qualquer custo de nossas histrias. Entretanto, o mestre da escola
da vida queria dizer que o sofrimento deveria ser trabalhado e superado no mago do esprito e da alma. Tal superao produziria algo to rico dentro da pessoa deficiente
que a sua limitao se tornaria uma "glria para o Criador". De fato, as pessoas que superam as suas limitaes fsicas e emocionais (depresso, sndrome do pnico
etc.) ficam mais bonitas, exalam um perfume de sabedoria que denuncia que a vida vale a pena ser vivida, mesmo com suas turbulncias. Jesus queria expressar que
era possvel ter deficincias e dificuldades e, ainda assim, viver a vida como um espetculo de prazer. Um espetculo que somente pode ser vivido por aqueles que
sabem caminhar dentro de si mesmos e se tornar agentes modificadores de sua histria.

A lgica do mestre tem fundamento
Do ponto de vista psiquitrico, o mestre estava coberto de razo, pois se transformamos as pessoas que sofrem em pobres miserveis, em vtimas da vida, ns matamos
a sua capacidade de criar e de transcender as suas dores. Transformar um paciente numa pobre vtima de sua depresso  um dos maiores riscos da psiquiatria. O homem
que enfrenta com inteligncia e crtica a sua depresso tem muito mais chances de super-la. Aqueles que tm medo da dor, no apenas tm mais dificuldade de super-la,
mas mais chances de ficar dependentes do seu terapeuta. O homem moderno, principalmente o jovem, no sabe lidar com suas limitaes, no sabe o que fazer com suas
dores e frustraes. Muitos querem que o mundo gravite em torno de si mesmos. Eles tm grande dificuldade de enxergar algo alm das suas prprias necessidades. Neste
ambiente, a alienao social, a busca do prazer imediato, a agressividade e a dificuldade de se colocar no lugar do outro se cultivam amplamente. Diante dessas caractersticas,
a educao no os alcana e, portanto, no rompe a rigidez intelectual em que eles se encontram. Somente uma revoluo na educao pode reverter este quadro. Trs
a quatro anos que os alunos ficam enfileirados passivamente nas salas de aula no ensino fundamental so suficientes para causar um rombo no processo de formao
de suas personalidade. Eles nunca mais conseguiro, sem despender um custo emocional alto, levantar suas mos em pblico e expor suas dvidas. O fato de os alunos
no serem colocados como agentes ativos do processo educacional trava a criatividade e a liberdade de expresso dos pensamentos, mesmo quando estiverem na universidade
ou cursando mestrado e doutorado. Uma das caractersticas fundamentais de Cristo era transformar os seus seguidores em pessoas ativas, dinmicas e que soubessem
expressar seus sentimentos e pensamentos. Ele no queria um grupo de pessoas passivas, tmidas e que anulassem as suas personalidades. A cada momento ele instigava
a inteligncia deles e procurava libert-los do seu crcere intelectual. Os textos das suas biografias so claros. Ele ensinava perguntando, instigando a inteligncia
e procurando romper toda timidez e toda a distncia com ele. Ele nem mesmo gostava de ser exaltado. Embora fosse reconhecido como o filho de Deus, cruzava a sua
histria com a deles e os tomava como seus amados amigos.

#CAPTULO

2

O SEMEADOR DE VIDA E DE INTELIGNCIA

#O semeador da Galilia superando mtodos da educao moderna
H duas maneiras de se fazer uma fogueira: com as sementes ou com um punhado de lenha. Qual maneira voc escolheria? Fazer fogueira com uma semente parece um absurdo,
loucura. Todos, certamente, escolheramos a lenha. Entretanto, o mestre de Nazar pensava a longo prazo, por isso sempre escolhia as sementes. Ele as plantava, esperava
que as rvores crescessem, dessem milhares de outras sementes e, a sim, fornecessem a lenha para a fogueira. Se escolhesse a lenha, acenderia a fogueira apenas
uma vez, mas como preferia as sementes, a fogueira que acendia nunca mais se apagava. Um dia ele comparou a si mesmo a um semeador que semeia no corao dos homens.
Um semeador do amor, da paz, da segurana, da liberdade, do prazer de viver, da dependncia recproca. Quem no consegue enxergar o poder contido em uma semente
nunca mudar o mundo que o envolve, nunca influenciar o ambiente social e profissional que o cerca. Uma mudana de cultura s ser legtima e consistente se ocorrer
por intermdio das singelas e ocultas sementes plantadas na mente dos homens e no por intermdio da imposio de pensamentos. Gostamos das labaredas instantneas
do fogo, das idias- relmpagos dos livros de auto-ajuda, mas no temos pacincia e, s vezes, habilidade para semear. Um semeador nunca  um imediatista, presta
mais ateno nas razes do que nas folhagens. Vive a pacincia como uma arte. Os pais, os educadores, os psiclogos, os profissionais de recursos humanos s conseguiro
realizar um belo e digno trabalho se aprenderem a ser mais do que provedores de regras e de informaes, mas simples semeadores. Os homens que mais contriburam
com a cincia e com o desenvolvimento social foram aqueles que menos se preocuparam com os resultados imediatos. Uns preferem as labaredas dos aplausos e do sucesso
instantneo, outros preferem o trabalho annimo e insidioso das sementes. O que preferimos? De nossa escolha depender a nossa colheita. Cristo sabia que logo iria
morrer, mas, ainda assim, no era apressado, agia como um inteligente semeador. No queria transformar seus discpulos em heris e nem exigia deles o que no podiam
lhe dar; por isso, permitiu-lhes que o abandonassem no momento em que foi preso. As sementes que ele plantava dentro dos galileus incultos que o seguiam um dia germinariam.
Tinha esperana de que elas criariam razes no cerne do esprito e da mente deles e mudariam para sempre suas histrias. Essas sementes, uma vez desenvolvidas, tornariam
aqueles homens capazes de mudar a face do mundo.  incrvel, mas este fato ocorreu. Eles incendiaram o mundo com os pensamentos e propsitos do carpinteiro da Galilia.
Que sabedoria se escondia no cerne da inteligncia de Cristo! Nietzsche disse h um sculo uma famosa e ousadssima frase: "Deus est morto"*. Ele expressava o pensamento
dos intelectuais da poca, que acreditavam que a cincia resolveria todas as misrias humanas e, por fim, destruiria a f. Provavelmente este intrpido filsofo
achasse que um dia a procura por Deus seria apenas lembrada como objeto de museus e dos livros de histria. Os filsofos ateus morreram e hoje so esquecidos ou
pouco lembrados, mas aquele afetivo e simples carpinteiro continua cada vez mais vivo dentro dos homens. Nada conseguiu apagar a fogueira acendida pelo semeador
da Galilia... Depois que Gutenberg inventou as tcnicas modernas de imprensa, o livro que o retrata, a Bblia, se tornou invariavelmente o maior best-seller de
todos os tempos. Todos os dias, milhes de pessoas lem algo sobre ele. O mestre de Nazar parecia ter uma simplicidade frgil, mas a histria demonstra que ele
sempre triunfou sobre aqueles que quiseram sepult-lo. Alis, o maior favor que algum pode fazer a uma

#semente  sepult-la. Jesus foi uma fagulha que nasceu entre os animais, cresceu numa regio desprezada, foi silenciado pela cruz, mas incendiou a histria humana.
O mestre deu um banho de inteligncia na educao moderna. Ele provocou uma revoluo no pensamento humano jamais sonhada por uma teoria educacional ou psicolgica.
H uma chama que se perpetua dentro daqueles que aprenderam a am-lo e conhec-lo. Nos primeiros sculos, muitos dos seus seguidores foram impiedosamente destrudos
por causa desta chama. Os romanos fizeram dos primeiros cristos pastos para as feras e um espetculo de dor nas batalhas ocorridas no Coliseu e, principalmente,
no circu mximo. Alguns foram queimados vivos, outros mortos ao fio da espada. Todavia, as lgrimas, a dor e o sangue destes homens no destruram o nimo dos amantes
do semeador da Galilia; pelo contrrio, tornaram-se adubos para cultivar novas safras de sementes.

A liberdade gerada pela democracia poltica em contraste com o crcere intelectual
Apesar de o mestre de Nazar ter provocado uma revoluo no pensamento humano e inaugurado uma nova forma de viver, as funes mais importantes da inteligncia que
ele expressou no tm sido incorporadas nas sociedades modernas. Vivemos na era da alta tecnologia, tudo  muito veloz e sofisticado. Parece que tudo o que ele ensinou
e viveu  to antigo que est fora de moda. Porm seus pensamentos so atuais e suas aspiraes ainda so, como veremos, chocantes. Perdemos o contato com as coisas
simples, perdemos o prazer de investir em sabedoria. Um dos maiores riscos do uso da alta tecnologia, principalmente dos computadores,  engessar a capacidade de
pensar. Lembremos que aqueles que so viciados nas calculadoras muitas vezes se esquecem de como fazer as operaes matemticas mais simples. Tenho escrito sobre
a tecnofobia ou fobia de novas tcnicas. O medo de usar novas tcnicas pode refletir um sentimento de incapacidade de incorporar novos aprendizados. Todavia, apesar
de apoiar o uso de novas tcnicas e discorrer sobre a tecnofobia, a "internetdependncia" e a tecnodependncia podem engessar a criatividade e a arte de pensar.
Os EUA so a sociedade mais rica do globo. Alm disso, so o estandarte da democracia. Entretanto, a farmacodependncia, a discriminao racial e a violncia nas
escolas so sinais de que a riqueza material, o acesso  alta tecnologia e  democracia poltica so insuficientes para expandir a qualidade de vida psquica e social
do homem. A tecnopedagogia, ou seja, a tecnologia educacional, no tem conseguido produzir homens que amam a tolerncia, a solidariedade, que venam a parania de
ser o nmero um, que tm prazer na cooperao social e se preocupam com o bem-estar dos conscios de sua sociedade. A democracia poltica produz a liberdade de expresso,
mas ela no  por si mesma geradora da liberdade de pensamento. A liberdade de expresso sem a liberdade do pensamento provoca inmeras distores, uma das quais
 a discriminao. Por incrvel que parea, as pessoas no compreendem que dois seres humanos que possuem os mesmos mecanismos de construo da inteligncia no
podem jamais ser discriminados pela fina camada de cor da pele, por diferenas culturais, nacionalidade, sexo e idade. Jesus vivia numa poca na qual a discriminao
fazia parte da rotina social. Os que tinham a cidadania romana se consideravam acima dos mortais. De outro lado, a cpula judaica, por carregar uma

#cultura milenar, se considerava acima da plebe. Abaixo da plebe havia os publicanos ou coletores de impostos que eram uma raa odiada pelo colaboracionismo com
Roma, os leprosos que eram banidos da sociedade e as prostitutas que eram apenas dignas de morte. Contudo, apareceu um homem que colocou de pernas para o ar aquela
sociedade to bem definida. Sem pedir licena e sem se preocupar com as conseqncias do seu comportamento, entrou naquela sociedade e revolucionou as relaes humanas.
Ele dialogava afavelmente com as prostitutas, jantava na casa de leprosos e era amigo dos publicanos. E, para espanto dos fariseus, Jesus ainda teve a coragem de
dizer que publicanos e meretrizes os precederiam no reino de Deus. Cristo escandalizou os detentores da moral de sua poca. O regime poltico sob o qual ele vivia
era totalitrio. Tibrio, imperador romano, era o senhor do mundo. Porm, apesar de viver num regime antidemocrtico, sem nenhuma liberdade de expresso, ele no
pediu licena para falar. Por onde ele andava, trazia alegria, mas no poucas vezes tambm problemas, pois amava expressar o que pensava, era um pregador da liberdade.
Mas, por se preocupar mais com os outros do que consigo mesmo, sua liberdade era produzida com responsabilidade. Milhes de jovens esto estudando nas sociedades
modernas. Eles vivem num ambiente democrtico, que lhes propicia a liberdade de expresso. Contudo, so livres por fora, mas no no territrio dos pensamentos. Por
isso, so presas fceis da discriminao, da violncia social, da autoviolncia, da parania da esttica e das doenas psquicas. Muitos desses jovens superdimensionam
o valor de alguns artistas, polticos e intelectuais e gravitam em torno das suas idias e comportamentos e no sabem que, ao superdimension-los, esto diminuindo
a si mesmos, reduzindo o seu prprio valor. Aprender a construir uma liberdade com conscincia crtica, a proteger a emoo e a desenvolver a capacidade de ver o
mundo tambm com os olhos dos outros so funes importantssimas da inteligncia, mas tm sido pouco desenvolvidas no mundo democrtico. Vivemos uma crise educacional
sem precedentes. Estamos resolvendo nossos problemas externos, mas no os internos. Somos uma espcie nica entre dezenas de milhes de espcies na natureza. Por
pensar e ter conscincia do fim da vida, colocamos grades nas janelas para nos defender, cintos de segurana para nos proteger, contratamos o pedreiro para corrigir
as goteiras do telhado, o encanador para solucionar o vazamento da torneira, todavia no sabemos como construir a mais importante proteo, a proteo emocional.
 mnima ofensa, contrariedade e perda, detonamos o gatilho instintivo da agressividade. A histria de sangue e violao dos direitos humanos depe contra a nossa
espcie. Nas situaes de conflitos usamos mais os instintos do que a arte de pensar. Nessas situaes, a violncia sempre foi uma ferramenta mais utilizada do que
o dilogo. Os homens podiam ser violentos com Cristo, mas ele era dcil com todos. Quando os homens vieram prend-lo, ele se adiantou e perguntou a quem procuravam.
Ele no admitia no apenas a violncia fsica, mas at mesmo a violncia emocional. Disse: "Qualquer um que irar contra seu irmo est sujeito ao julgamento"8. At
a ira no expressa no era admitida. Os que andavam com ele tinham de aprender no apenas a viver em paz dentro de si mesmos, mas at mesmo a se tornar pacificadores.
No sermo do monte das Oliveiras, bradou eloqentemente: "Bem-aventurados os pacificadores, porque sero chamados filhos de Deus"9. Nas sociedades modernas, os bem-aventurados
so aqueles que tm status social, dinheiro, cultura acadmica. Todavia, para aquele mestre incomum, os bem-aventurados so aqueles que exalam a paz onde quer que
estejam, que atuam como bombeiros da emoo, que so capazes de abrandar a ira, o dio, a inveja, o cime e, ainda por cima, estimular o dilogo entre as pessoas
com as quais convivem. No seu pensamento, se formos incapazes de realizar tal tarefa, no somos felizes nem privilegiados.

#Nas sociedades modernas, as pessoas amam o individualismo e se preocupam pouco com o bemestar dos outros. A troca de experincias de vida se tornou uma mercadoria
escassa. Falam cada vez mais do mundo exterior e cada vez menos de si mesmos. Infelizmente, as pessoas s conseguem falar de si mesmas quando vo a um psiquiatra
ou psicoterapeuta. Lembro-me de uma paciente que, no auge dos seus cinqenta anos, disse-me que quando adolescente procurou sua me para conversar sobre um conflito
que estava atravessando. A me, atarefada, disse que no tinha tempo naquele momento. O gesto dessa me mudou a histria de vida dessa filha. Por no conseguir decifrar
a angstia de sua filha, ela, com um simples gesto, sepultou a comunicao entre elas. A filha nunca mais a procurou para conversar sobre suas dores e dvidas. O
mestre de Nazar era o maior de todos os educadores. Ele era o mestre da comunicao. No que falasse muito, mas criava uma atmosfera prazerosa e sem barreiras.
Conseguia ouvir o que as palavras no diziam. Conseguia perscrutar os pensamentos clandestinos. As pessoas se surpreendiam pela maneira como ele se adiantava e proferia
os pensamentos que estavam represados dentro delas. Se s conseguimos ouvir o que as palavras acusam, no temos sensibilidade, somos mecanicistas. Jesus no cativava
as pessoas apenas pelos seus milagres, mas muito mais pela sua sensibilidade, pela maneira segura, afvel e penetrante de ser. No queria que as pessoas o seguissem
pelos seus atos sobrenaturais, nem procurava simpatizantes que o aplaudissem, mas como garimpeiro do corao procurava homens que o seguissem com liberdade e conscincia.
Procurava homens que compreendessem sua mensagem, que vivessem uma vida borbulhante dentro de si mesmos, para depois mudarem o mundo que os circundava.

Uma experincia educacional
Ultimamente, devido s minhas pesquisas sobre a inteligncia de Cristo, tenho dado conferncias em diversos congressos educacionais sobre um tema ousado e incomum:
"A Inteligncia do Mestre dos Mestres Analisada pela Psicologia e Aplicada na Educao". Os educadores, antes de ouvirem a minha abordagem, tm ficado intrigados
com o tema proposto. Uma nuvem de pensamentos perturbadores circula nos bastidores de suas mentes. Afinal de contas, nunca tinham ouvido ningum falar sobre esse
assunto. Ficam chocados e, ao mesmo tempo, curiosos para saber como ser abordada a personalidade de Cristo e que tipo de aplicao poder ser feita na psicologia
e na educao. Alguns indagam: como  possvel estudar um tema to complexo e polmico? O que um psiquiatra e pesquisador da psicologia tem a dizer a este respeito?
Ser que ele far um discurso religioso? Ser que  possvel extrair sabedoria de uma pessoa que s  abordada teologicamente? Antes de iniciar essas palestras,
sabia que os educadores constituam uma platia de pessoas heterogneas, tanto em cultura, quanto em religio e habilidades intelectuais. Sabia tambm que suas mentes
estavam em suspense e saturadas de preconceitos. Como tenho aprendido a ser ousado e fiel  minha conscincia, eu no me importava com os conflitos iniciais. Aps
comear a discursar sobre a inteligncia de Cristo, os professores comeavam pouco a pouco a se encantar. Comeavam a relaxar e a se recostar cada vez mais em suas
poltronas: o silncio era total, a concentrao era enorme e a participao deles se tornava uma poesia do pensamento. Aps o trmino dessas palestras, muitos educadores
se levantavam e aplaudiam entusiasticamente, no a mim, mas ao personagem sobre quem eu havia discorrido. Relatavam a uma s voz que nunca compreenderam Cristo dessa
forma. Nunca pensaram que ele fosse to sbio e inteligente e que o que ele viveu poderia ser no apenas aplicado na psicologia e na educao, mas tambm em suas
prprias vidas.

#Nunca imaginaram que seria possvel discorrer sobre ele sem tocar em uma religio, deixando uma abertura para que cada um seguisse o seu prprio caminho. No poucos
relataram que ao compreender a humanidade elevada de Cristo suas vidas ganharam um outro sentido e a arte de ensinar ganhou um novo alento. Contudo, no me entusiasmo
muito, pois demorar anos para que a sua personalidade seja estudada e aplicada no currculo escolar e para que os alunos e os professores discorram sobre ele sem
temores. De qualquer forma, uma semente foi plantada e talvez, no futuro, germine. As salas de aula tm se tornado um ambiente estressante, s vezes uma praa de
guerra, um campo de batalha. Educar sempre foi uma arte prazerosa, mas atualmente tem sido um canteiro de ansiedade. Se Plato vivesse nos dias de hoje, ele se assustaria
com o comportamento dos jovens. Este afvel e inteligente filsofo discorreu que o aprendizado gerava um raro deleite. Todavia, o prazer de aprender, de incorporar
o conhecimento est cambaleante.  mais fcil dar tudo pronto aos alunos do que estimullos a pensar. Por isso, infelizmente, temos assistido a um fenmeno educacional
paradoxal: "Aprendemos cada vez mais a conhecer o pequenssimo tomo e o imenso espao, mas no aprendemos a conhecer a ns mesmos, a ser caminhantes nas trajetrias
do nosso prprio ser". Alguns dos discpulos do mestre de Nazar tinham um comportamento pior do que muitos alunos rebeldes da atualidade, mas ele os amava independentemente
dos seus erros. O semeador da Galilia estava preocupado com o desafio de transform-los. Ele era to cativante que despertou a sede do saber naqueles jovens, em
cujas mentes no havia mais do que peixes, aventura no mar, impostos e preocupao com a sobrevivncia. Algo aconteceu no cerne da alma e do esprito deles e de
milhares de pessoas. A multido, cativada, levantava de madrugada e procurava por aquele homem extremamente atraente. Por que os homens se sentiam atrados por ele?
Porque viram nele algo alm de um carpinteiro, algo mais do que um corpo surrado pela vida. Enxergaram nele aquilo que os olhos no conseguem penetrar. O mestre
os colocou numa escola sem muros, ao ar livre. E, por estranho que parea, nunca dizia onde ele estaria no dia seguinte, onde seria o prximo encontro, se na praia,
no mar, no deserto, no monte das Oliveiras, no prtico de Salomo ou no templo. O que indica que ele no pressionava as pessoas a segui-lo, mas desejava que elas
o procurassem espontaneamente: "Quem tem sede venha a mim e beba"10. Os seus seguidores entraram numa academia de sbios, numa escola de vencedores. As primeiras
lies dadas queles que almejavam ser vencedores eram: aprender a perder, reconhecer seus limites, no querer que o mundo gravitasse em torno de si, romper o egosmo
e amar ao prximo como a si mesmo. Almejava que eles se conhecessem intimamente e fossem transformados intrinsecamente. Os textos das suas biografias so claros,
ele ambicionava mudar a sua natureza humana, e no melhor-la ou reform-la.

#CAPTULO 3

MANIFESTANDO SUA INTELIGNCIA ANTES DE TOMAR O CLICE

#Os partidos polticos de Israel
Antes de discorrer sobre o clice de Cristo, gostaria de comentar sinteticamente sobre a cpula judaica que o condenou. Na sua ltima semana de vida, a inteligncia
do mestre foi intensamente testada pelos partidos polticos que compunham a cpula judaica: os fariseus, os saduceus e os herodianos. Apesar de testado, o mestre
de Nazar silenciou todos os intelectuais de Israel. Os fariseus pertenciam  mais influente das seitas do judasmo no tempo de Cristo. Por serem judeus ortodoxos,
o zelo pela lei mosaica os levava a uma observncia estrita da lei e de suas tradies, embora externa e degenerada. Conheciam as Escrituras11, jejuavam e oravam;
entretanto, viviam uma vida superficial, pois se preocupavam mais com o exterior do que com o interior. Os fariseus eram os inimigos mais agressivos de Jesus. Eles
davam ordens aos homens que eles mesmos no conseguiam cumprir e se consideravam justos aos seus prprios olhos12. Os escribas pertenciam geralmente ao partido dos
fariseus. Eram membros de uma profisso altamente respeitada em sua poca. Reuniam  sua volta discpulos a quem instruam sobre as possibilidades de interpretao
da lei, pois eram estudantes profissionais da lei e das suas tradies. Tambm atuavam como advogados, sendo-lhes confiada a condio de juzes no sindrio13. Os
saduceus, cujos membros provinham principalmente das classes mais abastadas e do sacerdcio, eram os anti-sobrenaturalistas da poca de Cristo. No criam na ressurreio
corporal e no juzo futuro14. Embora defendessem a lei escrita, criticavam as tradies orais observadas pelos fariseus. Eram o partido das famlias dos sumo sacerdotes
de Jerusalm, com interesses diretos no aparelho de culto do templo e freqentemente colaboravam com os governantes romanos. Opunham-se a Cristo com igual veemncia
 dos fariseus e foram por ele condenados com igual severidade, embora com menos freqncia15. Os herodianos eram um partido minoritrio de Israel. Eram malvistos
pelos demais partidos pela ideologia que carregavam de conviver com o Imprio Romano.O nome herodiano deriva do rei "Herodes, o grande". Herodes, como veremos, se
tornou o grande rei da Judia e da Galilia. Era um rei poderoso e criativo, mas, ao mesmo tempo, um carrasco sanguinrio. Foi ele quem mandou matar as crianas
menores de dois anos objetivando destruir o menino Jesus.

Um perturbador da ordem social
O mestre implodiu a maneira de pensar e de viver dos homens que constituam a cpula de Israel. A cpula de Israel era rgida, radical, moralista. Como disse, ela
odiava os coletores de impostos e apedrejava as prostitutas. No se misturava com as pessoas simples e pouco se importava com suas necessidades bsicas. Entretanto,
apareceu naqueles ares um homem simples, mas que possua uma eloqncia incomum. Surgiu um homem sem aparncia, mas que encantava as multides. Um homem que tinha
coragem de expressar que era o prprio filho de Deus, filho nico do autor da existncia. Para o espanto da cpula judaica, no bastasse essa "heresia", ele ainda
discursava sobre a linguagem do amor e era afvel com os

#miserveis de Israel. Este homem pervertia a moral reinante naquela sociedade milenar. Chegava at a perdoar erros, falhas, "pecados". Para os judeus, somente o
Deus altssimo poderia ter tal atributo. Apareceu um homem que no tinha medo de ser morto e nenhum receio de dizer o que pensava, pois alm de chamar a maquiagem
moralista dos fariseus de hipocrisia, teve a coragem de desafiar o governo de Roma. Mandou um recado destemido ao violento Herodes Antipas (filho de "Herodes, o
Grande"), governador da Galilia, aquele que mandou cortar a cabea de Joo Batista. Chamou-o de raposa e disse com uma ousadia incomum que no morreria na Galilia,
mas que caminharia hoje, amanh e depois, at chegar  Judia, "porque no se espera que um profeta morra fora de Jerusalm"16. Herodes queria mat-lo, mas ele no
o temia, apenas queria morrer em Jerusalm, e no na Galilia. Jesus perturbava tanto os intelectuais de Israel que causava insnia em quase todos eles. Os seus
pensamentos e sua maneira de ser se confrontavam com a deles. Apenas Nicodemos, Jos de Arimatia e alguns outros fariseus foram seduzidos por ele. A grande massa
da cpula judaica, que compunha o sindrio, odiava-o e queria mat-lo de qualquer maneira. Mas como mat-lo se o povo o amava e estava continuamente ao seu lado?
Ento comearam a testar a sua inteligncia para ver se ele caa em contradio e se autodestrua com suas prprias palavras. Testaram a sua capacidade de pensar,
sua integridade, sua perspiccia, seu conhecimento sobre as Escrituras antigas, sua relao com a nao de Israel e com a poltica romana. No podemos nos esquecer
de que a cultura de Israel sempre foi uma das mais brilhantes e que os intelectuais dessa sociedade tinham grande capacidade intelectual. Portanto, ao test-lo,
eles lhe prepararam perguntas que eram verdadeiras armadilhas intelectuais. Dificilmente algum conseguiria escapar dessas armadilhas.Para algumas dessas perguntas
simplesmente no existiam respostas. Entretanto, aquele homem, mais uma vez, deixou-os confusos com sua inteligncia. Alguns at ficaram perplexos diante da sua
sabedoria. Vejamos um exemplo.

Silenciando os fariseus e os herodianos
Jesus causou tanta indignao aos seus opositores que produziu alguns fenmenos polticos quase impossveis de ocorrer. Os homens de partidos radicalmente opostos
se uniram para destru-lo. Os fariseus tinham grande rixa poltica com os herodianos. Entretanto, por considerarem o carpinteiro de Nazar uma grande ameaa, eles
se associaram para estabelecer uma estratgia comum para mat-lo. Aquele simples homem da Galilia foi considerado uma ameaa  nao de Israel maior do que a causada
pelo poderoso Imprio Romano. A cpula de Israel tinha medo de que ele fosse contaminar a nao com suas idias. De fato, ela tinha razo de tem-lo, pois suas idias
eram altamente contagiantes. Sem pegar em qualquer tipo de arma, o mestre de Nazar causou a maior revoluo da histria da humanidade... Os fariseus e os herodianos
engendraram uma excelente estratgia para destru-lo. Eles produziram uma pergunta, cuja resposta o autodestruiria, pois o colocaria contra Roma ou contra a nao
de Israel. Vieram at ele e, inicialmente, comearam a fazer clebres bajulaes. Elogiaram sua inteligncia e capacidade. Disseram: "Mestre, sabemos que falas e
ensinas corretamente e no consideras a aparncia dos homens, antes ensinas o caminho de Deus com toda a verdade"17. Aps essa longa e falsa sesso de elogios, desferiram
o golpe mortal. Propuseram uma pergunta praticamente insolvel. Disseram: "Mestre,  lcito pagar imposto a Csar, ou no?"18.

#Qualquer resposta que desse o comprometeria: ou o colocaria como traidor da nao de Israel ou em confronto direto com o Imprio Romano. Se defendesse a liberdade
de Israel e dissesse que era ilcito pagar imposto a Csar, os seus opositores o entregariam a Pilatos para que fosse executado, embora tambm considerassem injusto
tal tributo. Se dissesse que era lcito pagar tributo a Csar, aqueles homens o jogariam contra o povo que o amava, pois o povo passava fome na poca, e um dos motivos
era o jugo de Roma. No havia soluo, a no ser que se intimidasse e se omitisse. Suas palavras certamente abririam a vala da sua sepultura. Nas sociedades democrticas
ningum  condenado por expressar seus pensamentos e convices. Porm, imperando numa sociedade o autoritarismo, as palavras podem condenar algum  morte. Na Rssia
de Stalin muitos homens foram condenados por algumas palavras ou gestos. Entrar na rota de coliso com Moscou era assinar a sentena de morte. Milhes de homens
foram mortos injustamente por Stalin, que se mostrou um dos maiores carrascos da histria. Matou quase todos os seus amigos de juventude. Havia uma verdadeira poltica
de terror percorrendo os vasos sangneos daquela sociedade. Muitos morreram apenas porque interpretaram distorcidamente seus pensamentos. O autoritarismo esmaga
a liberdade de expresso. Na poca de Cristo, a vida valia muito pouco. Havia escravos em toda parte. Roma era detentora das leis mais justas dos povos antigos,
tanto assim que essas leis influenciaram o direito nas sociedades modernas. Entretanto, a eficcia da lei depende da interpretao humana. As leis, ainda que justas
e democrticas, manipuladas por pessoas autoritrias so distorcidas ou no aplicadas. Ningum podia afrontar o regime de Roma. H dcadas o poder de Roma havia
se transferido do senado para o autoritarismo de um imperador. Tibrio, o imperador romano na poca, mandou matar muitas pessoas que se opunham a ele. Pilatos, o
governador preposto da Judia, tambm era um homem brutal. Questionar o imprio era assinar a sentena de morte. Os fariseus sabiam disso, pois muitos judeus foram
mortos devido a pequenas revoltas e motins. Devem ter pensado: j que Roma  um inimigo cruel, por que no colocar Jesus contra o regime? Ou ento: se no conseguirmos
coloc-lo contra Roma, ento, certamente, conseguiremos coloc-lo contra o povo. A pergunta que lhe fizeram era ameaadora. O impasse era grande. Qualquer um sentiria
medo e calafrios ao respond-la. Quando somos submetidos a um intenso foco de tenso, fechamos as janelas da inteligncia. Imagine um carro freando em cima de ns.
Temos reaes instintivas imediatas, tais como taquicardia, aumento da presso sangnea, da freqncia respiratria. Tais reaes nos preparam para lutar ou fugir
(to fight or to flight) dos estmulos estressantes. Assim, quando submetido a um stress intenso, o corpo reage e a mente se retrai. Sob o risco de vida, travamos
nossa capacidade de pensar. Se Cristo bloqueasse sua capacidade de pensar, estaria morto. Sabia que logo iria morrer, mas no queria morrer naquela hora e nem de
qualquer maneira. Queria morrer num dia determinado e de um modo peculiar; morrer crucificado, que era o modo mais indigno e angustiante que os homens j tinham
inventado. Mas como ele poderia escapar da insolvel pergunta que os herodianos e os fariseus lhe propuseram? Como ele poderia abrir a inteligncia daqueles homens
que estavam sedentos de sangue?

Uma resposta surpreendente
Cristo teria de dar uma resposta que no apenas saciasse os seus opositores, mas uma que causasse uma reao surpreendente na mente deles. No podia ser uma resposta
apenas inteligente, tinha de ser espetacular, pois somente assim ela estancaria o dio e os faria desistir daquele iminente assassinato. O mestre possua uma sabedoria
incomum. O ambiente ameaador no o perturbava. Nas situaes mais tensas, ele, ao invs de travar a leitura da memria e agir por instinto, abria o leque do pensamento

#e conseguia dar respostas brilhantes e em tempo recorde. Quando todos pensavam que no havia outra alternativa, a no ser pender para o lado de Israel ou para o
lado de Roma, ele os surpreendeu. O mestre mandou pegar uma moeda, o dracma, e olhou para a efgie nela cunhada. Nela estava inscrito: "Tibrio Cezar deus"*. Aps
olhar a efgie, fitou aqueles homens e perguntou: "De quem  essa efgie?". Disseram: "De Csar". Ento, para surpresa deles, disse: "Dai a Csar o que  de Csar
e a Deus o que  de Deus"19. Tibrio, como imperador romano, queria ser o senhor do mundo.  comum o poder cegar a capacidade de pensar e fazer com que os que o
detm olhem o mundo de cima para baixo e tenham ambies ilgicas. Na efgie, imagem gravada no dracma, estavam cunhadas as intenes de Tibrio. Tibrio era um
simples mortal, mas queria ser deus. Por outro lado, Cristo, que tinha poderes sobrenaturais e tinha o status de Deus para os seus ntimos, queria ser um homem,
o filho do homem. Que paradoxo! O mestre no se perturbou com a ambio de Tibrio expressa na efgie, mas usou-a para torpedear os seus opositores. Sua resposta
no estava no rol das possibilidades esperadas pelos fariseus e herodianos. Ela os deixou perplexos. Ficaram paralisados, sem ao.  difcil descrever as implicaes
da sua resposta. Eles esperavam uma resposta que fosse o "sim ou o no", ou seja, se era lcito ou no pagar o tributo, mas ele respondeu o "sim e o no". Nesta
resposta, ele no negou o governo humano, tipificado pelo Imprio Romano, nem a sobrevivncia dele por meio do pagamento de impostos. Nela, ele tambm no negou
a histria de Israel e sua busca por Deus. "Dai a Csar o que  de Csar" revela que Cristo admite que haja governos humanos, tipificados por Csar, e que so financiados
pelos impostos. "Dai a Deus o que  de Deus" revela que para ele h um outro governo, um governo misterioso, invisvel e "atemporal", o "reino de Deus". Este  sustentado
no pelo "dracma", pelo dinheiro dos impostos, mas por aquilo que emana do cerne do homem, pelas suas intenes, emoes, pensamentos, atitudes. Nas sociedades modernas,
os conscios financiam a administrao pblica com seus impostos e esta os retorna em benefcios sociais: educao, sade, segurana, sistema judicirio etc. Nos
regimes autoritrios, bem como em determinadas sociedades democrticas, esse retorno  freqentemente insatisfatrio. No caso de Roma, os impostos pagos pelas naes
objetivavam sustentar a pesada mquina do imprio. Portanto, muitas naes financiavam as mordomias romanas s custas do suor e do sofrimento do seu povo. Jesus
disse aos seus inimigos que deveriam dar a Csar o que  de Csar, mas no disse a quantia que se deveria dar a Roma. E quando falava de Csar no estava se referindo
apenas ao Imprio Romano, mas ao governo humano. Por meio dessa resposta curta, mas ampla, ele transferiu a responsabilidade de financiamento de um governo no para
si, mas para os prprios homens. Ao olharmos para as mculas da histria, tais como a fome, as doenas, as guerras,  difcil no fazermos as seguintes perguntas:
se h um Deus no universo por que Ele est alienado das misrias humanas? Por que Ele no extirpa as dores e injustias que solapam as sociedades? Jesus no negava
a importncia dos governos humanos e nem estava alheio s mazelas sociais. Contudo, para ele, estes governos estavam nos parnteses do tempo. Seu alvo principal
era um governo que estava fora destes parnteses, portanto, eterno. Segundo o seu pensamento, o "eterno" triunfaria sobre o temporal. Tendo uma vez triunfado, o
Criador faria uma prestao de contas de cada ser humano, incluindo todos os governantes e, assim, repararia toda violncia e toda lgrima derramada. Em suas biografias,
pode se compreender que, ao contrrio do governo humano que primeiramente cobra os impostos e depois os retorna em benefcios sociais, o "reino de Deus" no cobra
nada inicialmente. Ele primeiramente supre uma srie de coisas ao homem: d o espetculo da vida, o ar para

#se respirar, a terra para se arar, a mente para pensar e um mundo belo para se emocionar. Aps dar gratuitamente todas essas coisas durante a curta existncia humana,
ele cobrar o retorno. Para algum que deu tanto, era de se esperar uma cobrana enorme, tal como a servido completa dos homens. Mas para o nosso espanto, Cristo
discursou que a maior cobrana do Criador ser a mais sublime emoo, o amor. Para ele, aquilo que os poetas viram em suas miragens, o amor, deveria permear a histria
de cada ser humano. Esse mestre era perspicaz. Nenhuma exigncia  to grande e to singela como a de amar. O amor cumpre toda justia e substitui todo cdigo de
leis. Essa foi a histria do seu discpulo tardio Paulo. Este vivera outrora embriagado de ira, mas reescrevera a sua histria com as tintas desse amor. Por isso,
foi aoitado, apedrejado, rejeitado, esbofeteado e at considerado como escria humana por amor daqueles que um dia odiou.

Um reino dentro do homem
Jesus era seguro e misterioso. Proclamava que seu Pai era o autor da existncia. Porm, em vez de desfrutar de privilgios e se assentar  mesa com Tibrio e os
senadores romanos, preferiu se mesclar com as pessoas que viviam  margem da sociedade. Ao que tudo indica, com alguns milagres poderia fazer com que o mundo se
prostrasse aos seus ps, inclusive o imperador romano. Todavia, no queria o trono poltico. Almejava o trono dentro do homem. Discursava naquelas terras ridas
algo jamais pensado pelos intelectuais e pelos religiosos. Relatava convictamente que Deus, embora eterno, invisvel e onipotente, queria instalar o seu reino no
esprito humano. No  esse desejo estranho? Embora haja tanto espao no universo para o Todo-poderoso recostar a sua "cabea", segundo o carpinteiro de Nazar,
Ele procura o homem como sua morada, embora este seja to saturado de defeitos. Por isso ensinou os homens a orar pela vinda deste reino: "Venha a ns o teu reino,
seja feita a tua vontade"20. Chegou at a bradar altissonante: "Buscai primeiro o reino de Deus e todas as outras coisas vos sero acrescentadas"21.

Rompendo o crcere intelectual das pessoas rgidas
Os fariseus e os herodianos foram derrotados com apenas uma frase. Eles queriam, em seu radicalismo, matar aquele dcil homem. Toda pessoa radical no consegue fazer
uma leitura multifocal da memria e extrair informaes que lhe permitam pensar em outras possibilidades alm daquela na qual rigidamente pensa. Jesus foi vtima
do preconceituosismo dos lderes de Israel. Eles estavam engessados em suas mentes. No conseguiam ver nele nada mais do que um agitador, um revolucionrio ou ento
um nazareno digno de desprezo. A rigidez  o cncer da alma. Ela no apenas fere os outros, mas pode se tornar a mais drstica ferramenta autodestrutiva do homem.
At pessoas interiormente belas podem se autoferir muito, se

#forem rgidas e estreitas na maneira de pensar seus transtornos psquicos. Em psicoterapia, uma das metas mais difceis de ser alcanada  romper a rigidez intelectual
dos pacientes, principalmente se j passaram por tratamentos frustrantes, e conduzi-los a abrir as janelas de suas mentes e renovar as suas esperanas. As pessoas
que acham que seu problema no tem soluo criam uma barreira intransponvel dentro de si mesmas. Assim, at doenas tratveis, como a depresso, o transtorno obsessivo
e a sndrome do pnico, se tornam resistentes. No importa o tamanho do nosso problema, mas a maneira como o vemos e o enfrentamos. Precisamos desengessar nossas
inteligncias e enxergar as pessoas, os conflitos sociais e as dificuldades da vida sem medo, de maneira aberta e multifocal. A esperana e a capacidade de se colocar
como aprendiz diante da vida so os adubos fundamentais do sucesso. O mestre de Nazar estava querendo produzir um homem livre, sempre disposto a aprender e saturado
de esperana. Objetivava desobstruir a mente daqueles que o circundavam, tanto dos seus seguidores como dos seus opositores. Estava sempre querendo hastear a bandeira
da liberdade das pessoas, por isso aproveitava todas as oportunidades para expandir a capacidade de julgamento e o leque de possibilidades do pensamento, o que fazia
dele um mestre inigualvel. Ns provocamos as pessoas rgidas e as tornamos mais agressivas ainda. Ele, ao contrrio, com brandura instigava a inteligncia delas
e acalmava as guas da emoo. Sabia que os seus opositores queriam mat-lo ao propor-lhe aquela pergunta, mas como conseguia ouvir o que as palavras no diziam
e compreender os bastidores da inteligncia humana, deu uma resposta aberta e inesperada. Sua resposta foi to intrigante que desobstruiu a mente dos seus opositores,
aplacando-lhes a ira. Aqueles homens transitavam pelas avenidas do binmio do certo/errado, moral/imoral, feio/bonito. O mundo deles tinha apenas duas alternativas,
sim e no, mas o mundo intelectual do mestre de Nazar tinha inmeras outras possibilidades. Nas situaes mais tensas, ele no se embaraava nem se preocupava em
ter reaes imediatas. Ele pensava antes de reagir e no reagia antes de pensar. De fato, mergulhava dentro de si mesmo e abria as janelas da sua mente para encontrar
as idias mais lcidas para uma determinada pergunta, dificuldade ou situao. Deste mergulho interior emanavam seus pensamentos. Maravilhados com sua sabedoria,
os fariseus e os herodianos se retiraram de sua presena. Infelizmente, somos diferentes. Grande parte dos nossos problemas surge porque reagimos antes de pensar.
Nas situaes mais tensas reagimos com impulsividade, e no com inteligncia. Infelizmente, nos sentimos obrigados a dar respostas imediatas diante das dificuldades
que enfrentamos. Travamos nossa capacidade de pensar pela necessidade paranica de produzir respostas sociais, pois temos medo de passarmos por tolos ou omissos
se no respondermos imediatamente. Precisamos aprender a proteger nossas emoes quando ofendidos, agredidos, pressionados, coagidos e rejeitados, caso contrrio,
a emoo sempre abortar a razo. A conseqncia imediata dessa falta de defesa emocional  reagirmos irracional e unifocalmente, e no multifocalmente. Precisamos
abrir o leque de nossas mentes e pensar em diversas alternativas diante dos desafios da vida. O mestre, antes de dar qualquer resposta, honrava sua capacidade de
pensar e pensava com liberdade e conscincia, depois desferia suas brilhantes idias. Somente algum que  livre por dentro no  escravo das respostas. Quem gravita
em torno dos problemas e no aprende a fazer um "stop introspectivo", ou seja, parar e pensar antes de reagir, faz das pequenas barreiras obstculos intransponveis,
das pequenas dificuldades problemas insolveis, das pequenas decepes um mar de sofrimento. Infelizmente, por no exercitar a arte de pensar, tendemos a transformar
uma barata num dinossauro.

#Precisamos aprender com o mestre da escola da vida a ser caminhantes nas trajetrias de nosso prprio ser e no ter medo de pensar.

#CAPTULO

4

AS ATITUDES INCOMUNS DE CRISTO NA LTIMA CEIA: A MISSO

#A ltima noite
Jesus estava para ser preso. Em algumas horas, comearia o seu martrio. A ltima noite que passou com seus discpulos foi incomum. Uma noite diferente de todas
as outras. A partir dela, ele seria preso, julgado, torturado, crucificado e morto. O ambiente dessa noite poderia inspirar angstia e medo em qualquer um. Porm
o personagem principal daquele cenrio estava tranqilo. Quando estamos na proximidade de sofrer um grande trauma, o tempo no passa, cada minuto  uma eternidade.
Contudo, o mestre de Nazar estava reunido com seus discpulos ao redor de uma mesa, tomando a sua ltima refeio. O cho rua aos seus ps, mas ele permanecia
inabalvel. Nesse clima, ele teve atitudes inesperadas.

Chocando os discpulos com o lavar dos ps
Naquela altura os discpulos o valorizavam intensamente, o consideravam nada menos que o prprio "filho de Deus". Entretanto, naquela noite, ele tomou algumas atitudes
que chocaram todos eles. Nenhum ser humano esteve em uma posio to alta como a dele. Todavia, paradoxalmente, ningum se humilhou tanto como ele. Ele, como comentei
no primeiro livro da srie Anlise..., querendo dar profundas lies de vida nos ltimos momentos antes de sua morte, teve a coragem de abaixar-se at os ps dos
seus incultos discpulos e lav-los silenciosamente. O mestre de Nazar, por meio de sua intrigante e silenciosa atitude, vacinou seus discpulos contra o individualismo.
Inaugurou uma nova forma de viver e de se relacionar. Introduziu no cerne deles a necessidade de tolerncia, de busca de ajuda mtua, de aprender a se doar. Os computadores
agem por princpios lgicos. Eles podem at aplicar leis e estabelecer a justia sem as falhas humanas. Entretanto, jamais desenvolvero a arte da tolerncia, solidariedade,
percepo da dor do outro. Essas funes da inteligncia ultrapassam os limites da lgica. Uma pessoa  mais madura quando  mais tolerante e menos rgida em seus
julgamentos. Naquela noite havia um forte clima de emoo, eles estavam confusos diante das atitudes do mestre. Estavam tristes tambm porque ele anunciara sistematicamente
que iria ser preso, sofrer nas mos dos principais judeus e ser morto. Seus discpulos no entendiam como algum to poderoso poderia sofrer da maneira como ele
descrevia. quela altura, para os discpulos, a morte do seu mestre era mera fico. Jesus lavou os ps de todos os seus discpulos, inclusive os de Judas. Ele sabia
que Judas o trairia, mas ainda assim foi complacente com ele e no o exps publicamente. Vocs conhecem, na histria, algum que tenha lavado os ps do seu prprio
traidor? No suportamos mnima ofensa, mas ele no apenas suportou a traio de Judas, mas lavou as crostas de sujeira dos seus ps. Aps o lavar dos ps dos discpulos,
Judas saiu para o trair.

Esperando ansiosamente a ltima ceia
Era a ltima ceia, a chamada santa ceia. Jesus disse aos seus discpulos: "Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta pscoa, at que ela se cumpra no reino
de Deus"22. Relata sem

#rodeios que esperava h anos aquela ltima ceia. Esperava por ela dia e noite. Por que aquele momento era to importante? Poderia uma ceia representar tanto para
ele, a ponto de dizer palavras incomuns no seu vocabulrio, ou seja, dizer que "a esperava ansiosamente"? Nunca havia dito antes que esperava algo com tanta emoo.
Para os discpulos, era mais um banquete  mesa, mas para o mestre de Nazar aquela ceia era diferente de todas as outras. Ela representava a histria dele, a sua
grande misso. A pscoa era uma festa comemorada anualmente para lembrar a libertao do povo de Israel do Egito. Antes de sua partida do Egito, cada famlia imolara
um cordeiro e aspergira seu sangue sobre os umbrais das portas, e a sua carne, uma vez ingerida, supriu foras para o povo iniciar sua jornada pelo deserto, uma
jornada em busca da to sonhada terra de Cana, a terra prometida. Portanto, a pscoa era uma festa alegre, radiante, um brinde  liberdade. Todavia, os seus ntimos
no sabiam se choravam ou se alegravam. Por um lado, a mesa estava posta, o alimento saciaria a fome e despertaria o prazer. Por outro, havia no ar uma insuportvel
tristeza, o mestre anunciara que iria partir. Os discpulos no haviam entendido que Jesus queria se identificar com o cordeiro da pscoa, para nutrir, alegrar e
libertar no apenas o povo de Israel, mas tambm toda a humanidade. Joo Batista, ao se deparar com o mestre de Nazar, produziu uma frase de grande impacto e incompreensvel
aos seus ouvintes: "Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo"23. Ele considerou o carpinteiro da Galilia como o redentor do mundo. Ningum, antes ou depois
de Jesus, assumiu tarefa to estonteante. O prprio Jesus, corroborando o pensamento de Joo Batista, se posicionou de tal maneira como o "cordeiro de Deus" e planejou
morrer no dia da pscoa. Sabia que os homens que detinham o poder, mais cedo ou mais tarde, o matariam. Mas no queria morrer em qualquer dia nem em qualquer lugar.
Por diversas vezes havia se livrado da morte. Livrou-se no porque tivesse medo dela, mas porque no havia chegado o momento e o lugar certos. Esperava ardentemente
por aquela pscoa porque ela representava o captulo final de sua histria, expressava o seu plano transcendental. Na festa da libertao de Israel do Egito, ele
iria morrer pela liberdade da humanidade. A humanidade ficaria livre das suas mazelas existenciais. Os discpulos ainda no entendiam o que estava acontecendo. Eles
no aceitavam a idia de separarse daquele que lhes deu um novo sentido de vida, daquele que os ensinou a recitar a poesia do amor. Uma boa parte de seus seguidores
era de meros pescadores galileus. S pensavam em barcos e peixes. Todavia, passara algum por ali e lhes provocou a maior avalanche interior. Algum que lhes abriu
os horizontes da vida discursando sobre os mistrios da existncia, sobre os segredos da eternidade, ensinando-lhes a amar uns aos outros e a se doar uns pelos outros.
A viso desses jovens galileus se expandiu. A vida ganhou outro significado. Portanto, era insuportvel a partida do mestre.

Um discurso surpreendente
Naquela noite incomum, Cristo no apenas lavou os ps dos seus discpulos e os estimulou a desenvolver as funes mais altrustas da inteligncia, mas tambm os
abalou com um dilogo surpreendente. Todos estavam reclinados sobre a mesa, saboreando o cordeiro da pscoa. Ento, Cristo interrompeu a ceia, olhou para eles e
proferiu seu mais intrigante discurso. Um discurso pequeno, mas que perturbou profundamente seus discpulos. Um discurso que  capaz de deixar qualquer pensador
da psicologia e da filosofia estarrecido se o analisar. Os discpulos estavam comendo tranqilos a pscoa, mas de repente,

#Jesus tomou o po, o partiu e disse de maneira segura e espontnea: "Tomai, comei; isto  o meu corpo". E tomou um clice e, tendo dado graas, deu-lhes, dizendo:
"Bebei dele todos; porque isto  meu sangue da aliana, que  derramado por muitos, para perdo de pecados". Nunca na histria algum teve a coragem de discursar
sobre o seu corpo e seu sangue dessa maneira, e muito menos de dar um significado  sua morte como ele deu. Vejamos.

O sangue da nova aliana
Quando algum vai ser martirizado ou est sob um grave risco de vida, um temor invade o palco de sua emoo. O medo contrai o pensamento e esfacela a segurana.
A voz se torna embargada e trmula. Estes mecanismos inconscientes e instintivos aconteceram com Jesus na sua ltima ceia? No! Ele sabia que enfrentaria o suplcio
da cruz. Tinha conscincia de que morreria no dia posterior de maneira lenta. Seu corpo se desidrataria e o sangue verteria dos seus punhos, mos, cabea e costas.
Mas, em vez de ficar amedrontado com sua morte e procurar um lugar para se proteger, ele discorreu sobre a sua prpria morte num jantar e, ainda por cima, deu um
significado surpreendente a ela. Disse categoricamente que o vinho que estavam bebendo iria iniciar uma nova era, uma nova aliana. O seu martrio no seria apenas
uma execuo humana, mas tinha um papel eterno. Ele seria derramado em favor da humanidade. Na sociedade, as pessoas que cometem crimes so levadas s barras da
justia e, a no ser que haja distores em seus julgamentos, elas so passveis de sofrer punies. Jesus proclamava um reino misterioso, o reino de Deus. Segundo
o seu pensamento, assim como h uma justia humana que exerce o direito social, h uma justia divina que exerce o direito celestial no reino de Deus. Ele veio justificar
o homem perante Deus, queria perdoar cada ser humano diante do tribunal divino. Na cruz, seu objetivo foi levado s ltimas conseqncias. Como pode o sangue de
apenas um homem aliviar os erros e injustias da humanidade inteira? O seu sangue estabeleceria uma aliana eterna. Embora a temporalidade da vida seja breve, ela
 suficientemente longa para se errar muito. Temos atitudes individualistas, egocntricas, simulatrias, agressivas. Julgamos sem tolerncia as pessoas que mais
amamos. Rejeitamos as pessoas que nos contrariam. Prometemos a ns mesmos que iremos, de agora em diante, pensar antes de reagir, mas o tempo passa e, freqentemente,
continuamos vtimas de nossa impulsividade. Temos enormes dificuldades de enxergar o mundo com os olhos dos outros. Queremos que primeiramente o mundo gravite em
torno de nossas necessidades para depois pensarmos nas necessidades daqueles que nos circundam. Somos rpidos para reclamar e lentos para agradecer. Produzimos um
universo de pensamentos absurdos que conspiram contra a nossa prpria qualidade de vida e no temos disposio e, s vezes, nem habilidade para recicl-los. Todos
falhamos continuamente em nossa histria de vida. S no consegue admitir sua fragilidade quem  incapaz de olhar para dentro de si mesmo ou quem possui uma vida
sem qualquer princpio tico. Por detrs das pessoas mais moralistas, que vivem apontando o dedo para os outros, existe, no palco de suas mentes, um mundo de idias
nada puritanas. Somos senhores do mundo em que estamos, mas no senhores do mundo que somos. Governamos mquinas, mas no governamos alguns fenmenos inconscientes
que lem a memria e constroem as cadeias de pensamentos. Todos temos grandes dificuldades de administrar a energia emocional. Por isso, apesar de possuirmos uma
inteligncia to sofisticada, somos frgeis e passveis de tantos erros. Somos uma espcie que claudica entre os acertos e erros de toda sorte. Todavia, agora vem
um galileu que no freqentou escolas e diz, para o nosso espanto, que veio para nos dar o inacreditvel: a vida eterna. E, ao invs de nos cobrar grandes atitudes
para consegui-la, de determinar com severidade

#que no cometamos qualquer tipo de erro ou imoralidade, ele no exige nada de ns, apenas de si mesmo. Ele morre para que no morramos, sofre para que no soframos.
Exige derramar o seu prprio sangue para nos justificar perante o autor da existncia. S no se perturba com as idias de Cristo quem  incapaz de analis-las.
Jesus , sem dvida, uma pessoa singular na histria. Qualquer um que se der o trabalho de pensar minimamente na dimenso dos seus gestos ficar "assombrado". Milhes
de cristos contemplam semanalmente os smbolos do vinho e do po no mundo cristo, porm aquilo que parece um simples ritual revela de fato as intenes de uma
pessoa surpreendente. O sangue  formado de hemcias, leuccitos, plaquetas e inmeras substncias. Todos temos este lquido precioso que circula milhes de vezes
ao longo da vida para nutrir as clulas e transportar todas as impurezas para serem metabolizadas no fgado e excretadas na urina. Todavia, morre o corpo e o sangue
se deteriora, perde suas caractersticas e funes. Entretanto, o mestre de Nazar deu um significado ao seu sangue que ultrapassou os limites da sua materialidade.
Sua vida e seu sangue seriam tomados como ferramenta de justia e perdo. Seriam usados tanto para aliviar os sentimentos de culpa do homem como para aliviar todo
dbito perante o Criador. Segundo ele, o rigor da lei do reino vindouro teria ele mesmo como o mais excelente advogado de defesa. Como pode algum dizer que o sangue
que pulsa nas suas artrias poderia estancar o sentimento de culpa contido no cerne da alma? Como pode o sangue de um homem tornar a nossa pesada e turbulenta existncia
uma suave e serena trajetria de vida? Muitas vezes as pessoas fazem psicoterapia por anos a fio para tentar aliviar o peso do seu passado e resolver seus sentimentos
de culpa e nem sempre tm grande sucesso. No entanto, agora vem Jesus de Nazar e diz que ele poderia instantaneamente aliviar toda a mcula do passado, todos os
erros e mazelas humanas. Freud foi um judeu ateu, entretanto, se ele tivesse investigado a histria de Jesus, ficaria intrigado e encantado com sua proposta. Todos
os pais da psicologia, que compreenderam que a histria registrada no "inconsciente da memria" tem um peso enorme sobre as reaes do presente, se tivessem tomado
pleno conhecimento sobre a proposta do mestre de Nazar, perceberiam que ela  arrebatadora. O que  mais admirvel  que ele no queria apenas aliviar o peso do
passado sobre o presente, mas tambm introduzir a eternidade dentro do homem e faz-lo possuir uma vida irrigada tanto com um prazer pleno como com as funes mais
importantes da inteligncia. J imaginou possuirmos uma vida inextinguvel, sem qualquer sentimento de culpa e, ainda por cima, saturada de prazer e imersa numa
esfera onde reina a arte de pensar, o amor mtuo, a solidariedade, a cooperao social? O mestre de Nazar queria riscar as dores, o tdio, as lgrimas, a velhice
e todas as misrias psquicas, fsicas e sociais de nossos dicionrios. Nem a psicologia sonhou tanto. Nem os filsofos no pice dos seus devaneios humansticos
imaginaram uma vida to sublime para o homem. Temos de confessar que a pretenso dele ultrapassa os limites de nossa previsibilidade.

O corpo retratando o acesso  natureza de Deus
O mestre tambm deu um significado incomum ao seu corpo: "E, tomando o po, tendo dado graas, o partiu e lhes deu, dizendo: `Isto  o meu corpo oferecido por vs'"24.
No apenas o po estava sendo usado como smbolo do seu prprio corpo, mas o cordeiro imolado e morto que estava sendo servido naquela ceia tipificava o seu prprio
ser. O "cordeiro de Deus" estava sendo oferecido como po aos seus discpulos.

#Se estivssemos naquela ceia e no fssemos ntimos de Cristo, fugiramos daquela cena desesperadamente. Ficaramos escandalizados com suas palavras. Comer a carne
de um homem? Saborear o seu corpo? Nunca ouvi falar de algum que estimulasse os outros a comerem o seu prprio corpo. Todos ouvimos histrias de canibais. Essas
histrias nos do calafrios, pois  angustiante imaginarmos algum se banqueteando com nossos prprios rgos. Entretanto, Cristo estava se referindo ao po simbolicamente.
O mestre no estava querendo dizer sobre seu corpo fsico, mas sobre a sua natureza, o Esprito Santo dado a eles aps a sua ressurreio. Aqui novamente est inserido
o conceito de eternidade. Anteriormente, ele j havia dito, inclusive aos seus opositores, que quem no bebesse o seu sangue e no comesse a sua carne no teria
a vida eterna25. Por meio dessas palavras ele havia antecipado os acontecimentos que se desdobrariam na sua ltima ceia. A ousadia de Cristo era tanta que ele no
apenas disse que transcenderia a morte, mas tambm que se tornaria um tipo de "po", de alimento, que saciaria o esprito e a alma humana. Nenhum homem na histria,
a no ser Cristo, reuniu seus amigos ao redor de uma mesa e discursou sobre os destinos do seu sangue e seu corpo. Algumas pessoas ficam angustiadas e at desmaiam
quando vem uma gota do seu sangue. Todavia, o mestre, com a maior naturalidade, comentava sobre o sangue que verteria de suas costas, aps os aoites; de sua cabea,
aps a coroao com espinhos; e de seus punhos e ps, aps a crucificao. Com o decorrer do tempo, ficamos insensveis diante das palavras originais proferidas
por Jesus. No percebemos o impacto delas. Imagine se algum nos convidasse em sua casa e, de repente, nos fitasse nos olhos e nos estimulasse a beber o seu sangue
e comer o seu corpo, ainda que simbolicamente. Que tipo de reao teramos? Pavor, desespero, embarao, vontade de fugir rapidamente desse cenrio constrangedor
 Consideraramos o nosso anfitrio o mais louco dos homens. Ainda que os discpulos soubessem que Cristo era dcil, amvel, coerente e inteligente, as suas palavras
foram inesperadas, surpreendentes. Eles no sabiam como reagir. Suas vozes ficaram embargadas. Suas emoes flutuavam entre o choro, a ansiedade, o desespero. No
ousavam perguntar nada a Jesus, pois sabiam que, embora mpares, as suas palavras discorriam sobre seu fim, sobre a sua verdadeira misso. Ele deixou claro por diversas
vezes que se seu sangue no fosse derramado e seu corpo no fosse crucificado, o homem no seria perdoado perante Deus e, portanto, o mortal no alcanaria a imortalidade.
Nunca algum articulou um projeto to ambicioso. Nunca na histria algum usou, como Jesus Cristo, a sua prpria morte para "curar" as misrias da humanidade e transport-la
para uma vida inesgotvel... Apesar de as suas palavras na Santa Ceia entrarem na esfera que transcende a lgica cientfica, entrarem no territrio da f, a cincia
no pode furtar-se a analis-las. Notem que os sofrimentos pelos quais passamos freqentemente expandem nossa tristeza e destroem os nossos sonhos. Entretanto, o
mestre vivia princpios contrrios aos esperados. Iria morrer dali a algumas horas, mas transformava a sua morte num estandarte eterno. Quanto mais ele sofria e
se deparava com aparentes derrotas, mais pensava alto, mais sonhava altaneiramente. Onde deveria imperar o medo e o retrocesso, ele fazia florescer as metas e a
motivao.

Fazei isto em memria de mim
Jesus disse aos discpulos que eles deveriam repetir a cena da ltima ceia em memria dele. Somente uma pessoa que cr que a morte no extinguir a conscincia existencial
faz um pedido deste. Se algum cr que a morte introduz a si mesmo num estado de silncio eterno, num vcuo inconsciente,

#no se importar com o que aqueles que ainda esto vivos no breve palco da existncia faro com suas palavras. Somente aqueles que tm esperana da continuidade
da existncia, ainda que no tenham conscincia, desejam que sua memria seja preservada. Se olharmos para a morte sem misticismos, perceberemos que suas implicaes
psicolgicas so serissimas. A morte esmigalha o ser, destri o crebro, reduz a p os segredos contidos na memria do crtex cerebral. A morte finda o espetculo
da vida. Cristo morreria no dia seguinte, a sua memria seria esfacelada pela decomposio do seu crebro. Entretanto, no discurso da ltima ceia, Cristo fala com
uma incrvel espontaneidade sobre a morte. Ele estava absolutamente certo de que venceria aquilo que os mdicos jamais sonharam em vencer. Para ele, a morte no
introduziria o nada existencial, a perda irrecupervel da conscincia, mas abriria as janelas da eternidade. O pedido inusitado de Jesus para repetir, em sua memria,
os smbolos daquela ceia,  feito por milhes de cristos pertencentes a inmeras religies do mundo todo e indica sua plena convico de que no apenas sairia ileso
do caos da morte, mas tambm cumpriria seu plano transcendental. A morte, a nica vencedora de todas as guerras, seria vencida pelo carpinteiro de Nazar.

O mestre banqueteia antes da sua morte: ausncia de anorexia
J. A.  um executivo brilhante. Tem uma excelente capacidade intelectual:  lcido, coerente e eloqente. Todas as manhs, rene seus gerentes, discute as idias,
toma conscincia da produtividade e do desempenho da sua empresa e lhes d as diretrizes bsicas. Promove uma reunio mensal aberta a todos os funcionrios. Ele
os ouve e discursa sem constrangimento, animando-os, elevando a autoestima e criando vnculos entre eles e a empresa. J. A.  um homem acessvel, carismtico, inteligente
e forte. Todavia, no sabe lidar com suas frustraes e fracassos. Aceita os problemas e os encara como desafios, mas quando no cumpre suas prprias metas ou quando
ocorre falha na sua liderana, ele se torna um carrasco de si mesmo. Fica tranqilo diante das dores dos outros e lhes d orientaes precisas quando necessrio,
mas se perturba diante de suas prprias dores.  mnima tenso comea a sentir diversos sintomas psicossomticos, como perda de apetite, fadiga excessiva, dor de
cabea, taquicardia, sudorese. A perda de apetite  sua marca psicossomtica registrada quando est sobressaltado pela ansiedade. O apetite  o instinto que preserva
a vida. Quando ele est alterado, indica um sinal vermelho de que a qualidade de vida emocional est ruim a tal ponto que a vida no est sendo mais preservada.
Dificilmente uma pessoa no tem o seu apetite alterado quando est tensa: aumenta-o (hiperfagia) ou o diminui (anorexia). A anorexia  mais comum do que a hiperfagia.
Existem vrios graus de anorexia, incluindo a anorexia nervosa, que  uma doena psiquitrica grave, na qual ocorre a perda completa do apetite, associada  crise
depressiva e ao distrbio da auto-imagem. A auto-imagem est to distorcida, que o comer  uma agresso ao corpo, ainda que a pessoa esteja magrrima. Ganhar alguns
gramas significa ganhar um peso insuportvel. O psicoterapeuta, quando no consegue romper o vnculo doentio que ela mantm com sua auto-imagem, no consegue resgat-la
para a vida. Quero ressaltar aqui uma das caractersticas da personalidade de Cristo expressas nos focos de tenso. Ningum conseguiria manter seu apetite intacto
sabendo que dali a algumas horas iria sofrer intensamente e, por fim, morrer. Nessa situao s haveria espao para chorar e se desesperar. Todavia,

#o mestre banqueteou com seus discpulos na sua ltima ceia. Tal atitude  totalmente inusitada. Ele comeu e bebeu fartamente com seus ntimos. Comeu o po e o cordeiro
pascal e tomou o vinho. Seus inimigos o conduziriam a passar por longas sesses de torturas, mas a impresso que se tinha  que ele no possua inimigos. De fato,
para ele, os inimigos no existiam. S sabia fazer amigos. Por que no fazia inimigos? Porque no se deixava perturbar pelas provocaes que lhe faziam, no se deixava
invadir pelas ofensas e agressividades que o rodeavam. Ns freqentemente agimos de maneira diferente. Fazemos de nossas emoes uma lata de lixo. Qualquer atitude
agressiva dirigida a ns nos invade e nos perturba por dias. Um simples olhar indiferente tira-nos a tranqilidade. Cristo no se importava com sua imagem social.
Era seguro e livre no territrio da emoo. O mundo  sua volta podia conspirar contra ele, mas ele transitava pelas turbulncias da vida como se nada estivesse
acontecendo. Por isso, se alimentou fartamente na noite anterior  sua morte, no se deixando abater antes da hora. Como pode algum que est para ser cravado numa
cruz no estar deprimido? Como pode algum que vai passar por um espetculo de vergonha e dor para o mundo ter estrutura emocional para se relacionar de maneira
agradvel com seus ntimos diante de uma mesa?

Uma estrutura emocional slida
Se j  difcil compreendermos como Cristo preservou o instinto da fome horas antes do seu martrio, imagine se dissermos ao leitor que ele no apenas banqueteou,
mas cantou antes de morrer. Pois bem, foi isto o que aconteceu. O registro de Mateus diz: "Tendo cantado um hino, saram para o monte das Oliveiras"26. Que disposio
algum teria para cantar s portas do seu fim? O maior amante da msica cerraria seus lbios, pois diante das dores nossa emoo nos aprisiona, mas ele diante das
suas dores se libertava. Se nossas dores forem brandas, ainda  possvel sermos impelidos a cantar, mas diante do caos nosso nimo se esgota. A cano cantada por
ele no tinha sido elaborada na hora, era uma letra conhecida pelos discpulos, pois todos a cantaram, o que  confirmado pelo texto que diz "tendo cantado um hino,
saram..."27. Penso que tal cano no deveria ser meldica, triste, que retratasse a sua partida. Creio que a letra dessa msica fosse alegre, por isso, como de
costume, eles provavelmente at bateram palmas enquanto cantavam 28. A concluso a que chegamos  que o mestre de Nazar era um excelente gerente da sua inteligncia.
Ele administrava com extrema habilidade seus pensamentos e emoes nos focos de tenso. No sofria antecipadamente, embora tivesse todos os motivos para pensar no
seu drama, que em algumas horas se iniciaria no Jardim do Getsmani. Um amigo meu, que ia sofrer uma cirurgia para a extrao de um tumor, no estava com o rosto
abatido dias antes da cirurgia. Contudo,  medida que o tempo se aproximava, sua ansiedade aumentava. No dia anterior  cirurgia, estava to angustiado e tenso que
essa emoo se refletia em toda sua face. Tinha um rosto contrado e preocupado. Nada o animava. Qualquer conversa o irritava. Sua mente estava ancorada no ato operatrio.
Se um ato cirrgico nos causa tanta tenso, ainda que seja feito com anestesia e assepsia, imagine como o carpinteiro de Nazar tinha motivos para ficar abatido.
Seu corpo seria sulcado com aoites e pregado num madeiro sem anestesia. Todavia, sua emoo embriagava-se de uma serenidade

#arrebatadora. Alm de no se deixar perturbar, ainda tinha flego para discursar com a maior ousadia sobre a sua misso e sobre o modo como seria cortado da terra
dos viventes. A psicologia foi tmida e omissa em investigar os pensamentos e as entrelinhas do comportamento de Jesus de Nazar. Permitam-me dizer com modstia
que este livro, apesar de suas imperfeies, vem resgatar uma dvida da cincia com este mestre dos mestres da escola da existncia. Ao investig-lo,  difcil no
concluirmos que ele foi um exmio lder do seu mundo interior, mesmo quando o mundo exterior desabava sobre sua cabea. No acredito que algum psiquiatra, psiclogo
ou qualquer pensador da filosofia tenha chegado perto da maturidade do mestre de Nazar, amplamente expressa no gerenciamento da sua psique diante dos mltiplos
cenrios estressantes que o cercavam. Muitas pessoas so infelizes, embora com excelentes motivos para serem alegres. Outras tiveram uma vida difcil, saturada de
perdas. Todavia, em vez de superarem suas perdas, se tornam refns do passado, refns do medo, da insegurana, da hipersensibilidade. Colocam-se como vtimas desprivilegiadas
da vida. Nunca conseguem construir um osis nos desertos que atravessam. Jesus construiu uma trajetria emocional inversa. Poderia ser um homem angustiado e ansioso,
mas, ao invs disso, era tranqilo e sereno. Sua emoo era to rica que ele chegou ao impensvel: teve a coragem de dizer que ele mesmo era uma fonte de prazer,
de gua viva, para matar a sede da alma29. Isso explica um comportamento seu quase incompreensvel que teve cerca de catorze-dezoito horas antes de morrer, ou seja,
o de cantar e de se alegrar com seus amigos. Em Cristo, a sabedoria e a poesia habitaram intensamente na mesma alma.

#CAPTULO

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UM DISCURSO FINAL EMOCIONANTE

#O discurso final revela os segredos do corao
O mestre de Nazar, aps banquetear-se, discursar sobre seu sangue e seu corpo e cantar, saiu do cenculo. Fora, a campo aberto, ele iniciou um longo e profundo
dilogo com seus discpulos. Havia uma atmosfera incomum de emoo. Nessa atmosfera, ele revelou os segredos ocultos do seu corao.  mesa, discursou brevemente
sobre sua misso, porm um clima de dvida reinava entre aqueles galileus. Agora, ao ar livre, ele se abria a eles como nunca. Revelou os pensamentos mais ntimos
que habitavam dentro de si. Nunca, como agora, havia rasgado a sua alma e falado de maneira cristalina sobre seu projeto transcendental. Nunca havia discorrido de
maneira to transparente sobre seu objetivo de vida e mostrado uma borbulhante preocupao com o destino dos seus ntimos e com todos aqueles que se agregariam a
ele aps a sua morte. Os discpulos ficaram impressionados com seu discurso. Disseram-lhe: "Agora  que fala-nos claramente, sem parbolas"30. Quem transcreveu tal
discurso? Joo. Esse amvel e ntimo discpulo estava velho, no fim da vida, quando resgatou essas passagens e as escreveu em seu evangelho. Mais de meio sculo
j havia se passado desde a morte de Jesus. Os demais discpulos j haviam morrido, muitos tinham sido perseguidos e martirizados, entre eles Pedro e Paulo. Joo
no tinha mais seus amigos antigos. Foi nessa fase que escreveu a quarta biografia de Cristo, o quarto evangelho. Milhares de novos discpulos de todas as naes
e culturas haviam entrado para "o caminho". A maioria deles no tinha uma viso clara sobre a personalidade, pensamentos, desejos e propsito do mestre. Joo queria
conduzi-los ao primeiro amor, transport-los para as palavras vivas e originais do seu mestre. Ento, deixou-nos o legado dos seus escritos. Joo desejava colocar
colrios nos olhos dos discpulos que no viveram com Jesus. Em seu evangelho, ele faz uma profunda imerso nos momentos histricos que precederam a crucificao
de Cristo. Quase a metade do evangelho de Joo refere-se s ltimas 48 horas de vida do mestre. Muitos tm me dito que escrevo sobre Cristo de uma maneira que nunca
viram antes, embora o tenham estudado por dcadas. No tenho mrito algum. O crdito pertence ao personagem central desse livro, que indubitavelmente possui uma
personalidade magnfica, mesmo se investigado pelos mais cticos. Tenho comentado que para interpretar a histria  necessrio manter um distanciamento dos preconceitos
e julgamentos superficiais pertinentes  nossa prpria histria, arquivada em nossa memria. Precisamos estar l, contemplar atenta e embevecidamente as palavras,
as imagens, os ambientes e participar de cada uma das cenas existentes.  necessrio nos transportarmos para a histria viva expressa pelas letras mortas, respirarmos
o ar que os personagens histricos respiraram, sentirmos o semblante dos seus rostos, percebermos a "presso arterial" deles e perscrutarmos as emoes que expressaram
nos focos de tenso. Caso contrrio, as letras impressas se tornaro um vu que bloquear a interpretao, levando-nos a resgatar uma histria morta, vazia e excessivamente
distorcida. Joo conduziu seus leitores a fazer uma belssima interpretao da histria. Em seus escritos, ele transportou os amantes tardios do mestre para participarem
das cenas mais importantes da histria dele. Os captulos 14 a 16 contm diversas cenas e situaes com intenso calor emocional. Neles est registrado o mais longo
e completo discurso de Cristo. Joo registra que naquela poca os discpulos eram jovens, frgeis e no lapidados pela vida. No admitiam o sofrimento nem a morte
do seu mestre. O medo e a dor tinham invadido suas emoes. Ento, relembra a amabilidade do seu mestre, que, precisando ser confortado, pois ele  quem enfrentaria

#o caos, os confortava dizendo que, apesar de passarem por diversas aflies e problemas, no deveriam se desanimar, mas t-lo como espelho: "Eu venci o mundo"31.
Joo imerge os seus leitores na esfera de amor criada por Jesus. Revela que, embora eles fossem intempestivos, egostas e pouco solidrios uns com os outros, o mestre
cuidava deles afavelmente. No sabiam amar algum alm de si mesmos ou dos seus ntimos, mas Jesus entrou em suas vidas e sorrateiramente os ensinou a linguagem
do amor, por meio de palavras incomuns e gestos inusitados, um amor que est alm dos limites da sexualidade, dos interesses prprios e da expectativa do retorno,
um amor que mata o germe do individualismo e corta as razes da solido. O mestre dizia incansavelmente queles jovens com alto dbito emocional: "Amai-vos uns aos
outros como eu vos amei"32. Joo tambm comenta que o mestre dissera palavras at ento impensveis sobre uma habitao eterna, uma morada que ultrapassava a materialidade:
"Na casa de meu pai h muitas moradas"33. Relata destemidamente ainda: "Porque eu vivo, vs tambm vivereis"34. Comenta o desejo ardente que ele tinha pela unidade
entre os que o amam, em detrimento de todas as suas diferenas. Joo descreve muitos pontos sobre o discurso final de Cristo. H muito o que comentar sobre cada
um deles, mas no  o objetivo deste livro. Gostaria de me deter mais prolongadamente no no discurso que Cristo fez perante seus discpulos, mas no discurso contido
na orao que ele fez para o Pai. No captulo 17 do evangelho de Joo, Jesus revela que tem um Pai, um Pai diferente de todos os outros pais. Nesse texto ele faz
um dilogo ntimo, apaixonante e misterioso com Ele. Vejamos.

O discurso final encerrado em uma orao
Jesus eleva seus olhos ao cu e comea sua orao. O gesto de olhar para o cu indica que ele no estava mais, como disse, no cenculo da ltima ceia, mas a caminho
do seu martrio. Olhar para o cu tambm indica que o mestre estava olhando no para as estrelas, mas para uma outra dimenso, uma dimenso fora dos limites do tempo
e do espao, alm dos fenmenos fsicos. Seu discurso, antes de ir para o Getsmani,  encerrado com esta orao. Diga-se de passagem, ela  bela e encharcada de
sentimentos. Ele estava para cumprir sua misso fundamental. Estava para ser preso e impiedosamente morto. Ele fitava os seus discpulos e estava comovido por deix-los,
preocupando-se com o que aconteceria com eles aps a sua morte. Nesse clima, ele dialoga com o Pai. Quem est diante do fim da vida, no tem mais nada para esconder.
O que est represado dentro dele borbulha sem receios. Devido  proximidade do seu fim, Cristo expressou algo que estava na raiz do seu ser. Seus desejos mais ntimos,
seus planos mais submersos e suas emoes mais clandestinas fluram sem restries. Aps dizer aos seus amados discpulos para que eles tivessem nimo porque ele
vencera o mundo, levanta os olhos para o cu e diz: "Pai,  chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti; assim como lhe conferiste
autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste. E a vida eterna  esta: que te conheam a ti, o nico Deus verdadeiro,
e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; e agora, glorifica-me,  Pai, contigo mesmo, com a
glria que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo"35. O contedo desse dilogo  intrigante. Orou somente para seu Pai ouvir e para ningum mais. Entretanto,
como estava cheio de emoo, no fez uma orao silenciosa, mas em voz altissonante, por

#isso os discpulos a ouviram. As palavras que ele disse calaram fundo no jovem Joo. Ele jamais as esqueceu. Por isso, depois de tantas dcadas, as registrou.

Revelando uma outra identidade
Nessa orao Jesus fez uma afirmao surpreendente. Ele disse que seu Pai era o Deus eterno. Mas ele no era o filho de Maria e de Jos? Ele no era apenas um carpinteiro
de Nazar? Nessa orao ele assume sem rodeios que no era apenas um homem completo, mas era tambm o Deus filho, a segunda pessoa da misteriosa trindade. O mais
intrigante dos homens, aquele que nunca procurou fama e ostentao, assume o seu status de Deus, e no apenas de um ser humano inteligente, especial, inusitado.
Estamos acostumados  expresso "filho de Deus", mas na poca tal expresso era para os judeus uma grande heresia. Eles adoravam o Deus todo-poderoso, criador dos
cus e da terra, que no tem princpio de dias nem fim de existncia. Para eles, os homens so apenas criaturas de Deus. Jamais admitiriam que um homem pudesse ser
filho do imortal, do todo-poderoso. Dizer-se filho de Deus, para os judeus, era o mesmo que dizer que possua a mesma natureza de Deus e, portanto, era se fazer
igual a Deus. Uma blasfmia inaceitvel para eles. Como pode um homem simples, que no reivindica poder e no procura a fama, ser o prprio filho do Deus altssimo?
Isso era inconcebvel para os mestres da lei.

Uma vida alm dos limites do tempo
No contedo da sua longa orao, o mestre de Nazar revelou algumas coisas perturbadoras. Entre elas, disse que sua existncia extrapolava sua idade temporal, sua
idade biolgica. Tinha pouco mais de 33 anos, mas disse: "Glorifica-me,  Pai, contigo mesmo, com a glria que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo"36.
A palavra grega usada no texto para mundo significa "cosmos". Cristo revelou que antes que houvesse o mundo, o cosmos, ele estava l, junto com o Pai na eternidade
passada. H bilhes de galxias no universo, mas antes que houvesse o primeiro tomo e a primeira onda eletromagntica, ele estava l. Por isso, Joo disse que nada
tinha sido feito sem ele. Aqui novamente ele afirmou sua natureza divina, postulando que, como Deus filho, sua vida extrapolava os limites do tempo. Expressou que
sua histria ultrapassava os parmetros do espao e do tempo contidos na teoria de Einstein. Por intermdio de suas palavras surpreendentes, ele se colocou at mesmo
acima do pensamento filosfico que busca princpio existencial. Que mistrios se escondiam nesse homem para que ele se colocasse acima dos limites da fsica? Como
pode algum afirmar que estava no princpio do princpio, no incio antes do incio, no estgio antes do big bang ou antes de qualquer princpio existencial? O que
nenhum ser humano teria coragem de dizer sobre si mesmo, ele disse com a mais alta segurana. Certa vez, os fariseus o indagaram seriamente sobre sua origem. O mestre
fitou-os e golpeou-os com a seguinte resposta: "Antes de Abrao existir, eu sou"37. Assombrou-os a tal ponto com essa resposta que eles desejaram mat-lo. No disse
que antes de Abrao existir "eu j existia", mas sim que "Eu sou".

#Ao responder "Eu sou" no queria dizer apenas que era temporalmente mais velho do que Abrao, o pai dos judeus, mas usou uma expresso incomum para se referir a
si mesmo. A mensagem foi entendida por aqueles estudiosos da lei. Eles sabiam que nada podia ser to ousado quanto usar a expresso "Eu sou". Por qu? Porque usou
uma expresso que somente foi usada no Velho Testamento pelo prprio Deus de Israel, para descrever sua natureza eterna. Ao se definir, Deus disse a Moiss, no monte
Sinai: "Eu sou o que sou"38. Aos olhos da cpula judaica, se algum dissesse que era mais velho do que Abrao, que morrera h sculos, ela o diagnosticaria como
um louco, mas se usasse a expresso "Eu sou" seria considerado como o mais insolente blasfemo. Cristo, ao dizer tais palavras, estava declarando que tinha as mesmas
dimenses alcanadas pela conjugao dos tempos verbais do verbo ser: ele , era, ser. Usamos o verbo existir quando nos referimos a ns mesmos, pois estamos confinados
ao tempo, e, portanto, somos finitos. Tudo no universo est em contnuo processo de caos e reorganizao. Nada  esttico, tudo  destrutvel. At o Sol, daqui a
alguns milhes de anos, no mais existir e, conseqentemente, no haver mais a Terra. Entretanto, ele se coloca como auto-existente, sempiterno, ilimitado. Ele
 o soneto da humildade, mas em algumas oportunidades revela uma identidade que est acima dos limites de nossa imaginao. O tempo  o "senhor" da dvida. O amanh
no pertence aos mortais. No sabemos o que nos acontecer daqui a uma hora. Entretanto, Cristo foi to ousado que inferiu que ele estava alm dos limites do tempo.
Em qualquer tempo ele "". O passado, o presente e o futuro no o limitam. As respostas do mestre so curtas, mas suas implicaes deixam embaraado qualquer pensador...
Em sua orao, Jesus disse: " chegada a hora"39. J era noite quando orou. No dia seguinte, s nove horas da manh, seria crucificado. A hora do seu martrio tinha
chegado, o momento crucial pelo qual tanto esperava batia-lhe  porta. Ento, roga ao Pai para que ele fosse glorificado com a glria que tinha antes que houvesse
o mundo, o cosmos. Que glria  esta? Ele era um galileu castigado pela vida desde a infncia. Passou fome, frio, sede, ficou noites sem dormir e no tinha tempo
para cuidar de si mesmo. Se estivssemos l e olhssemos para ele, certamente no veramos a beleza com que os pintores do passado o retrataram. No havia nele beleza
nem glria exteriores. Todavia, ele comenta que possua uma glria antes que houvesse o cosmos. Embora estivesse vestido pela humanidade, rogava ao seu Pai que desejava
reaver sua natureza ilimitada.  difcil entender a glria sobre a qual ele se referia. Talvez se referisse a uma transfigurao do seu ser, tal como a expressa
numa passagem misteriosa no "monte da transfigurao", onde ele transmutou o seu corpo 40. Talvez estivesse se referindo ao resgate de uma estrutura essencial inabalvel,
uma natureza sem deteriorao temporal, sem limitao fsica, sem as fragilidades humanas. Todos os dias vemos os sofrimentos e as marcas da velhice estampadas nas
pessoas. Ao nascer, a natureza nos expulsa do aconchegante tero materno para a vida; choramos e todos se alegram. Ao morrer, retornamos a um tero, ao tero frio
de um caixo; no choramos, mas os outros choram por ns. No h quem escape do primeiro e do ltimo captulo da existncia. Entretanto, vem um homem chamado Jesus
e nos diz que sua histria ultrapassa os limites de toda existncia perceptvel aos rgos dos sentidos. Como pode um homem de carne e ossos expressar, a poucas
horas de sua morte, um desejo ardente de resgatar um estado essencial indestrutvel, sem restries, imperfeies, angstias, dores? Que segredos se escondiam por
trs de suas palavras?

#Possuindo autoridade para transferir a eternidade

Cristo proclamou ao Pai dizendo: "Assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste"41. O
nome "carne"  usado pejorativamente, indicando que, apesar de sermos uma espcie que possui o espetculo da inteligncia, somos feitos de "carne" e ossos, que se
deterioram nas raias do tempo. Ele queria plantar a semente da eternidade dentro do homem. Por isso, dizia: "Se o gro de trigo no morrer, fica ele s, mas se morrer,
produz muito fruto"42. Queria que a vida ilimitada que possua, mas que estava escondida pela "casca" da sua humanidade, fosse liberada por meio de sua morte e ressurreio.
Estamos alojados num corpo limitado, morremos um pouco a cada dia. Uma criana de um dia de vida j  suficientemente velha para morrer. Todavia, ele queria nos
eternizar. Veio estancar o dilema do fim e materializar o mais ardente desejo humano, o da continuao do espetculo da vida. A histria de Scrates ilustra bem
este desejo. Scrates foi um dos filsofos mais inteligentes que pisou nesta terra. Foi um amante da arte da dvida. Questionava o mundo que o circundava. Perguntava
mais do que respondia e, por isso, no poucas vezes deixava a mente dos homens mais confusa do que antes. A ele atribui-se a frase "conhecete a ti mesmo". Scrates
no escreveu nada sobre si, mas os filsofos ilustres que cresceram aos seus ps, dos quais se destaca Plato, escreveram sobre ele. Devido ao incmodo que as suas
idias causaram na sociedade grega, Scrates foi condenado  morte. Alguns acreditam que ele teria sido poupado se tivesse restaurado a antiga crena politesta;
se tivesse guiado o bando de seus discpulos para os templos sagrados e sacrificado aos deuses de seus pais. Mas Scrates considerava isso uma orientao perdida
e suicida*. Ele acreditava em um s Deus e tinha esperanas de que a morte no iria destru-lo por completo. Por se contrapor ao pensamento reinante em sua poca,
esse dcil filsofo foi condenado a tomar cicuta, um veneno mortal. Se negasse as suas idias, seria um homem livre. Mas no queria ser livre por fora e preso por
dentro. Optou por ser fiel s suas idias e morrer com dignidade. Seu destino foi o clice da morte. O veneno, em minutos, o anestesiaria e lhe produziria parada
cardiorrespiratria. Seu clice foi diferente do clice de Cristo. Scrates morreu sem dor. Cristo atravessaria as mais longas e impiedosas sesses de tortura fsica
e psicolgica. Plato descreve os momentos finais de Scrates numa das passagens mais belas da literatura. Ao tomar o veneno, seus discpulos comearam a chorar.
O filsofo silenciou-os dizendo-lhes que um homem deveria morrer em paz. Scrates queria derramar um pouco de veneno ao Deus que cria. Mas o carrasco disse quele
dcil pensador que s havia preparado o suficiente para ele. Ento comeou a rezar, pois disse que queria preparar a sua vida para uma viagem para outro mundo. Aps
esse momento de meditao, tomou rpida e decididamente o veneno. Em poucos minutos o veneno o mataria. Primeiramente, suas pernas comearam a paralisar-se. Aos
poucos j no sentia mais o seu corpo. Em seguida, deitou-se at que o veneno interrompesse os seus batimentos cardacos. Foi assim que a cicuta matou aquele afvel
homem das idias. Porm, no maculou a fidelidade  sua conscincia nem matou seu desejo de continuar a existncia. Scrates tanto almejava a transcendncia da morte
como cria nela. O mundo das idias o ajudou a amar a vida. Dificilmente algum produziu palavras to serenas como as deste filsofo no final de sua vida. At Plato
se sentiu envergonhado pelas suas lgrimas. Entretanto, Cristo, no final de sua vida, foi muito mais longe. Ele, como estudaremos, produziu as reaes mais sublimes
diante das condies mais

#miserveis que um ser humano possa passar.Bradou: "Eu sou o po da vida, quem de mim comer viver eternamente!"43. No h semelhante ousadia na histria. Ningum
havia afirmado, at ento, que tinha o poder de fazer do frgil e mortal ser humano um ser imortal. Ningum afirmou que sua morte abriria as janelas da eternidade.
Scrates tinha esperana de viajar para um outro mundo. Cristo, entretanto, se colocou como o piloto e como o prprio veculo dessa intrigante viagem para esse tal
mundo. Jesus era um homem inacreditvel. No queria fundar uma corrente de pensamento ou de dogmas. No! Ele almejava libertar o homem do parntese do tempo e imergi-lo
nas avenidas da eternidade.

Retornando como num relmpago do cu para a terra
Ningum, mesmo no pice do delrio, tem coragem e mesmo capacidade intelectual para discursar as palavras que ele proferiu nesta longa e complexa orao. O que 
mais interessante  que, ao mesmo tempo em que olhou para o cu e discursou sobre uma vida infindvel, ele se voltou, na mesma orao, como um relmpago para a "terra"
e mostrou uma preocupao extremamente afetiva com a vida e a histria dos seus discpulos. Proclamou ao seu Pai: "Quando estava com eles, guardava-os em teu nome...";
"No rogo apenas por estes, mas tambm por aqueles que vierem a crer em mim, por intermdio da tua palavra, a fim de que todos sejam um44". Jesus, apesar de estar
prximo da mais angustiante srie de sofrimentos, ainda tinha nimo para cuidar dos seus ntimos e discursar sobre o amor no seu mais belo sentido. Queria que um
clima de cuidado mtuo e solidariedade envolvesse a relao entre seus amados discpulos. Nunca lhes prometeu uma vida utpica, uma vida sem problemas e contrariedades.
Pelo contrrio, almejava que os percalos da existncia pudessem lapid-los. Afinal de contas, sabia que o osis  mais belo quando construdo no deserto e no nas
florestas. Suas palavras denunciavam que, para ele, Deus, embora invisvel, era um ser presente, um ser que no estava acima das emoes humanas, mas que tambm
sofria e se preocupava com cada ser humano em particular. Ao estudarmos a histria das religies, detectamos que freqentemente o homem fala de Deus de uma maneira
intocvel, acima da condio humana, mais preocupado em punir erros de conduta do que em manter uma relao estreita e afetiva com o ser humano. Mas no conceito
de Cristo, o seu Pai  um Deus acessvel, afetivo, atencioso e preocupado com as dificuldades que atravessamos e que, embora nem sempre retire as dificuldades da
vida, propicia condies para super-las. O filho e o Pai estavam participando juntos, passo a passo, de um plano para transformar o ser humano. Nessa orao, Jesus
diz que enquanto estava no mundo ele cuidava dos seus discpulos, estimulava-os a se interiorizarem, a conhecerem os mistrios da existncia e a se amarem mutuamente.
Mas agora sua hora havia chegado e ele teria de partir. Na despedida, roga ao Pai que no os tire do mundo, mas que cuide deles nos inevitveis invernos da existncia.
Conhecia as sinuosidades que os homens atravessariam, mas queria que eles aprendessem a transitar com maturidade e segurana por elas, ainda que nas curvas da existncia
pudessem derramar algumas lgrimas e tivessem momentos de hesitao. O mestre nem sempre queria tirar as pedras do caminho que perturbavam suas trajetrias, mas
desejava que elas se tornassem tijolos para desenvolver neles uma humanidade elevada.

#Procurando gerar alegria num ambiente de tristeza
Os discpulos estavam para perder o seu mestre. Este, por sua vez, alm da dor imensa da partida, teria de enfrentar noite adentro e na manh seguinte o seu martrio.
O momento era de grande comoo. Todavia, num clima onde s havia espao para chorar, Jesus mais uma vez toma uma atitude imprevisvel. No meio da sua orao ele
discursa sobre o prazer. Ele roga ao Pai para que todos os seus seguidores no fossem pessoas tristes, angustiadas e deprimidas, mas que tivessem um prazer pleno.
Disse: "... para que eles tenham o meu gozo completo em si mesmos"45. A personalidade de Cristo  difcil de ser investigada. Ela foge completamente  previsibilidade
lgica, por isso  capaz de deixar perplexo qualquer pesquisador da psicologia. Como pode algum discorrer sobre alegria na iminncia de morrer? Como pode algum
ter disposio para discursar sobre o prazer se o mundo conspira contra ele para mat-lo? Ningum que ama a vida e a arte de pensar pode deixar de investigar a personalidade
de Cristo, ainda que a rejeite completamente. Nessa orao, ele ainda tem disposio para se preocupar com a qualidade do relacionamento entre seus discpulos. Clama
pela unidade entre eles. Comovido, suplica que seus amados galileus e todos aqueles que viessem a se agregar a seu projeto transcendental fossem aperfeioados na
unidade. Como grande mestre da escola da vida, sabe que a unidade  a nica base segura para o aperfeioamento e a transformao da personalidade. Daria a sua vida
aos seus discpulos e ambicionava que eles superassem as disputas predatrias, os cimes, as contendas, as injrias, o individualismo, o egocentrismo. Queria que
essas caractersticas doentias da personalidade fossem relquias de uma vida passada superficial e sem razes. Almejava que uma nova vida fosse alicerada nos pilares
do amor, da tolerncia, da humildade, da pacincia, da singeleza, do afeto no fingido, da preocupao mtua. Provavelmente, neste discurso final, tenha chorado
pela unidade, ainda que com lgrimas clandestinas, imperceptveis aos olhos daqueles que no conseguem perscrutar os sentimentos represados no territrio da emoo.
Termina sua orao dizendo: "... a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles esteja"46. A anlise psicolgica destas breves palavras tem grandes
implicaes que se contrapem a conceitos triviais. Quando pensamos sobre o que Deus requer do homem, temos em mente um cdigo de tica, a observncia de leis e
regras de comportamentos que estabeleam os limites entre o bem e o mal. Entretanto, no final do seu dilogo com o Pai, Jesus rompe nossos paradigmas e proclama
eloqentemente que ele simplesmente quer que o homem aprenda a transitar pelas doces, ricas e ilgicas avenidas do amor. O sofrimento do povo de Israel era grande.
A escassez de alimentos era enorme e a violncia de Roma a todos os que se contrapunham  sua dominao era forte. Nesse ambiente rido ningum falava de amor e
dos sentimentos mais nobres da existncia. Os poetas estavam mortos. Os salmistas enterrados. No havia cnticos alegres naqueles ares. Mas veio um homem dizendo-se
filho do Deus eterno. Seu discurso foi incomum. Ele encerra sua curta vida terrena discorrendo no sobre regras, leis e sistemas de punio, mas simplesmente sobre
o amor. Somente o amor pode cumprir espontnea e prazerosamente todos os preceitos. Somente ele d sentido  vida e faz com que ela, mesmo com todos os seus percalos,
seja uma aventura to bela que rompe a rotina e renova as foras a cada manh. O amor transforma miserveis em homens felizes; a ausncia do amor transforma ricos
em miserveis.

#CAPTULO

6

VIVENDO A ARTE DA AUTENTICIDADE

#O ambiente do Jardim do Getsmani
O alimento e a bebida ingeridos por Cristo na ltima ceia foram importantes para sustent-lo. Eles no lhe dariam po nem gua durante o seu tormento. Sabia o que
lhe esperava, por isso nutriu-se calmamente para suportar o desfecho de sua histria. Aps sua orao sacerdotal, foi sem medo ao encontro de seus opositores. Entregou-se
espontaneamente. Procurou um lugar tranqilo, sem o assdio da multido, pois no desejava qualquer tipo de tumulto ou violncia. No queria que nenhum dos seus
corresse perigo. Preocupou-se at mesmo com a segurana dos homens encarregados de prend-lo, pois censurou o ato agressivo de Pedro a um dos soldados. O mestre
era to dcil que por onde ele passava florescia a paz, nunca a violncia. Os homens podiam ser agressivos com ele, mas ele no era agressivo com ningum. Um odor
de tranqilidade invadia os ambientes em que transitava. Ser que onde estamos criamos um agradvel clima de tranqilidade ou estimulamos a irritabilidade e a tenso?
O amor que Jesus sentia pelo ser humano o protegia do calor escaldante dos desertos da vida. Chegou ao absurdo de amar seus prprios inimigos. Quo diferentes ns
somos! Nosso amor  circunstancial e restrito, to restrito que, s vezes, no sobra energia nem para amar a ns mesmos e sentir um pouco de auto-estima.

A ira do mestre no momento certo, pelo motivo certo e na medida certa
Na nica vez que ele se irou, estava no templo.Viu homens fazendo negcios na casa de seu "Pai": comercializando animais e cambiando moedas. O templo de orao tinha
virado o templo do comrcio. Aquela cena incomodou-o profundamente e, por isso, embora estivesse no territrio de pessoas que o odiavam, derrubou a mesa dos cambistas
e expulsou aqueles homens do templo. Disse: "No faais da casa de meu Pai casa de negcio"47. Alguns judeus, irritados com sua atitude, perguntaram-lhe qual era
o motivo e com que autoridade ele fazia aquelas coisas. Jesus estava aborrecido, mas no intensamente. A ira nunca engessava seu raciocnio. Por isso, respondeu-lhes
com serenidade e ousadia: "Destru este santurio, e em trs dias o reconstruirei"48. Tal resposta no era jamais a que eles esperavam ouvir. A pergunta era desafiadora,
mas a resposta foi bombstica. Suas palavras soaram como uma afronta para aqueles homens. Por isso, imediatamente replicaram-lhe: "Em quarenta e seis anos foi edificado
este santurio, e tu, em trs dias, o levantars?"49. O templo de Jerusalm era uma das maiores obras de engenharia da civilizao humana. Seus materiais foram preparados
por muitos anos pelo rei Davi. Entretanto, somente seu filho, o rei Salomo, o edificou. Para isso, usou milhares de trabalhadores. Poucas obras demoraram tantos
anos para serem construdas. O templo era o smbolo dos judeus, o lugar sagrado deles. Tocar no templo era mexer nas razes da sua histria. Entretanto, surgiu um
homem da Galilia, uma regio desprezada pelos judeus, que dizia que aquele templo milenar no era um lugar apenas sagrado para ele, mas a sua prpria casa, a casa
de seu Pai. Tal homem toma posse daquele lugar como se fosse a sua propriedade e expulsa aqueles que ali

#trocavam moedas e comercializavam animais. E, ainda por cima, disse com a maior intrepidez que em trs dias o destruiria e reedificaria. Cada vez que Jesus abria
a sua boca, os judeus ficavam estarrecidos. Eles no sabiam se consideravam-no um louco ou o mais blasfemo dos homens. Jesus j tinha sido ameaado de morte vrias
vezes pelos judeus; agora ele, sem expressar qualquer tipo de medo e sem dar muitas explicaes, proferiu pensamentos que implodiram a maneira de pensar deles. Como
pode algum tomar posse do templo sagrado dos judeus? Como  possvel um homem destruir e edificar em trs dias uma das mais ousadas obras de engenharia humana?
Jesus, em breves palavras, revelava seu grande projeto. O templo fsico, que demorou dcadas para ser construdo, seria transferido para o interior do homem. Por
meio da sua morte, a humanidade seria redimida, abrindo caminho para que Deus pudesse habitar no esprito humano. Como pode o arquiteto de um universo de bilhes
de galxias se fazer to pequeno a ponto de habitar numa nfima criatura humana? Esse era o objetivo central do mestre de Nazar. Paulo, o apstolo tardio, que outrora
fora um agressivo opositor, dando seguimento a este pensamento, teve a coragem de declarar que as discriminaes raciais seriam extirpadas, que as distncias entre
os homens seriam abolidas e que haveria uma unidade jamais pensada na histria, ou seja, judeus e os demais povos (gentios) pertenceriam  mesma famlia, "sois da
famlia de Deus"50. Eles estariam "...sendo edificados para habitao de Deus no Esprito"51. O belssimo sonho do apstolo Paulo, que estava em sintonia com o plano
de Jesus, ainda no foi cumprido, nem mesmo entre os cristos. Somos uma espcie que ainda cultiva toda sorte de discriminaes. Os homens ainda no aprenderam a
linguagem do amor. Amamos mais as diferenas do que a solidariedade. Pela fina camada da cor da pele, por alguns acres de terra, por alguns dlares no bolso, por
alguns ttulos nas paredes, nos dividimos de maneira tola e ilgica. Jesus, ao dizer que em trs dias destruiria o templo e o reedificaria, estava se referindo ao
desfecho da sua histria. Ele, como o templo de Deus, morreria e no terceiro dia ressuscitaria. Mais uma vez ele expressou que transcenderia a morte e mais uma vez
deixou seus opositores assombrados. Embora o templo fosse o lugar sagrado do povo judeu, muitos deles tinham perdido a sensibilidade e o respeito por ele. Jesus
teve, ao longo da sua vida, muitos motivos para ficar irritado, mas exalava tranqilidade. Foi profundamente discriminado, mas acolheu a todos; cuspiram-lhe no rosto,
suportou; caluniado, procurou conciliao; esbofeteado, tratou com gentileza seus agressores; aoitado como o mais vil dos criminosos, expressou mansido. Aquele
que foi o estandarte da paz somente se ofendeu uma nica vez, quando desrespeitaram a casa de seu Pai. Entretanto, no dirigiu a sua ira aos homens, mas s suas
prticas e ao seu desrespeito. Por isso, logo se refez e no guardou mgoa e rancor de ningum. Portanto, ainda que estivesse sob a mais drstica frustrao, era
possvel observar lucidez e coerncia em seu nico momento de ira. Aristteles era um filsofo humanista, mas ele no viveu todo o seu discurso. Havia escravos por
toda a Grcia, mas ele no teve coragem de se levantar contra a desumanidade da escravido. Calou-se quando devia gritar. Jesus no foi assim. Por diversas vezes,
antes de ser crucificado, correu o risco de morrer por se colocar ao lado das pessoas discriminadas, por almejar libert-las dentro e fora delas e aqui, nesse episdio,
por fazer uma faxina no templo do seu Pai. Nele se cumpriu o pensamento de Aristteles: "O difcil  irar-se no momento certo, pelo motivo certo e na medida certa".
Precisamos aprender com o mestre de Nazar a fazer uma "faxina" no templo de nosso interior. Virar a "mesa" dos pensamentos negativos. Extirpar o "comrcio" do medo
e da insegurana. Reciclar nossa rigidez e rever o superficialismo com que reagimos aos eventos da vida.

#Quem no  capaz de causar uma revoluo dentro de si mesmo nunca conseguir mudar as rotas sinuosas de sua vida. A maior misria no  aquela que habita os bolsos,
mas a alma.

Trado pelo preo de um escravo
O Getsmani era um jardim. Num jardim comeou seu intenso inverno existencial. No havia lugar melhor onde ele pudesse ser preso. Aquele que fora o mais excelente
semeador da paz tinha de ser preso num jardim, e no na aridez do deserto. O jardineiro da sabedoria e da tolerncia foi preso no jardim do Getsmani. Getsmani
significa azeite.O azeite  produzido quando as azeitonas so feridas, esfoladas e esmagadas. L, no Getsmani, aquele homem dcil e gentil comearia a ser ferido
e "esmagado" pelos seus inimigos. Seu drama seguiria noite adentro, percorreria o dia posterior e terminaria com seu corpo em uma cruz. Por onde ele andava, seus
discpulos no o deixavam. Embora assaltados pela tristeza, ainda assim caminhavam com ele os seus ltimos passos. Todos,  exceo de Judas, foram com ele quele
jardim. Judas estava ausente, preparava o processo de traio. Por trinta moedas de prata ele o entregaria no momento certo, distante da multido e de qualquer tumulto.
Cristo, para nossa surpresa, facilitou a traio e, conseqentemente, sua priso. Por um lado, sua morte seria produzida pela vontade dos homens, pois esses jamais
aceitariam a sua revoluo interior, mas, por outro, era uma realizao da vontade do Pai. Judas tinha andado com o seu mestre, mas no o conhecia. Ouvia as suas
palavras, mas elas no penetravam nele, pois no sabia se colocar como aprendiz. No h pessoas desinteligentes, mas pessoas que no sabem ser um aprendiz. Ele no
precisava sujar suas mos, pois era o desejo de Jesus morrer pela humanidade. Sem qualquer resistncia, ele se entregaria na festa da pscoa. Judas cometeu uma das
mais graves traies da histria. Por quanto ele o traiu? Por trinta moedas de prata, que na poca representavam apenas o preo de um escravo. Nunca algum to grande
foi trado por to pouco. O homem que abalou o mundo foi trado pelo preo de um escravo...

Trs amigos em particular
Apesar de todos os seus discpulos terem ido com ele para o Getsmani, Jesus chamou em particular Pedro, Tiago e Joo para revelar no o seu poder, mas a sua dor,
o lado mais angustiante de sua humanidade. No revelou a todos os seus discpulos a sua angstia, mas a trs em particular. Os demais discpulos, bem como o mundo,
conheceram a dor de Cristo pelo depoimento desses trs amigos. A atitude dele indicava que existia diferente grau de intimidade com os discpulos. O comportamento
de Cristo evidencia que ele amava intensamente todos os seus discpulos. Ele declarava continuamente que os amava. Numa poca em que os homens pegavam em armas para
se defender, em que havia escravos por toda parte e as relaes sociais eram pautadas pela frieza, apareceu um homem incomum, cujos lbios no se cansavam de dizer:
"Amai-vos uns aos outros como eu vos amei"52. Muitos pais amam seus filhos e vice-versa, mas no tm canal de veiculao deste amor. No

#conseguem dialogar abertamente e ser amigos uns dos outros. No velrio de um deles, as lgrimas que derramam denunciam que um no vive sem o outro, porm, infelizmente,
morrem sem declarar que se amam, morrem sem nunca ter dito "eu preciso de voc", "voc  especial para mim". Jesus, sem qualquer inibio, declarava seu amor pelas
pessoas, mesmo que no tivesse grandes laos com elas. Se aprendssemos a elogiar as pessoas que nos rodeiam e a declarar nossos sentimentos por elas, como o poeta
de Nazar nos ensinou, tal atitude, por si s, j causaria uma pequena revoluo em nossas relaes sociais. O mestre, por amar igualmente os seus discpulos, dava
a todos a mesma oportunidade para que fossem ntimos dele, mas nem todos se aproximavam da mesma maneira, nem todos ocupavam o mesmo espao. Ao que tudo indica,
Pedro, Tiago e Joo eram os trs discpulos mais ntimos de Cristo. Aqui farei uma pequena sntese da personalidade deles. Quando estudarmos o perfil psicolgico
dos amigos de Cristo, no prximo livro, entraremos em mais detalhes sobre a personalidade de cada um. Pedro errava muito, era rpido para reagir e lento para pensar.
Era intempestivo e geralmente impunha suas idias. Entretanto, aproveitava as oportunidades para ser amigo de Cristo, estava sempre prximo dele. Queria at mesmo
proteg-lo, quando na realidade era o prprio Pedro que precisava de proteo. Apesar dos transtornos freqentes causados por Pedro, ele amava o seu mestre e era
o que tinha mais disposio para agrad-lo e servi-lo. Jesus o conhecia profundamente, sabia das suas intenes, por isso, em vez de se irar com ele, o corrigia
pacientemente e usava cada um dos seus erros para dar preciosas lies a todos os demais. Alis, pacincia era a marca registrada do mestre. No importava quantas
vezes os seus discpulos erravam, nunca perdia a esperana neles. Pedro brilhou na sua histria porque aprendeu muito com seus erros. Sua personalidade foi to lapidada
e sua inteligncia to desenvolvida que chegou a escrever duas epstolas contendo grande riqueza potica e existencial, o que  magnfico para algum que foi desprovido
de qualquer cultura clssica. Joo era considerado o discpulo amado. Talvez fosse o mais jovem e, sem dvida, o mais afetivo deles. No h indcios de que Cristo
o amasse mais do que os demais discpulos, mas h indcios de que Joo expressava mais seu amor pelo seu mestre. Apesar de Joo ser conhecido como o apstolo do
amor, ele no era to polido na sua juventude, tinha um lado agressivo e radical. Ele e seu irmo Tiago eram chamados pelo mestre de "filhos do trovo" devido 
impetuosidade com que reagiam. No se comenta muito de Tiago nas biografias de Cristo, mas pelo fato de ser irmo de Joo, onde Joo estava,Tiago tambm devia estar.
Assim, ele tambm conquistou maior intimidade com o mestre. A concluso a que chegamos  que os amigos mais prximos de Cristo no eram os mais perfeitos nem os
mais eloqentes, mas os que mais aproveitavam as oportunidades para ouvi-lo, para penetrar em seus sentimentos e para expor as suas dvidas. Hoje, muitos querem
a perfeio absoluta, mas se esquecem das coisas mais simples que o mestre valorizava e que financiava a intimidade com ele: um relacionamento ntimo, aberto, espontneo,
ainda que acompanhado de erros e dificuldades. Quem mais cometia erros: Judas ou Pedro, Joo ou Tiago? Judas devia ser o mais moralista e o mais bem-comportado dos
discpulos 53. Entretanto, seu moralismo era superficial, pois de fato ele estava preocupado mais com seu bolso e interesses pessoais do que com os outros. Nos textos
das biografias de Jesus, h poucos relatos sobre Judas expondo seus comportamentos. Ele no aparece, como os trs amigos ntimos de Jesus, competindo e errando.
Todavia, ele escondia sua verdadeira face atrs do seu bom comportamento. O que  melhor: manter um moralismo superficial e maquiar os comportamentos ou expor os
pensamentos e sentimentos, ainda que imaturos e saturados de erros? Para o mestre, sbio no era aquele que no errava, mas o que reconhecia seus erros. Por isso,
ele declarou a um dos fariseus que aquele que mais errou foi o que mais o amou.

#Pedro, Tiago e Joo, apesar de errarem muito, conquistaram a tal ponto a intimidade do seu mestre que ele lhes exps aquilo que estava represado no mago do seu
ser. Ao ouvi-lo, eles ficaram surpresos com a dimenso da sua dor.

Vivendo a arte da autenticidade e procurando amigos ntimos
Cristo, durante a sua vida, mostrou um poder fora do comum. Suas palavras deixavam extasiadas as multides e atnitos os seus opositores. Ao se pronunciar no Jardim
do Getsmani, mostrou uma face que os discpulos nunca pensavam ver, a face da sua fragilidade. Ns temos comportamentos opostos. Temos uma necessidade paranica
de que as pessoas conheam os nossos sucessos e nos aplaudam, mas ocultamos nossas misrias, no gostamos de mostrar nossas fragilidades. O mestre teve a coragem
de confessar aos seus trs ntimos amigos aquilo que estava contido dentro de si. Ele disse com todas as letras: "A minha alma est profundamente triste at a morte"54.
Como pode algum to forte, que curou leprosos, cegos e ressuscitou mortos, relatar que estava envolvido numa profunda angstia? Como pode algum que no teve medo
de ser politraumatizado por apedrejamento dizer, agora, que sua alma estava profundamente deprimida at a morte? Os discpulos estavam acostumados  fama e ao poder
do mestre, mas agora ficaram drasticamente abalados com a sua dor e fragilidade. Nunca esperavam que ele dissesse tais palavras. Eles consideravam Jesus mais do
que um super-homem, algum que tinha a natureza divina. No conceito humano, Deus no sofre, no tem medo, no sente dor nem ansiedade e, muito menos, desespero.
Deus est acima dos sentimentos que perturbam a humanidade. Contudo, apareceu na Galilia algum que proclama com todas as letras ser o prprio filho de Deus e que
tanto ele como seu Pai tm emoes, ficam preocupados, amam cada ser humano em particular. O pensamento de Jesus revolucionou o pensamento dos judeus que adoravam
um Deus inatingvel, imarcescvel. Os discpulos tambm tiveram seus paradigmas religiosos rompidos. Eles no conseguiam entender que aquele que consideravam o filho
de Deus estava revestido da natureza humana, que ele era um homem genuno. Os discpulos no tinham conscincia de que o mestre seria condenado, ferido e crucificado
no como o filho de Deus, mas como o filho do homem. Todo o sofrimento que Cristo passou foi como homem, um homem como qualquer outro. Os aoites, os espinhos e
os cravos da cruz penetraram num corpo fsico humano. Ele sentiu as dores como qualquer ser humano sentiria se passasse pelos mesmos sofrimentos. Durante anos, aqueles
jovens galileus contemplaram o maior espetculo da terra. Viveram com uma pessoa que os protegeu, consolou e cuidou. Andaram com uma pessoa com poderes sobrenaturais.
Um dia, uma viva da cidade de Naim perdeu seu nico filho. Ela estava chorando inconsolada seguindo o cortejo fnebre desse filho. Cristo olhou para as suas lgrimas
e ficou profundamente sensibilizado com sua dor e solido. Ento, sem que ela soubesse quem ele era, parou o cortejo e tocou o esquife em que jazia o seu filho e
o ressuscitou. As pessoas ficaram espantadas com o que ele fez, nunca tinham ouvido falar de algum que tivesse tal poder. Quinze minutos em que o crebro fica sem
irrigao sangnea  suficiente para causar leses irreversveis na memria, causando grandes prejuzos para a inteligncia. O filho daquela mulher j estava morto
h horas, entretanto ele o ressuscitou. Que poder tinha este homem para realizar esse extraordinrio feito? Os discpulos estavam delirando quando escreveram sobre
este milagre ou de fato ele o realizou? Isso entra na esfera da f, o que no  objeto deste livro. Contudo, no livro anterior, defendi uma importante tese psicolgica
evidenciando que no seria possvel a mente humana criar um personagem

#com as caractersticas de personalidade como a de Jesus, pois ela foge aos limites da previsibilidade lgica. Portanto, apesar de ser possvel rejeitar tudo o que
ele foi e props ao homem, se analisarmos sua personalidade nos convenceremos que, de fato, ele andou e respirou nesta terra. No Getsmani, Jesus teve gestos inesperados.
Como pode algum que  o portador de um poder jamais visto em toda a histria da humanidade, ter a coragem de dizer que sua alma estava profundamente triste? Como
pode algum que se colocou como Deus eterno e infinito, precisar de amigos mortais e finitos para declarar sua dramtica angstia? Que homem na histria reuniu essas
caractersticas diametralmente opostas em sua personalidade? Os discpulos, encantados com o poder de Cristo, jamais pensaram que ele sofreria e precisaria de algo
deles. Ento, de repente, o mestre no apenas comentou que estava profundamente triste, mas que gostaria da companhia e da orao deles naquele momento. Jesus Cristo
viveu na plenitude a arte da autenticidade. Os discpulos pasmados no entenderam nem suportaram a sinceridade do seu mestre. Jesus no escondia seus sentimentos
mais ntimos, enquanto ns os represamos. Somos impiedosos e autopunitivos conosco. Parece que no podemos falhar, fragilizar, errar. Alguns jamais expem seus sentimentos.
Ningum os conhece por dentro, seja o cnjuge, filhos e amigos mais ntimos. Eles so um poo de mistrios, apesar de ter a necessidade ntima de dividir suas emoes.
O mestre dos mestres da escola da vida deixou-nos um modelo vivo de uma pessoa emocionalmente saudvel. Ele se entristeceu ao mximo, mas no teve medo nem vergonha
de declarar abertamente as emoes aos seus amigos. Estes registraram em papiros essa caracterstica de sua personalidade e a expuseram ao mundo. At hoje, a maioria
das pessoas no entende que tal caracterstica reflete uma pessoa encantadora. Somente os fortes conseguem admitir suas fragilidades. Aqueles que so fortes por
fora so de fato frgeis, pois se escondem atrs de suas defesas, de seus gestos agressivos, de sua auto-suficincia, de sua incapacidade de reconhecer erros e dificuldades.
O mestre era poderoso, sabia se fazer pequeno e acessvel. Posicionava-se como imortal e parecia inabalvel, mas, ao mesmo tempo, gostava de ter amigos finitos e
de dividir com eles seus sentimentos mais ocultos. Muitos querem ser "deus" ou se comportar como "anjos", mas Jesus amava os gestos mais simples. Diversas pessoas,
incluindo muitos cristos, no tm uma vida intelectual e emocional saudvel, pois no observam esses princpios. Sofrem intensamente, mas no conseguem admitir
seus sofrimentos ou no conseguem ter amigos para dividir seus conflitos. Alguns querem compartilh-los, mas no conseguem encontrar algum que os oua sem preconceitos
e sem pr-julgamentos. Algumas se suicidam simplesmente porque no tm um amigo para segredar suas dores. O homem que no tem alguns amigos ntimos, capazes de gostar
dele pelo que ele  e no pelo que ele tem, no tem uma das mais ricas experincias existenciais. Tenho procurado reunir minha esposa e minhas trs filhas para falar
de ns mesmos.  enriquecedor penetrar no mundo delas e deix-las falar sobre o que pensam e sentem.  prazeroso dividirmos mutuamente nossos sentimentos e deix-las
apontar quais comportamentos elas gostariam que eu mudasse. s vezes, peo desculpas s minhas filhas por alguns comportamentos mais speros ou porque trabalho muito
e no lhes dou a ateno que merecem. Minha atitude, aparentemente frgil, se torna um poderoso instrumento educacional para que elas aprendam a se interiorizar,
pensar nas conseqncias de seus comportamentos e enxergar o mundo tambm com os olhos do outro. Embora haja muito que caminhar, estas reunies fazem com que nos
apaixonemos cada vez mais uns pelos outros e cultivemos uma amizade mtua.

#Vivemos ilhados na sociedade. Infelizmente, por participarmos de uma sociedade mutista, muitas pessoas s tm coragem de falar de si mesmas quando esto diante
de um terapeuta. Creio que menos de um por cento das pessoas tem amigos com vnculos profundos. A maioria das pessoas que chamamos de amigos mal conhecem a sala
de visita de nossas vidas, muito menos nossas reas mais ntimas. Na grande maioria dos casamentos no se encontram amigos. Marido e esposa dormem na mesma cama
e respiram o mesmo ar, mas so dois estranhos que pensam que se conhecem bem. Pais e filhos tambm repetem a mesma histria, sendo freqentemente belos grupos de
estranhos. No sabemos penetrar nos sentimentos mais profundos das pessoas. Sempre oriento psiclogos e educadores para que nunca deixem de conversar sobre as idias
mais ridas que permeiam as vidas das pessoas, mesmo aquelas ligadas ao suicdio. Aparentemente, parece no ser confortvel falar sobre esse assunto, mas dividir
os sentimentos  importante e aliviador. Um dilogo aberto pode prevenir o suicdio e traar algumas estratgias teraputicas. Um dia, aps proferir uma palestra
sobre o funcionamento da mente e sobre as doenas psquicas, uma coordenadora educacional disse-me, com lgrimas nos olhos, que se tivesse ouvido esta palestra anteriormente
teria evitado o suicdio de uma aluna. A aluna queria conversar com ela, mas a coordenadora no pensou que a aluna estivesse to deprimida, embora revelasse um comportamento
estranho. Por isso, deixou para um dia posterior a possibilidade de dilogo. No deu tempo; a jovem se matou. Precisamos aprender a penetrar no mundo das pessoas.
A arte de ouvir deveria fazer parte de nossa rotina de vida. Todavia, pouco a desenvolvemos. Somos timos para julgar e apontar o dedo para a falha dos outros, mas
pssimos para ouvi-los e acolh-los. Para desenvolver a arte de ouvir  preciso ter sensibilidade,  preciso ouvir aquilo que as palavras no dizem,  preciso escutar
o silncio... O mestre de Nazar sabia tanto ouvir como falar de si mesmo. Ao expor a sua dor, estava treinando seus discpulos a serem abertos e autnticos uns
com os outros, a dividirem as suas angstias, a aprenderem a arte de ouvir. Por amar aqueles jovens galileus, ele no se importou em usar a prpria dor como instrumento
pedaggico para conduzi-los a se interiorizar e construir uma vida saudvel e sem representao.

Cristo no buscava herosmos
Qualquer pessoa que quisesse fundar uma religio ou ser um heri nos anais da histria esconderia os sentimentos que Cristo expressou no jardim do Getsmani. Isso
demonstra que, de fato, ele no queria fundar uma nova religio que competisse com as outras. Suas metas eram superiores. Como disse, ele queria redimir o homem
e introduzi-lo na eternidade. No buscava herosmo, mas simplesmente cumprir aquilo para que estava designado, cumprir seu projeto transcendental. O momento crucial
desse projeto chegou: beber o seu clice, atravessar o seu martrio. Naquele escuro jardim, ele precisava se preparar para suportar essa tormenta. Nesse processo
de preparao, ele revela a sua dor e comea a dialogar sobre ela com o Pai. Foi somente a que os seus amigos comearam a perceber que sua morte estava mais prxima
do que imaginavam. Alguns, por analisar superficialmente os pensamentos e as reaes de Cristo na noite em que foi preso, vem ali fragilidade e recuo. Eu vejo ali
a mais bela poesia da liberdade, resignao e

#autenticidade. Tinha liberdade de omitir seus sentimentos, mas no o fez. Nunca algum to grande foi to autntico. A partir de agora analisarei passo a passo
todas as etapas de sofrimentos vividas por Cristo at a sua morte clnica. No prximo captulo, estudaremos o primeiro grupo de sofrimentos, que foi aquele causado
pelos seus discpulos. No captulo 8, analisarei o estado de tristeza vivenciado por Cristo e o seu surpreendente pedido ao Pai para afastar de si o seu clice.

#CAPTULO

7

A DOR CAUSADA PELOS SEUS AMIGOS

#No confortado pelos amigos
O clice de Cristo se constitui de dezenas de sofrimentos, iniciados no jardim do Getsmani at ao Glgota, local da crucificao. Neste livro, estudaremos as dores
que vivenciou no Getsmani,  exceo da negao de Pedro. No prximo, analisaremos todas as etapas do seu julgamento e de sua crucificao. Qual foi o primeiro
tipo de sofrimento que ele experimentou? Foi o causado pelos seus trs amigos. A dor mais aguda  causada pelas pessoas que mais amamos. No pice da sua dor o mestre
pediu o conforto e a companhia de Pedro, Joo e Tiago, mas eles no conseguiram retribuir-lhe o pedido. Ele no apenas lhes disse: "A minha alma est profundamente
triste at a morte". Mas tambm emendou: "Ficai aqui e vigiai comigo"55. Nunca esperavam que ele declarasse que estava triste, nem jamais pensaram que um dia o mestre,
to forte e inabalvel, precisasse de companhia. Estudaremos aqui qual o resultado daquele que viveu a arte da autenticidade, qual o resultado da sua declarao
e do seu pedido aos discpulos. Ao ouvir tais palavras e observar o semblante angustiado do mestre, aqueles jovens galileus ficaram profundamente estressados e,
conseqentemente, mergulharam num estado de sonolncia. O stress intenso rouba energia do crtex cerebral, energia esta que ser usada nos rgos da economia do
corpo, por exemplo, a musculatura. O resultado desse roubo de energia  um cansao fsico exagerado e inexplicvel. Grande parte das pessoas ansiosas e deprimidas
ou que tem trabalho intelectual intenso vive essa sintomatologia. Por pensarem e se estressarem muito, esto sempre roubando energia do crebro, por isso esto continuamente
fatigadas e no sabem o motivo. No fizeram exerccio fsico, mas esto sem energia. Quando a fadiga  intensa, gera-se uma sonolncia, que  um recurso de defesa
cerebral, pois dormindo repomos a energia biopsquica. Lucas, autor do terceiro evangelho, era um excelente mdico. Sua caracterstica fundamental era ser detalhista.
De origem provavelmente grega, devia ter herdado a capacidade de observao do pai da medicina, Hipcrates. Talvez tenha sido um dos primeiros mdicos que viu a
correlao entre a mente e o corpo. Lucas disse: "Eles dormiam de tristeza"56. Discorreu que o sono dos discpulos estava ligado a um estado de ansiedade e humor
triste. Inferiu que aquele sono no era fisiolgico, natural, mas decorrente do fato de no suportarem a dor do mestre, de no aceitarem a sua separao. Com essa
constatao, inaugurou a medicina psicossomtica, pois h tantos sculos j sabia das manifestaes da psique ansiosa no soma (organismo), j conhecia algumas conseqncias
do stress. O sono dos discpulos era uma grande defesa inconsciente. Uma defesa que objetivava evitar vislumbrar a agonia do mestre e, ao mesmo tempo, repor a energia
cerebral consumida excessivamente pelo processo de hiperacelerao de pensamentos e tenso. Pedro, Tiago e Joo eram homens fortes, acostumados a passar a noite
no mar. Dificilmente algo os abalava. Todavia, Jesus cruzou com a histria deles e os fez enxergar a vida em outra perspectiva. O mundo passou a ter uma nova dimenso.
O mestre de Nazar lhes havia ensinado a arte de amar e discursado amplamente sobre um reino onde no mais haveria morte, dor ou tristeza. Entretanto, quando ele
disse que sua alma estava profundamente angustiada, uma avalanche de idias negativas solapou a mente dos discpulos. Parecia que o sonho tinha acabado. Os olhos
deles ficaram "pesados", mergulharam num sono incontido. Aps ter dito essas palavras, Jesus se afastou algumas dezenas de metros dos seus amigos e foi orar s.
Queria se interiorizar, orar e refletir sobre o drama que passaria. Passada a primeira hora de orao, veio ver os seus, mas os achou dormindo. Apesar de frustrado,
no foi intolerante com eles. Acordou-os

#afavelmente.  difcil entender tamanha gentileza diante de tanta frustrao. Deveria ter ficado irritado com eles e censurar-lhes a fragilidade, mas foi amvel.
Provavelmente nem queria despert-los, mas precisava trein-los para enfrentar as dificuldades da vida, queria faz-los fortes para lidar com as dores da existncia.
Muitos de ns somos intolerantes quando as pessoas nos frustram. No toleramos seus erros, no aceitamos suas dificuldades nem a lentido em aprender determinadas
lies. Esgotamos nossa pacincia quando os comportamentos delas no correspondem s nossas expectativas. O mestre era diferente, nunca desanimava dos seus amados
discpulos, nunca perdia a esperana neles, ainda que o decepcionassem intensamente. Com o mestre da escola da vida, aprendemos que a maturidade de uma pessoa no
 medida pela cultura e eloqncia que possui, mas pela esperana e pacincia que transborda, pela capacidade de estimular as pessoas a usarem os seus erros como
tijolos da sabedoria. Ao despert-los disse a Pedro: "Nem por uma hora pudeste vigiar comigo?"57.  como se ele quisesse dizer ao seu ousado discpulo: "Voc me
disse, h algumas horas, que se fosse necessrio at morreria por mim. Entretanto, s pedi para voc ficar junto comigo na minha dor e voc nem por uma hora conseguiu?".
Pedro podia estar indagando: "Eu mais uma vez decepcionei o mestre e ele mais uma vez foi gentil comigo. Eu mereceria ser repreendido seriamente, mas ele apenas
me levou a repensar minhas limitaes...". Aps ter dito isto, retornou  viagem que fazia ao seu prprio interior. Foi novamente orar. O sono que abateu os discpulos
foi a primeira frustrao de Cristo. Deu muito aos discpulos, mas nunca havia pedido nada para si. Na primeira vez em que lhes pediu algo, dormiram. No pediu muito,
apenas que ficassem junto dele na sua dor. Entretanto, no momento em que mais precisava de seus amigos, eles estavam fora de cena. No nico momento que requereu
que fossem fortes, eles foram vencidos pelo stress. Na segunda hora, ele foi novamente at seus discpulos e outra vez os achou dormindo. Mas dessa vez nada lhes
disse, apenas os deixou continuarem seu sono. Solitrio, foi em busca do seu Pai. Na terceira hora, algo aconteceu. O momento de ser preso chegara.

Golpeado pela traio de Judas
A noite na qual o mestre foi preso foi a mais angustiante de sua vida. Foi a noite em que um dos seus amados discpulos resolvera tra-lo. Era uma noite densa. Ele
estava orando continuamente e esperando o momento de ser preso. De repente, pressentindo que a hora havia chegado, acordou definitivamente os seus amigos e disse-lhes:
" chegada a hora, eis que o traidor se aproxima"58. Se o leitor analisar atentamente essa frase, ver que ela carrega um sabor amargo nas entrelinhas. No disse:
"Eis que uma escolta de soldados se aproxima", mas "Eis que o traidor se aproxima". Por que no apontou a escolta de soldados aos seus sonolentos discpulos, j
que ela  que estava cumprindo as ordens do sindrio? Porque embora a escolta viesse com armas e o prendesse com violncia, a dor que estava sentindo pela traio
de Judas era maior do que a da agressividade de centenas de soldados. A dor provocada por Judas Iscariotes feria a sua alma e a dor provocada pelos soldados do sindrio
machucava o seu corpo. Ele s no foi mergulhado num mar de frustrao porque protegia sua emoo e no esperava muito das pessoas pelas quais ele se doava. Por
isso, logo se refazia. No  a quantidade dos estmulos estressantes que nos faz sofrer, mas a qualidade deles. A dor da traio  indescritvel.

#O mestre sempre tratou Judas com amabilidade. Nunca o exps publicamente. Nunca o desprezou nem o diminuiu diante dos demais discpulos, embora soubesse das suas
intenes. Se estivssemos no lugar de Jesus e soubssemos que Judas nos trairia, ns o teramos exposto publicamente e banido-o da comunidade dos discpulos. Ele
jamais faria parte de nossa histria de vida, pois quem consegue conviver com um traidor? Cristo conseguiu. Sabia que havia um traidor no meio dos discpulos, mas
o tratou com dignidade e nunca o excluiu. Sua atitude  impensvel. Ele nem mesmo impediu a traio de Judas, apenas o levou a repensar sua atitude. Que estrutura
emocional escondia-se dentro deste mestre da Galilia para que ele suportasse o insuportvel? Muitas ONGs (Organizaes No-Governamentais) lutam para extinguir
os crimes contra a conscincia e para preservar os direitos humanos, mas Jesus foi muito mais longe. No apenas acolheu leprosos, cuidou das prostitutas e respeitou
os que pensavam contrariamente a ele, mas tambm chegou ao cmulo de ser afetivo com seu prprio traidor. No poucas pessoas excluem de suas vidas determinados parentes,
amigos e at filhos por sentiremse agredidos pelos seus comportamentos. No toleram minimamente as pessoas que os ofendem ou os contrariam, mas o mestre de Nazar
era diferente, ele de fato foi o mestre da tolerncia e da solidariedade. Ele no se deixava ser invadido pelas contrariedades. Conseguia filtrar as ofensas e agressividades
dirigidas a ele, o que o tornava livre no territrio da emoo. Assim, ele podia amar as pessoas. Portanto, am-las no era um sacrifcio para ele, mas um exerccio
do prazer. Muitos no tm filtro emocional. Viver em sociedade  um problema para eles, pois, como  impossvel evitar todas as contrariedades e atritos interpessoais,
esto sempre angustiados. Muitos fazem de sua emoo uma lata de lixo. Tudo o que fazem a eles  comprado por um preo caro. Angustiados, no conseguem amar os outros
nem a si mesmos.  menos traumtico viver com mil animais do que com um humano. Todavia, apesar de a convivncia social ser uma fonte de stress, no conseguimos
viver ilhados, pois no suportamos a solido. Nunca houve tanta separao de casais como atualmente. Entretanto, nem por isso as pessoas deixam de se unir, de se
casar. O mestre de Nazar, por ter um excelente filtro emocional, tinha prazer em conviver com as pessoas, ainda que o decepcionassem com freqncia. Ele amava o
ser humano independente dos seus erros e da sua histria. Alguns administradores pblicos, ao tomar posse, dizem por meio das palavras ou gestos: "esqueam o que
eu disse". Em algumas situaes,  possvel que a governabilidade poltica no seja compatvel com o discurso das idias. Com o mestre no era assim. Se houve uma
pessoa que proferiu um discurso em sintonia com a sua prtica, essa pessoa foi Jesus Cristo. Ele discursou: "Amai vossos inimigos", e os amou at o fim. Por isso
teve o desprendimento de chamar seu traidor de amigo no momento da sua traio. O compromisso primordial de Jesus era com a sua conscincia, e no com o ambiente
social. No distorcia seu pensamento nem procurava dar respostas para agradar as pessoas que o circundavam. Por ser fiel  sua conscincia, freqentemente envolvia-se
em embaraos e colocava sua vida em grave perigo. Considerava a fidelidade  sua conscincia mais importante do que qualquer tipo de acordo escuso ou dissimulao
de comportamento. Aquele que foi fiel  sua conscincia e que ensinou seus discpulos a andarem altaneiramente no mesmo caminho recebeu um golpe pelas costas. Judas
no aprendeu essa lio, foi infiel  sua conscincia. A traio de Cristo foi o segundo sofrimento pelo qual ele passou. O seu clice no comeou na cruz, mas no
jardim do Getsmani.

#Todos o abandonam
Agora chegamos ao terceiro tipo de sofrimento vivido por Cristo. Aps Judas t-lo trado com um beijo, ele foi preso. Quando Cristo foi preso, todos os seus discpulos
o abandonaram. Ele j previra esse episdio. Disse-lhes: "Ferirei o pastor, e as ovelhas se dispersaro"59. Imagine as longas caminhadas que ele fez com seus discpulos.
Quantas vezes no subiram com ele ao monte das Oliveiras ou de dentro de um barco  beira da praia o ouviram ensinar s multides com palavras eloqentes e estridentes.
Quantas vezes os discpulos, impelidos pela fama de Jesus, no disputaram entre si quem seria o maior entre eles na vinda do seu reino, que muitas vezes pensaram
que se tratasse de um reino terreno. Diante de tanta glria desfrutada pelo carpinteiro de Nazar, somente uma reao era esperada dos seus jovens seguidores: "jamais
te abandonaremos"60.  fcil apoiar algum forte.  fcil dar crdito a algum que est no pice da fama. Mas a fama  uma das mais sedutoras armadilhas da modernidade.
Muitos se entusiasmam com o ribombar dos aplausos, mas com o passar do tempo acabam tendo a solido como a sua mais ntima e amarga companheira. Precisam sempre
ter algum ao seu lado, pois no sabem conviver consigo mesmos. Cristo sabia que um dia todos os discpulos o deixariam s. No adiantava dizerem que jamais o abandonariam,
pois ele sabia que no momento em que deixasse de usar o seu poder e fosse tratado como um criminoso, eles o deixariam. De fato, nesse derradeiro momento, ningum
foi intrpido a ponto de ficar com ele. Todos aqueles jovens galileus que aparentemente eram to fortes ficaram fragilizados. Foram vencidos pelo medo. Entretanto,
o mestre no desistia deles. Tinha planos para eles, por isso seu desafio e objetivo fundamental no era puni-los quando erravam, mas conduzi-los a viajar para dentro
de si mesmos e transform-los interiormente. Jesus no caminhava pelas avenidas do certo e errado, pois compreendia que a existncia humana era muito complexa para
ser esquadrinhada por regras comportamentais e leis. Por isso, veio no apenas para cumprir a lei mosaica, mas para imergir o homem na lei flexvel da vida. Disse
aos homens de Israel: "Ouvistes o que foi dito aos antigos: No matars... Eu porm vos digo que todo aquele que se irar contra o seu irmo estar sujeito a julgamento"61.
Tambm disse muitas coisas relativas  mudana interior como: "No saiba a tua mo esquerda o que faz a tua direita"62. Queria eliminar a maquiagem social. Desejava
que as atitudes feitas em secreto fossem recompensadas por Deus que v em secreto e no pelos homens. Moiss veio com o objetivo de corrigir as rotas exteriores
do comportamento, mas Cristo tinha vindo com o objetivo de corrigir o mapa do corao, o mundo dos pensamentos e das emoes. Tinha vindo para produzir uma profunda
revoluo na alma e no esprito humano. Mesmo com a rejeio dos discpulos, essa revoluo ainda estava ocorrendo dentro deles. O germe do amor e da sabedoria estava
sendo cultivado naqueles galileus, ainda que suas atitudes no demonstrassem e ningum pudesse perceber.

#Pedro o nega
Agora chegamos ao quarto e ltimo sofrimento causado pelos amigos de Cristo. Pedro, o mais atirado dos discpulos, o negou trs vezes. Vejamos. Pedro havia declarado
que, se necessrio, morreria com ele. No entanto, sabia que a estrutura emocional dele, como a de qualquer um que est sob risco de vida,  flutuante, instvel.
Compreendia as limitaes humanas. Pedro tinha uma personalidade forte. Era o mais ousado dos discpulos. Todavia, a coragem de Pedro no se apoiava apenas na sua
prpria personalidade, mas tambm na fora do seu mestre. Esse pescador viu e ouviu coisas inimaginveis, coisas que jamais sonharia ver e ouvir. Pedro no era apenas
um pescador, mas um lder de pescadores. Fazia o que lhe vinha  cabea. Era forte para amar e rpido para errar. Jesus foi um grande acontecimento em sua vida.
Ele deixou tudo para segui-lo. O preo para seguilo era mais alto do que o pago pelos demais discpulos, pois ele era casado e tinha responsabilidades domsticas.
Mas no titubeou. Ao conhecer o mestre, ele reorientou a sua histria, repensou seu individualismo e comeou a recitar a intrigante poesia do amor que ouvia. Pedro,
de fato, entregou a sua vida para o projeto do mestre. O carter de Pedro se distinguia dos demais. Ele expressava seus pensamentos ainda que eles causassem transtornos
aos que o rodeavam. Ao ver o poder de Jesus, ao constatar que o medo no fazia parte do dicionrio de sua vida e que ele era capaz de discorrer suas idias at no
territrio dos seus inimigos, seu carter, que j era forte, cresceu mais ainda. Pedro talvez pensasse: "Se at o vento e o mar lhe obedecem, quem pode deter este
homem? Ele  imbatvel. Portanto, se for necessrio, eu enfrentarei seus inimigos junto com ele e de peito aberto, pois certamente algum milagre ele far para nos
livrar da dor e da morte"63. Como disse,  fcil ser forte perto de uma pessoa forte,  fcil se doar para quem no est precisando, mas  difcil estar ao lado
de uma pessoa frgil. No momento em que Cristo se despojou de sua fora e se tornou simplesmente o filho do homem, o Pedro forte desapareceu. No momento em que Cristo
manifestou sem rodeios a sua angstia, ningum se candidatou, nem mesmo Pedro, para estar ao seu lado. Na sua ltima ceia, Cristo comentou que, enquanto ele estava
presente, os discpulos estavam protegidos e, portanto, no precisavam de "bolsa e espada". Mas aps ser preso, eles precisariam desses elementos. Cristo no se
referia  bolsa e  espada fsica, pois era a prpria bandeira da antiviolncia. Queria dizer que, aps ser preso e morto, eles deveriam cuidar mais de si mesmos,
pois teriam de enfrentar as turbulncias da vida, inclusive as perseguies que tempos depois sofreriam. Como ainda no conseguiam entender a linguagem do mestre,
disseram-lhe: "Senhor, temos aqui duas espadas"64. Cristo mais uma vez tolerou a ignorncia deles. Silenciou-os dizendo: "Basta!". Quando Pedro viu o semblante triste,
a respirao ofegante e o corpo suado de Jesus na noite em que foi preso, ele ficou profundamente abalado. Pela primeira vez, a sua confiana se evaporava. Talvez
pensasse: "Ser que tudo o que vivi foi uma miragem, um sonho que se transformou em pesadelo?". Pedro andou por mais de mil dias com seu mestre, nunca havia visto
qualquer sinal de fragilidade nele. Ele, ao contrrio do que muitos pensam, no comeou a negar a Jesus no ptio do sindrio, mas no jardim escuro do Getsmani.
Entretanto, creio que se estivssemos em seu lugar ficaramos igualmente perturbados e, provavelmente, negaramos o mestre se as mesmas condies fossem reproduzidas.
Ao ouvir as palavras e ao ver o semblante sofrido do mestre, Pedro estressou-se intensamente. Dormiu e no esteve junto dele na sua dor. Entretanto, acordado pela
priso do mestre, resolveu resgatar

#a sua dvida. Foi clandestinamente ao ptio do sindrio. Mas ele j estava tenso e fatigado. No ptio, ficou estarrecido diante do espancamento que o mestre sofria.
Nunca ningum lhe havia tocado um dedo, mas agora os homens esmurravam o seu corpo, esbofeteavam a sua face e cuspiam em seu rosto. Que cena chocante Pedro observava!
Aquela cena abalou as razes do seu ser, perturbou sua capacidade de pensar e decidir. Interrogado por simples servos, ele insistentemente afirmou: "No conheo
este homem"65. Jesus sabia que seu amado discpulo estava l assistindo ao seu martrio. Sabia que, enquanto estava sendo impiedosamente ferido pelos seus opositores,
Pedro o estava negando. Na minha anlise, tenho procurado compreender quais feridas machucaram-no mais: a imposta pelos homens do sindrio ou aquela produzida por
seu amigo Pedro. Uma lhe causava hematomas no corpo e a outra lhe golpeava a emoo. Creio que a atitude de Pedro, de ter vergonha do mestre, de negar tudo que viu
e viveu com ele, abriu, naquele momento, uma vala mais profunda na alma de Jesus do que a causada pelos soldados. No entanto, Cristo amava intensamente Pedro e conhecia
o cerne do seu ser. O amor do mestre de Nazar pelos seus discpulos  a mais bela e ilgica poesia existencial j vivida por um homem. Pedro podia excluir Jesus
de sua histria, mas Jesus jamais o abandonaria, pois o considerava insubstituvel. Nunca algum amou e se dedicou tanto a pessoas que o frustraram e lhe deram to
pouco retorno.

Quatro objetivos ao prever os erros dos discpulos
Toda vez que Cristo previa um acontecimento frustrante relacionado a seus discpulos, tinha pelo menos quatro grandes objetivos. Vejamos. Primeiro, aliviar a sua
prpria dor. Prevendo antecipadamente a frustrao, ele adquiria defesa emocional para se proteger quando ela ocorresse. Ao ser abandonado pelos discpulos, ele
no foi pego de surpresa. Amava e se doava pelo ser humano, mas no esperava muito deles. Nada preserva mais a emoo do que diminuir a expectativa que temos das
pessoas que nos circundam. Toda vez que esperamos demais delas temos grandes possibilidades de cair nas raias da decepo. Ver todos os seus discpulos tendo vergonha
dele e fugindo de medo como frgeis meninos era uma cena difcil de suportar. Contudo, pelo fato de ter previsto o comportamento deles, j havia se preparado para
aceitar esse abandono e solido. Como sabia que os discpulos o abandonariam? Independente da condio sobrenatural que expressava ter de prever fatos, ele era algum
que conseguia compreender as reaes mais ocultas no cerne da inteligncia, por isso sabia que seus discpulos seriam subjugados pelo medo, no conseguiriam gerenciar
os pensamentos nos focos de tenso. Segundo, objetivava no desanim-los, mas prepar-los para continuar suas histrias. O mestre, ao prever que Pedro o negaria
e que os discpulos o abandonariam, queria mostrar que no exigia nada deles. Podia exigir, pois ensinou durante trs anos e meio lies incomuns, mas no o fez.
Por ser o mestre dos mestres da escola da vida, ele sabia que superar o medo, vencer a ansiedade e trabalhar as dores da existncia eram as mais difceis lies
de vida.

#O perodo que ficou com seus discpulos era insuficiente para que eles aprendessem tais lies, por isso o mestre tinha a esperana de que a semente que havia plantado
dentro deles germinasse e se desenvolvesse durante todas as suas trajetrias de vida. Terceiro, queria mostrar aos seus amigos que eles no conheciam a si mesmos
e que precisavam amadurecer. Pedro afirmou categoricamente que jamais o abandonaria e todos os discpulos tambm fizeram um pacto de amor. Cristo era profundamente
sbio, pois sabia que o discurso deles era incompatvel com a prtica. Tinha plena conscincia de que o comportamento humano muda diante dos estmulos estressantes.
Em alguns casos, engessamos tanto a inteligncia que travamos a capacidade de pensar, por isso temos uma sensao de "branco" na memria. O mestre dava a entender,
em diversos textos dos evangelhos, que conhecia intimamente a dinmica da inteligncia; que, sob ameaas, a leitura da memria fica restringida e que as reaes
traem as intenes. De fato, somos amantes da serenidade quando estamos tranqilos, mas, quando angustiados, vivemos um crcere emocional. Temos grandes dificuldades
de organizar os pensamentos e reagir com lucidez e segurana. O mestre usou a prpria dor que os discpulos lhe causariam para conduzi-los a se interiorizar e expandir-lhes
a compreenso da vida. Que mestre sacrificou tanto para ensinar aos seus discpulos? Ele os amava intensamente. Nunca os abandonaria, mesmo que eles o abandonassem.
Quarto, queria prepar-los para que no desistissem de si mesmos, independente dos seus erros. Objetivava que no mergulhassem na esfera do sentimento de culpa e
do desnimo. Sabia que eles ficariam angustiados quando cassem em si e percebessem que o tinham rejeitado. Ao prever o comportamento de todos em geral (abandono),
de Judas (traio) e de Pedro (negao) em particular, queria acima de tudo proteg-los, educ-los e dar-lhes condies para que retomassem o caminho de volta. Infelizmente,
Judas no retornou. Desenvolveu um profundo sentimento de culpa e uma reao depressiva intensa que o levou ao suicdio. Pedro ficou profundamente angustiado, mas
retornou, ainda que com lgrimas. Por incrvel que parea, Jesus era to profundo e preocupado com seus ntimos que cuidava at do sentimento de culpa deles, antes
mesmo do seu surgimento. No creio que tenha havido um homem com preo-cupaes to lcidas e refinadas como o mestre da Galilia. Os educadores, os pais e mesmos
os executivos das empresas esto preocupados em corrigir erros imediatos, refazer as rotas do comportamento. Jesus, ao contrrio, estava preocupado em lev-los a
desenvolver a arte de pensar, ainda que fosse s custas dos mais aviltantes erros. Todavia, antes de eles se sentirem culpados, j preparava o remdio para alivi-los.

#CAPTULO

8

UM CLICE INSUPORTVEL: OS SINTOMAS PRVIOS

#A ansiedade vital e a ansiedade doentia
Neste captulo, estudaremos com mais detalhes a emoo de Jesus e seu intenso humor triste vivenciados no Getsmani. Ele declarou, sem meias palavras, que estava
profundamente deprimido. O que ele realmente estava vivendo: uma doena depressiva ou um estado depressivo momentneo? Qual a diferena entre ambas situaes? Quais
eram as caractersticas fundamentais da sua emoo? O mestre tinha propenso a ter depresso? Antes de abordar todos esses importantes assuntos, que certamente se
tornaro um espelho para compreendermos alguns aspectos do nosso prprio territrio emocional, gostaria de comentar primeiro sobre a ansiedade vivida por Jesus naquele
momento. Vejamos. Muitos pensam, inclusive alguns psiquiatras e psiclogos, que toda ansiedade  doentia. Existe uma ansiedade vital, normal, que anima a inteligncia
de cada ser humano, e que est presente na construo de pensamentos, na busca do prazer, na realizao de projetos. A ansiedade vital estimula a criatividade. Como
disse, at Jesus comentou:"Esperei ansiosamente por esta ceia"66. Essa ansiedade normal era fruto da sua expectativa de ver cumprido o desejo do seu corao. A ansiedade
s se torna patolgica ou doentia quando prejudica o desempenho intelectual e retrai a liberdade emocional. As caractersticas da ansiedade mais marcantes so: labilidade
emocional (instabilidade), irritabilidade, hiperacelerao de pensamentos, dificuldade de gerenciamento da tenso, dficit de concentrao, dficit de memria e
o aparecimento de sintomas psicossomticos. Existem muitos tipos de transtornos ansiosos, como a sndrome do pnico, os transtornos obsessivos compulsivos, a ansiedade
generalizada, o stress ps-traumtico, as fobias etc. No primeiro livro da srie Anlise da Inteligncia de Cristo, comentei que o mestre de Nazar era to sbio
que no requereu que os seus discpulos fossem desprovidos de qualquer tipo de ansiedade. Solicitou, sim, que no andassem ansiosos. Entre as causas fundamentais
que ele apontou sobre a ansiedade doentia esto os problemas existenciais e a postura de gravitar em torno dos pensamentos antecipatrios. O mestre desejava que
eles valorizassem aquilo que o dinheiro no compra: a tranqilidade, a solidariedade, o amor mtuo, a lucidez, a coerncia, a unidade. Almejava que conquistassem
mais "o ser" do que "o ter" e aprendessem a enfrentar os problemas reais do dia-a-dia, e no os problemas imaginrios criados no cenrio da mente. O mestre dos mestres
da escola da vida, muitos sculos antes do nascedouro da psicologia, vacinava seus discpulos contra a ansiedade doentia, patolgica. Infelizmente, at hoje, a psicologia
ainda no sabe como produzir uma vacina eficaz contra os transtornos ansiosos e depressivos. A farmacodependncia, a violncia, a discriminao, os sintomas psicossomticos,
to abundantes nas sociedades modernas, so testemunhos inegveis de que as cincias que tm como alvo a personalidade humana, principalmente a psicologia e a educao,
ainda so ineficientes para desenvolver as suas funes mais nobres. Uma "vacina" psicossocial preventiva passa pela produo de um homem seguro, estvel, que sabe
se interiorizar, se repensar e que gerencia bem seus pensamentos e suas emoes diante das turbulncias da vida. A psicologia desprezou Cristo, considerou-o distante
de qualquer anlise. Contudo, creio que a anlise da sua inteligncia poder contribuir significativamente para a produo dessa vacina. Os jovens saem dos colgios
e das universidades com diplomas tcnicos e com ttulos acadmicos, sabem atuar no mundo fsico, mas no sabem atuar no seu mundo, no sabem ser agentes modificadores
da sua histria emocional, intelectual ou social.

#Os discpulos de Cristo no tinham um perfil psicolgico e cultural recomendvel. Ser que  possvel transformar homens rudes, agressivos, sem cultura, que amam
estar acima dos outros, que no sabem trabalhar minimamente em equipe, em homens que so verdadeiros vencedores, capazes de brilhar nas reas mais ricas da inteligncia
e do esprito humano? Aparentemente ele foi derrotado, pois os seus ntimos causaram-lhe as suas primeiras quatro frustraes, mas ser enriquecedor um dia publicar
a trajetria de vida dos seus discpulos antes e depois da morte do seu mestre. H dois mil anos o Mestre da Galilia j praticava a mais bela e eficiente psicologia
e educao preventiva.

A ansiedade como doena e como sintoma da depresso
A ansiedade existe tanto como doena isolada quanto como sintoma de outras doenas psquicas, tais como os transtornos depressivos. Alis, a ansiedade  um dos principais
sintomas da depresso. As pessoas ansiosas freqentemente apresentam variados graus de hipersensibilidade emocional. Por serem hipersensveis, qualquer problema
ou contrariedade provoca um impacto tensional importante, o que gera um humor instvel e flutuante. Num instante esto tranqilas e noutro se mostram irritveis,
impulsivas e impacientes. O mestre de Nazar, apesar de ter atingido o pice da ansiedade no Getsmani, no teve como sintomas da depresso a irritabilidade, a hipersensibilidade
e a labilidade emocional, mas apenas um estado intenso de tenso, associado a sintomas psicossomticos. Ele ainda conseguia administrar sua emoo e gerenciar seus
pensamentos, o que explica a gentileza e amabilidade expressas no momento em que Judas o traiu e quando os discpulos o frustraram. No pice da sua angstia, ele
ainda brilhava em sua humanidade. Abatido, ainda cuidava das pessoas e era afetivo com elas. Nunca descarregou sua tenso nas pessoas que o circundavam. Nunca fez
delas depsito da sua dor. Somos iguais ao mestre? Quando estamos ansiosos, qualquer problema vira um monstro. Ficamos instveis e irritveis. Nossa gentileza se
esfacela, nossa lucidez se evapora, motivo pelo qual agredimos facilmente as pessoas que nos circundam. Alguns, infelizmente, fazem dos seus ntimos um depsito
da sua ansiedade. Descarregam neles seu lixo emocional. Praticam uma violncia no prevista nos cdigos penais, mas que lesa o cerne da alma, o direito personalssimo
ao prazer de viver. A construo de pensamentos do homem Jesus estava hiperacelerada na sua ltima noite, pois ele no parava de pensar em tudo o que iria viver
em seu clice. Mas no perdeu o controle da sua inteligncia, no se afogou nas tramas da instabilidade emocional e da irritabilidade. Lucas descreve que a ansiedade
do mestre era to intensa que produziu importantes sintomas psicossomticos. Certamente seu corao batia mais rpido e sua freqncia respiratria devia estar aumentada.
Enquanto orava, seus poros se abriam e o suor escorria pelo seu corpo e molhava a terra aos seus ps.

Os sintomas da sndrome do pnico e os da ansiedade do mestre
Cristo teve um ataque de pnico no jardim do Getsmani? Vamos fazer um breve comentrio sobre a sndrome do pnico e analisar as reaes emocionais e psicossomticas
que ele teve naquela noite insidiosa.

#A sndrome do pnico  uma das doenas psquicas ansiosas que mais produz sofrimentos na psiquiatria. Atinge pessoas de todos os nveis sociais. O perfil psicolgico
com propenso para desenvolver a sndrome do pnico se caracteriza por hipersensibilidade emocional, preocupaes excessivas com o prprio corpo, supervalorizao
de doenas, excesso de introspeco, dificuldades em lidar com dores e frustraes, hiperproduo de pensamentos antecipatrios. Tais caractersticas so importantes,
mas esto exageradas, o que indica que em diversos casos a sndrome do pnico acomete as melhores pessoas da sociedade. Cristo no tinha perfil psicolgico ligado
a preocupaes exageradas com doenas, com seu corpo, no vivia em funo de pensamentos antecipatrios nem era hipersensvel. Estudaremos, no final deste livro,
que ele conseguia combinar duas caractersticas da personalidade quase que irreconciliveis: a segurana com a sensibilidade emocional. A sndrome do pnico  classificada
como uma doena pertinente ao grupo das ansiedades. Ela  o teatro da morte. Caracteriza-se por um medo sbito e dramtico de que se vai morrer ou desmaiar. Esse
medo gera uma intensa reao ansiosa que  acompanhada de sintomas psicossomticos, tais como a taquicardia, aumento da freqncia respiratria, sudorese.  freqente
a impresso de que sofrer um infarto, por isso os portadores desta sndrome vo de cardiologista em cardiologista procurando se convencer de que no vo morrer.
Imagine se o leitor pensasse com plena convico que fosse morrer aps terminar de ler esta pgina. No conseguiria terminar a leitura. Um turbilho de idias ligadas
ao fim da existncia,  solido fatal,  perda dos ntimos passaria em sua mente. Alm disso, o pavor da morte provocaria uma descarga no seu crtex cerebral, gerando
diversos sintomas psicossomticos, preparando-o para a fuga.  isto o que ocorre no palco da mente das pessoas que tm ataques de pnico. Ningum morre por ter a
sndrome do pnico, mas as pessoas sofrem mais do que algum que realmente est enfartando ou sob o risco real de morrer. Discordo da posio de muitos neurocientistas
que postulam teoricamente que a sndrome do pnico  causada apenas pelo gatilho dos neurotransmissores, tal como a alterao dos nveis de serotonina*.  possvel
que haja este gatilho em determinados casos, mas as causas psquicas e sociais so grandes fatores desencadeantes. Alguns psiquiatras, desconhecendo a complexidade
do funcionamento da mente e no sabendo os limites de um postulado terico, usam o postulado dos neurotransmissores como se fosse uma verdade cientfica, desprezando
o dilogo com os portadores dessa sndrome, tratando-os apenas com antidepressivos. A soluo estritamente qumica  inadequada. Os antidepressivos so importantes,
mas conduzir a descaracterizao do teatro da morte na memria, resgatar a liderana do eu nos focos de tenso e gerenciar os pensamentos de contedo negativo, como
fez o mestre de Nazar nos seus momentos mais tensos, so fundamentais para a resoluo definitiva da crise. Caso contrrio, haver recorrncias, e a fobia social,
ou seja, o medo de freqentar lugares pblicos, se instalar nesses pacientes. No  um ataque de pnico isolado que determina a sndrome do pnico.  necessrio
que os ataques se repitam. Cristo no sofreu um ataque de pnico no jardim do Getsmani. Ele apresentou diversos sintomas psicossomticos e uma emoo tensa e angustiada,
mas no sentiu medo de morrer. Tanto assim que discursou diversas vezes seus pensamentos no territrio daqueles que o odiavam, correndo constante risco de morrer.
Naquela noite fatdica, a ansiedade do mestre no se relacionava ao medo da morte, mas ao tipo de morte e  postura que teria de ter em cada uma das etapas do seu
sofrimento. Estudaremos que ele

#discursava com tanta naturalidade sobre a morte que deixava transparecer que ela abriria as janelas de sua liberdade. As biografias de Cristo indicam que ele fazia
muitos milagres, mas no fazia milagres na alma, na personalidade. O contato com Jesus produzia um imenso prazer e liberdade, uma intensa mudana interior, mas essa
mudana precisava criar razes pouco a pouco nos sinuosos territrios da vida. Caso contrrio, ela se tornava superficial e se evaporava no calor do dia, ao se deparar
com as dificuldades inevitveis. Foi com esse objetivo que proferiu a parbola do semeador. A semente que frutificou foi aquela que caiu num solo (alma) que permitiu
a criao de razes. A personalidade precisa de transformao, e no de milagres. Expandir a arte de pensar, aprender a filtrar os estmulos estressantes, investir
em sabedoria nos invernos da vida so funes nobilssimas da personalidade que no se conquistam facilmente, nem em pouco tempo. Se um milagre pudesse expandir
a inteligncia e resolver os conflitos psquicos, por que ele no sanou a fragilidade de Pedro, impedindo que ele o negasse, nem evitou o sono estressante dos seus
amigos? Notem que at para aliviar a sua prpria dor, Cristo evitou milagres. Gostamos de eliminar rpida e instantaneamente nossos sofrimentos. Mas no temos xito.
No h ferramentas para isso. Temos de aprender com o mestre a velejar para dentro de ns mesmos, enfrentar a dor com ousadia e dignidade e us-la para lapidar a
alma.

A arte de ouvir e de dialogar
O mestre interagia continuamente com o seu Pai. Do mesmo modo, ele agia com seus discpulos. As pessoas que conviviam com o mestre tornavam-se saudveis, aprendiam
a se desarmar de sua rigidez e a falar de si mesmas. Ele as irrigava com a arte de ouvir e dialogar e as estimulava a ser caminhantes dentro de si mesmas. Muitos
so timos para dar conselhos, mas pssimos para dialogar e ouvir. O dilogo que dizem ter  de mo nica, deles para os outros e nunca dos outros para com eles.
Por isso, ouvem o que querem ouvir e nunca o que os outros tm para dizer. A arte de ouvir e dialogar potencializa at mesmo os efeitos dos antidepressivos. Os profissionais
de sade mental que vem o mundo dos seus pacientes apenas dentro dos limites do metabolismo do crebro tm uma viso mope da complexa colcha de retalhos da inteligncia.
No conseguiro perceber os pensamentos clandestinos dos pacientes nem perscrutar o que as palavras deles nunca disseram. Nem sempre atramos as pessoas com nossa
capacidade de ouvir e dialogar. Estamos to prximos fisicamente de nossos ntimos, mas to distantes interiormente. A famlia moderna se tornou um grupo de estranhos.
Dividem o mesmo espao, respiram o mesmo ar, mas no penetram no mundo uns dos outros. Poucos tm coragem de admitir a crise de dilogo e de rever a qualidade das
suas relaes sciofamiliares. O homem moderno vive ilhado dentro da prpria sociedade. Ele est exposto a uma srie de transtornos psquicos.  preciso repensar
a sociedade estressante onde temos vivido, a competio predatria, o individualismo e a baixa capacidade de sentir prazer, a despeito de termos uma enorme indstria
de entretenimento. O mestre de Nazar vivia a arte do dilogo. Tinha prazer em interagir com as pessoas. Entrava no lar, na histria e no mundo delas. Gastava tempo
dialogando com as pessoas que no tinham qualquer status social. Sua presena era agradvel e reconfortante. Sob o aconchego de Jesus ningum se sentia ilhado ou
excludo. Solido era uma palavra estranha aos que o seguiam.

# preciso repensar tambm o bombardeamento de informaes negativas gerado pelo sistema de comunicao, um fato nunca ocorrido em outras geraes, e o seu impacto
sobre a construo multifocal da inteligncia. Todos os dias, a mdia escrita, televisada e falada divulga acidentes em que inmeras pessoas morrem de cncer, infarto,
assassinadas. O drama da morte e da violncia amplamente divulgado na mdia estimula o fenmeno RAM (registro automtico da memria) a registrar contnua e privilegiadamente
a violncia e a possibilidade do fim nos arquivos inconscientes da personalidade*. Tal registro fica disponvel para que o fenmeno ACH** faa uma leitura instantnea
capaz de gerar cadeias sbitas de pensamentos negativos. Tais pensamentos, por sua vez, produzem um gatilho emocional instantneo que gera ansiedade, irritabilidade,
angstia e, conseqentemente, desencadeia sintomas psicossomticos. As relaes entre Jesus e os seus discpulos eram encorajadoras e sem negativismos. Havia um
constante clima de tenso pela rejeio s suas idias por parte dos escribas e fariseus. Todavia, ele no deixava que uma nuvem de pensamentos negativos bombardeasse
a mente dos seus ntimos. Apesar das dificuldades, onde ele estava havia um clima que relaxava e tranqilizava os que o cercavam. Seu comportamento exalava uma espcie
de "perfume emocional" que atraa as pessoas. Por isso, paradoxalmente, at os seus opositores faziam planto para ouvi-lo.

Tomando o clice como homem e no como filho de Deus
O mestre queria redimir a humanidade. No poderia, portanto, tomar o seu clice como filho de Deus, mas como um ser humano, como eu e o leitor. Ele afirmava com
todas as letras que era o filho do Deus altssimo, mas teria de abster-se da sua condio de Deus, teria de beber seu clice como um homem. Por um lado, ele almejava
retornar  glria que tinha antes que houvesse o mundo, mas primeiro teria de cumprir a sua mais amarga misso. Por outro lado, desejava resgatar o homem e, para
isso, teria de passar pelo seu martrio como um homem. E o que  pior, teria de tom-lo como nenhum homem o fez. No poderia pedir clemncia no momento em que estivesse
sofrendo. No poderia gritar como toda pessoa ferida, pois era simbolizado pelo cordeiro, que  um dos poucos animais que silencia diante da morte. No podia odiar
e se irar contra os seus inimigos. Pelo contrrio, teria de perdo-los e, mais do que isto, teria de am-los, caso contrrio, trairia as palavras que ele mesmo proclamou
aos quatro ventos: "Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem"67. No poderia se desesperar. No Getsmani, enquanto se preparava para tomar o clice, poderia
viver uma intensa ansiedade, mas durante o espancamento, as sesses de tortura e a crucificao, teria de reagir com a mais alta serenidade. Caso contrrio, no
seria capaz de administrar sua emoo no pice da dor nem governar seus pensamentos para expressar sabedoria e tolerncia num ambiente onde s havia espao para
sentir o medo, a raiva e a agressividade. Crer em Cristo como filho de Deus depende da f. Entretanto, no se pode negar que, independente da sua condio divina,
ele foi um homem at s ltimas conseqncias. Sofreu e se angustiou como um homem. Onde ele reuniu foras para superar o caos que se instalou na sua emoo naquele
escuro jardim? Ele foi sustentado por um contnuo e misterioso estado de orao. A orao trouxe-lhe sade emocional. Diluiu sua angstia e irrigou sua alma com
esperana. Cristo, sabendo que teria de suportar seu clice como um homem, sem qualquer anestsico e com a mais alta dignidade, teve seu sistema orgnico abalado
por sintomas psicossomticos. No apenas teve

#sudorese, mas um raro caso de hematidrose, s produzido no extremo do stress. Lucas comenta que seu suor se tornou como gotas de sangue68. H poucos casos na literatura
mdica que relatam que algum, submetido a intenso stress, teve ruptura ou abertura dos capilares sangneos capaz de permitir que as hemcias fossem expelidas junto
com o suor. Se Cristo tivesse obedecido  linguagem psicossomtica do seu corpo, ele no chegaria ao stress extremo, mas teria fugido daquele ambiente. Todo o seu
corpo clamava pela fuga. Porm nunca fugiu dos seus ideais. Nem por um milmetro afastou-se da sua misso. Pelo contrrio, lutava dentro de si mesmo para realizar
a vontade do Pai, que tambm era a sua, e se preparar para transcender o insuportvel.

#CAPTULO

9

A REAO DEPRESSIVA DE JESUS: O LTIMO ESTGIO DA DOR HUMANA

#Uma emoo profundamente triste
Quanto mais o corpo de Cristo dava sinais psicossomticos para que fugisse rapidamente da situao de risco, mais ele resistia e refletia sobre seu clice. O resultado
era que no apenas sua ansiedade se intensificava, mas sua emoo era invadida por um profundo estado de tristeza. O registro de Mateus 26 diz que "Cristo comeou
a entristecer-se e a angustiar-se profundamente"69. A profunda tristeza que sentiu indica que ele entrou num estado de humor deprimido, e a profunda angstia indica
que sentiu uma ansiedade intensa, acompanhada, como comentei, de diversos sintomas psicossomticos. Chegou a vez daquele homem que gostava de se envolver com as
crianas, que confortava os leprosos, que acolhia as prostitutas, que era amigo dos publicanos, passar pela condio mais dolorosa da emoo, pela experincia do
humor deprimido. Chegou a vez daquele homem que contagiava todos com seu poder e segurana experimentar a fragilidade da emoo humana. Conseguir ele superar seu
profundo estado de tristeza e reagir com distino num ambiente totalmente hostil, inumano? Antes de analisarmos esta questo, precisamos responder duas outras:
o que Cristo sentiu no Getsmani, uma reao depressiva ou uma doena depressiva? Qual a diferena entre uma reao depressiva momentnea e uma depresso?

A personalidade de Cristo estava na contramo da depresso
O mestre tinha de fato uma alegria incomum. Nele no havia sombra de tristeza e insatisfao. A alegria de Cristo no se exteriorizava com fartos sorrisos e com
gestos eufricos, mas era uma alegria que flua do seu interior, como um rio manso que jorra continuamente suas guas. Aquele que discursara incisivamente para que
o homem saciasse a sede da alma, a sede de prazer, agora estava profundamente triste, pois ia cumprir o seu objetivo maior: morrer pela humanidade. Ao interpretar
as entrelinhas dos textos das suas biografias,  notrio que seu humor deprimido no era decorrente da dvida em tomar ou no o seu clice, mas do sabor intragvel
que ele continha. Vejamos qual a diferena entre uma doena depressiva e uma reao depressiva, para depois julgarmos seu estado emocional. A depresso  uma doena
clssica na psiquiatria. Ser, como disse, a doena do sculo XXI. Sua incidncia tem sido alta em todas as sociedades modernas e em todas as camadas sociais. As
pessoas idosas e os adultos so mais expostos a elas, mas, infelizmente, essa insidiosa doena tem penetrado tambm cada vez mais nas crianas, principalmente naquelas
que sofrem por doenas, maus-tratos, experincias de abandono e que vivem em lares onde imperam a crise do dilogo e a agressividade. Os adolescentes tambm esto
cada vez mais vulnerveis  depresso. A crise do dilogo, a busca do prazer imediato, a incapacidade de trabalhar estmulos estressantes e o jugo da parania da
esttica tm gerado a necessidade compulsiva de se ter um corpo segundo o modelo estereotipado difundido pela mdia, ocasionando nos adolescentes a depresso e outros
transtornos psquicos, tais como a bulimia e a anorexia nervosa.

#A dor da depresso pode ser considerada como o ltimo estgio da dor humana. Ela  mais intensa do que a dor da fome, pois uma pessoa faminta tem o apetite preservado,
por isso remi at o lixo para comer e sobreviver, enquanto algumas pessoas deprimidas podem, mesmo diante de uma mesa farta, no ter apetite nem o desejo de viver.
Freqentemente s compreende a dimenso da dor da depresso quem j passou por ela. Existem diversos graus de depresso. H depresso leve, moderada e grave; depresso
sem ou com sintomas psicossomticos (dores musculares, taquicardia, cefalia, n na garganta, gastrite etc.); depresso sem ou com sintomas psicticos (desorganizao
do pensamento, delrios e alucinaes); depresso recorrente, caracterizada por freqentes recadas; e depresso com apenas um episdio, ou seja, que  tratada de
maneira completa e que, portanto, no mais retorna ao cenrio emocional. As causas que conduzem uma pessoa a ter um transtorno depressivo so vrias: psquicas,
sociais e genticas. As psquicas incluem: idias de contedo negativo, dificuldade de proteo emocional, hipersensibilidade, antecipao de situaes do futuro
etc. As sociais incluem: perdas, competio predatria, crise financeira, preocupaes existenciais, presso social. A carga gentica pode influenciar o humor e
propiciar o aparecimento de doenas psquicas, mas  bom que saibamos que no h condenao gentica na psiquiatria, a no ser quando existem anomalias cerebrais
decorrentes de alteraes cromossmicas. Portanto, pais gravemente deprimidos podem gerar filhos saudveis. O desvio de rota da influncia gentica para o humor
depender da histria de formao da personalidade dos filhos e do quanto aprendem a gerenciar seus pensamentos nos focos de tenso e a preservar suas emoes diante
dos estmulos estressantes. No h indcios de que Jesus tenha tido uma carga gentica com propenso para o humor deprimido. No prximo livro, estudaremos que Maria,
sua me, de acordo com Lucas, tinha uma personalidade refinada, especial: era sensata, sensvel, humilde e dada  reflexo. No h nenhum indcio de que ela tenha
tido depresso. Lucas descreve que "O menino crescia em estatura e sabedoria"70. Cristo nunca foi um espectador passivo diante da vida; pelo contrrio, foi um agente
modificador da sua histria desde a sua infncia.  rarssimo observarmos uma criana crescendo em sabedoria nas sociedades modernas, ou seja, aprendendo a pensar
antes de reagir, a lidar com as perdas com maturidade, a ser solidria, tolerante, a enfrentar com dignidade suas dificuldades. Elas crescem falando lnguas, usando
computadores, praticando esportes, mas no destilando sabedoria. Com apenas doze anos de idade, o menino de Nazar j brilhava em sua inteligncia, j deixava perplexos
os mestres da lei com sua sabedoria e j encantava seus pais com suas atitudes71. Existem tambm vrios tipos de depresso: depresso maior, distmica, ciclotmica
e outras. As doenas depressivas tm uma rica sintomatologia. Farei uma breve sntese delas.

A depresso maior
A "depresso maior"  caracterizada por humor deprimido (tristeza intensa), ansiedade, desmotivao, baixa auto-estima, isolamento social, sono alterado, apetite
alterado (diminudo ou aumentado), fadiga excessiva, libido alterada (prazer sexual diminudo), idias de suicdio, dficit de concentrao etc. Ela incide em pessoas
de todos os nveis socioeconmico-culturais. Muitos pacientes com "depresso maior" tm antes da crise depressiva uma personalidade afetivamente rica, so alegres,
ativas, sociveis. Contudo, por diversas causas, essas pessoas penetram no

#solo da depresso. As razes que levam uma pessoa extrovertida e socivel ao drama da depresso maior so mltiplas. Vo desde uma influncia gentica s causas
psicossociais, como perdas, frustraes, limitaes fsicas, pensamentos de contedo negativo, ruminao de pensamentos passados, antecipao de situaes futuras.
No basta ter um humor profundamente triste ou deprimido para se caracterizar uma depresso. Tal humor tem de ter uma durabilidade de no mnimo alguns dias ou semanas,
embora haja casos de meses e anos. Alm disso, ele tem de estar acompanhado por diversos sintomas j citados, principalmente alterao dos sistemas instintivos que
preservam a vida (o sono, o apetite e a libido), fadiga excessiva, ansiedade e a desmotivao. Jesus teve depresso maior? No! No Getsmani, seu humor deprimido
era to intenso que s as mais graves doenas depressivas podiam atingir. Contudo, sua tristeza no tinha longa data. Havia iniciado h apenas algumas horas, e era
decorrente da necessidade de antecipar os sofrimentos que atravessaria para preparar-se para suport-los. Ao longo de sua vida e at nos ltimos momentos antes de
ser trado e preso, no havia nele sintomas de depresso. No se isolava socialmente, a no ser quando necessitava meditar. Era muito socivel, gostava de fazer
amigos e de jantar com eles. Tinha grande disposio para visitar novos ambientes e proclamar o "reino dos cus". No era irritadio nem inquieto. Ao contrrio,
conseguia manter a calma nas situaes mais adversas. Seu sono era saudvel, conseguia dormir at em situaes turbulentas, como na passagem em que o mar estava
agitado. Enfim, nele no havia sombra de sintomas que pudessem caracterizar uma "depresso maior".

A depresso distmica
A "depresso distmica"  aquela que acompanha o processo de formao da personalidade. Os pacientes com depresso distmica, ao contrrio daqueles com "depresso
maior", que previamente so alegres e sociveis, desenvolvem uma personalidade negativista, crtica, insatisfeita, isolada. Os sintomas so os mesmos da "depresso
maior", mas menos intensos. A ansiedade  mais branda e, portanto, o risco de suicdio  menor, a no ser que elas intensifiquem a crise depressiva e comecem a desenvolver
sintomas to eloqentes como na "depresso maior".  difcil conviver com as pessoas com "depresso distmica", devido ao negativismo, insatisfao, baixssima auto-estima
e a enorme dificuldade que tm de elogiar as pessoas e os eventos que a circundam. S conseguem enxergar sua prpria dor. Contudo, so assim no porque querem, mas
porque esto doentes. Elas precisam ser compreendidas e ajudadas. Embora os sintomas sejam menos intensos que os da "depresso maior",  mais difcil trat-los,
devido  desesperana que esses pacientes carregam,  baixa colaborao no tratamento e  dificuldade que sempre tiveram de extrair o prazer dos pequenos detalhes
da vida. Todavia,  possvel que tais pessoas dem um salto no prazer de viver. Cristo no tinha uma "depresso distmica" nem uma personalidade distmica. No era
negativista e insatisfeito. Embora fosse crtico dos comportamentos humanos e das misrias sociais, suas crticas eram ponderadas e feitas em momentos certos. Era
uma pessoa contagiante. Nunca se deixava abater pelos erros das pessoas nem pelas situaes difceis. As sementes que plantou no corao do homem ainda no haviam
germinado, mas, com uma esperana surpreendente, ele pedia aos seus discpulos: "Erguei os olhos, pois os campos j

#branquejam"72. Quando disse tais palavras, o ambiente que o rodeava era de desolao e tristeza. Ele j possua muitos opositores, e as pessoas procuravam mat-lo.
Os discpulos erguiam os olhos e no conseguiam ver nada alm de um deserto escaldante. Mas Cristo via alm da imagem geogrfica e das circunstncias sociais. Seu
olhar penetrante conseguia ver o que ningum via e, conseqentemente, se animava com o que fazia outros desistirem. Nele no havia sombra de desnimo. Se fosse minimamente
negativista, ele teria desistido daqueles jovens galileus que o seguiam, pois eles causavam-lhe constantes transtornos. Se estivssemos em seu lugar, excluiramos
Pedro, por nos ter negado; Judas, por nos ter trado; e os demais por terem fugido timidamente de nossa presena. Entretanto, sua motivao para transform-los era
inabalvel. Os executivos e os profissionais de recursos humanos, que esto sempre fazendo cursos sobre motivao, com resultados freqentemente inexpressivos, deveriam
se espelhar na motivao do mestre de Nazar. Vimos que at mesmo quando discursava sobre o seu corpo e seu sangue, na ltima ceia, havia nele uma forte chama de
esperana em transcender o caos da morte. Ao cair da ltima folha no inverno, quando tudo parecia perdido, quando s havia motivos para desespero e choro, Cristo
ergueu os olhos e viu as flores da primavera, ocultas nos troncos secos da vida. Ao contrrio dele, ao primeiro sinal das dificuldades, desistimos de nossas metas,
projetos e sonhos. Precisamos aprender com ele a erguer os olhos e olhar por trs das dificuldades, das dores, das derrotas, das perdas e compreender que os invernos
mais rigorosos podem trazer as primaveras mais belas.

A depresso ciclotmica
A "depresso ciclotmica"  um transtorno emocional flutuante. Alterna perodos ou fases de depresso com euforia. Cada fase pode durar dias ou semanas e pode haver
intervalos entre eles sem crises. Na fase de depresso, os sintomas so semelhantes aos que j citei. Na fase eufrica, ocorrem sintomas opostos aos da fase depressiva,
como: excesso de sociabilidade, de nimo, de comunicao, de auto-estima. Nessa fase, as pessoas se sentem poderosas e to excessivamente animadas e otimistas que
compram tudo o que est  sua frente e fazem grandes projetos sem alicerces para materializ-los. Os pacientes que possuem psicose manaca-depressiva (PMD) tambm
tm plos depressivos associados com plos manacos (eufricos), mas perdem os parmetros da realidade quando esto na crise de mania, enquanto que os que esto
na fase eufrica da depresso ciclotmica conservam seu raciocnio e sua conscincia, havendo ainda integrao  realidade, embora com comportamentos histrinicos,
bizarros.  fcil condenar e taxar as pessoas com humor excessivamente flutuantes de imaturas e irresponsveis. Todavia, elas no precisam de crticas ou julgamentos,
mas de apoio, compreenso e ajuda. Cristo tambm no tinha depresso ciclotmica nem humor flutuante. Ao contrrio, seu humor era estvel e suas metas bem estabelecidas.
No agia por impulsos emocionais nem tinha gestos de grandeza para se autopromover. Embora fosse muito comunicativo, era lcido e econmico no falar. O mundo inteiro
podia contrapor-se a ele, mas nada comprometia o cumprimento do seu propsito, da sua misso. Passava pelos vales da vida e ainda assim no se percebia nele instabilidade
emocional. Durante a sua jornada, houve uma poca em que pressentiu que sua "hora" se aproximava. Ento, subitamente, virou sua face para Jerusalm e foi para o
territrio dos seus inimigos. Queria morrer em Jerusalm.

#Os transtornos obsessivos associados  depresso
Os transtornos obsessivos compulsivos (TOC) so caracterizados por idias fixas no administradas pelo eu. O fenmeno do autofluxo, que  o responsvel por produzir
o fluxo de pensamentos e emoes no campo de energia psquica, faz uma leitura contnua de determinados territrios da memria, gerando uma hiperproduo de idias
fixas*. Tais idias podem gerar um grande estado de angstia, principalmente quando esto ligadas ao cncer, infarto, derrame cerebral, acidentes, perda financeira
e preocupaes excessivas com segurana, higiene e limpeza. As pessoas com TOC no conseguem gerenciar as idias obsessivas. Pensam o que no querem pensar e sentem
o que no querem sentir. Algumas vezes os transtornos obsessivos imprimem tantos sofrimentos que podem desencadear uma doena depressiva. Cristo tambm no tinha
transtornos obsessivos. No tinha idias fixas que atormentavam sua mente. Sofrer e morrer na cruz no eram uma obsesso para ele. Deixou claro que s estava tomando
o seu clice porque amava intensamente a humanidade. Tinha todo o direito de pensar fixamente dia e noite em cada etapa do seu martrio, pois estava consciente de
quando e de como iria morrer, mas era completamente livre em seus pensamentos. Previu por pelo menos quatro vezes a sua morte, mas esta previso no revelava uma
mente perturbada por pensamentos antecipatrios, mas objetivava preparar seus discpulos para o drama que iria sofrer e conduzi-los a conhecer o projeto que estava
escondido no mago do seu ser. Ns fazemos o "velrio antes do tempo", sofremos por antecipao. Os problemas ainda no aconteceram e talvez nunca venham a acontecer,
mas destrumos nossa emoo por viv-los antes do tempo. O mestre de Nazar s sofria quando os acontecimentos batiam-lhe  porta. Somente possuindo uma emoo to
livre como aquela, ele poderia, a menos de 24 horas de sua tortura na cruz, ter disposio para jantar e cantar com seus discpulos e suplicar a Deus para que eles
tivessem um prazer completo.

A diferena entre a depresso e uma reao depressiva
A diferena entre uma doena depressiva e uma reao depressiva no est ligada freqentemente  quantidade nem  intensidade dos sintomas, mas principalmente 
durabilidade deles. Uma reao depressiva  momentnea, dura horas ou no mximo alguns dias. Dura enquanto est presente o estmulo estressante ou enquanto no se
psicoadapta a ele. Os estmulos podem ser uma ofensa, uma humilhao pblica, a perda de emprego, uma separao conjugal, um acidente, uma doena. Com a psicoadaptao
ou remoo destes estmulos, ocorre uma desacelerao dos pensamentos e reorganizao da energia emocional e, com isso, retorna o prazer de viver. Se os sintomas
de uma reao depressiva perduram por mais tempo, ento se instala uma doena depressiva, que chamo de depresso reacional. Esta durar uma semana, duas ou muito
mais tempo, dependendo do sucesso do tratamento.

#Qual o mecanismo psicodinmico que gera uma reao depressiva ou um transtorno ansioso? O mestre de Nazar era uma pessoa to afinada com a arte de pensar e to
maduro na capacidade de proteger a sua emoo que ele compreendia de maneira cristalina o mecanismo que vou sinteticamente expor agora. O fenmeno RAM (Registro
Automtico da Memria) registra na memria todas as experincias que transitam no palco de nossas mentes. Num computador, escolhemos as informaes que queremos
registrar; na memria humana no h essa opo. Por que no temos essa opo? Porque se a tivssemos poderamos ter a chance de produzir um suicdio da inteligncia.
Seria possvel, numa crise emocional, destruirmos os arquivos da memria que financiam a construo de pensamentos. Neste caso, perderamos a conscincia de quem
somos e onde estamos. E, assim, o tudo e o nada seriam a mesma coisa, inexistiramos como seres pensantes*. Tudo o que pensamos e sentimos  registrado automtica
e involuntariamente pelo fenmeno RAM. Este fenmeno tem mais afinidade com as experincias que tm mais "volume" emocional, ou seja, registra-as de maneira mais
privilegiada. Por isso, "recordamos" com mais facilidade as experincias que nos deram mais tristezas ou alegrias. Em uma pessoa que no tem proteo emocional,
as experincias produzidas pelos estmulos estressantes, por serem mais angustiantes, so registradas de maneira privilegiada na memria, ficando, portanto, mais
disponveis para serem lidas. Uma vez lidas, geram novas cadeias de pensamentos negativos e novas emoes tensas. Assim, fecha-se o ciclo psicodinmico que gera
determinados transtornos psquicos, inclusive o TOC. Cuidamos da higiene bucal, do barulho do carro, do vazamento de gua, mas no cuidamos da qualidade de pensamentos
e emoes que transitam em nossas mentes. Estes, uma vez arquivados, nunca mais podem ser deletados, somente reescritos. Por isso, o tratamento psiquitrico e psicoteraputico
no  cirrgico, mas um lento processo. Logo, tambm  difcil, mas no impossvel, mudar as caractersticas de nossas personalidades.  mais fcil, como Cristo
fazia, proteger a emoo ou recicl-la rapidamente quando a sentimos do que reescrev-la depois de registrada nos arquivos inconscientes da memria. Ele gozava de
uma sade emocional impressionante, pois superava continuamente as ofensas, as dificuldades e as frustraes que vivia. Portanto, o fenmeno RAM no registrava experincias
negativas em sua memria, pois simplesmente ele no as produzia em sua mente. Cristo no fazia de sua memria um depsito de lixo, pois no conseguia guardar mgoa
de ningum. Podia ser ofendido e injuriado, mas as ofensas no invadiam o territrio da sua emoo. A psicologia do perdo que ele amplamente divulgava no apenas
aliviava as pessoas perdoadas, mas as transformava em pessoas livres e tranqilas. Mesmo quando seu amigo Lzaro morreu, ele no ficou desesperado nem correu para
fazer mais um dos seus milagres. Fazia tudo com serenidade, sem desespero e no tempo certo. No conheo ningum que tenha a estrutura emocional que ele teve. Existe
uma sndrome que descobri e que tenho estudado exaustivamente*. Esta sndrome se instala no processo de formao da personalidade e tem uma grande incidncia na
populao em geral. A sndrome tri-hiper  caracterizada por trs caractersticas hiperdesenvolvidas na personalidade: hipersensibilidade emocional, hiperconstruo
de pensamentos e hiperpreocupao com a imagem social. A hipersensibilidade se expressa por meio de uma enorme desproteo emocional. Pequenos problemas tm um impacto
emocional enorme. Uma ofensa  capaz de estragar o dia ou a semana dessas pessoas.

#A hiperconstruo de pensamentos se expressa por uma produo excessiva de pensamentos. Pensamentos antecipatrios, ruminao de pensamentos sobre o passado, pensamentos
sobre os problemas existenciais. A conseqncia desta hiperproduo de pensamentos  um desgaste de energia cerebral enorme. A hiperpreocupao com a imagem social
se expressa por uma preocupao angustiante sobre o que os outros pensam e falam de si. Tal caracterstica faz com que as pessoas administrem mal todo tipo de crtica
e rejeio social. Um olhar de desaprovao  capaz de imprimir-lhes uma ansiedade intensa. Nem todas as pessoas tm os trs pilares dessa sndrome. Ela costuma
acometer as melhores pessoas da sociedade. Todavia, so boas para os outros, mas pssimas para si mesmas. Realmente creio que esta sndrome  mais importante no
processo de desencadear uma doena depressiva ou ansiosa do que uma influncia gentica. Cristo era um exmio pensador, mas no pensava excessivamente e nem divagava
nas idias. No gastava energia mental com coisas inteis. Preocupava-se intensamente com a dor humana, mas no gravitava em torno de sua imagem social, em torno
do conceito que tinham sobre ele. Por diversas vezes houve dissenso entre os seus opositores sobre quem ele era, qual a sua identidade. Ocorriam debates acalorados
sobre o que fazer com ele. O mestre sabia que tencionavam prend-lo e mat-lo, mas embora contagiasse as multides com sua amabilidade e gentileza, era, ao mesmo
tempo, slido e seguro. Portanto, no era portador da sndrome tri-hiper. Isto explica por que ele transitava ileso pelos vagalhes da vida.

O mestre teve uma reao depressiva
Durante toda a sua vida Jesus sofreu intensas presses sociais. Com dois anos de idade devia estar brincando, mas j era perseguido de morte por Herodes. Seus pais
no tinham privilgios sociais. Sua profisso era simples. Passou frio, fome e no possua moradia fixa. Teve, assim, diversos motivos para ser uma pessoa negativista,
ansiosa e irritadia, mas era uma pessoa satisfeita e bem resolvida. Nunca culpou ningum por sua falta de privilgios, nem andava ansioso pelo que lhe faltava.
Era rico por dentro, embora fosse pobre por fora. Ao contrrio dele, muitos tm excelentes motivos para ser alegres, mas so tensos, agressivos e angustiados. Jesus
vivia cada minuto com intensidade. Caminhava incansavelmente de aldeia em aldeia pregando a sua mensagem. Algumas vezes no tinha o que comer, mas no se importava;o
prazer de estar em contato com novas pessoas, alivi-las e ilumin-las com sua mensagem era mais importante. Dizia at, para o espanto dos seus discpulos, que a
sua comida era fazer a vontade de seu Pai73. Entretanto, aquele homem alegre, seguro, amvel, imbatvel, agora estava no jardim do Getsmani. L ele expressou pela
primeira vez que estava profundamente triste. O que ele sentiu: uma depresso ou uma reao depressiva? Creio que por meio das explicaes anteriores chegamos facilmente
 concluso de que ele teve apenas uma reao depressiva momentnea, embora intensa e sufocante. Quando comeou a refletir sobre seus sofrimentos, uma nuvem de pensamentos
dramticos transitou pelo palco de sua mente. Sempre soube o que lhe aguardava, mas a hora fatal havia chegado. Precisava se preparar para suportar o insuportvel.
Penetrou em cada detalhe das suas chagas. Nesse momento, o homem Jesus viveu o mais ardente e insuportvel estado de tristeza.

#A depresso dos pensadores
Muitos homens ilustres tiveram depresso ao longo de suas vidas. Freud teve crises depressivas. Certa vez, em uma das suas correspondncias com seus amigos, ele
disse que estava muito deprimido e que a vida havia perdido o sentido para ele. O turbilho de idias que transitavam pela sua mente, os pensamentos negativos sobre
a existncia, o peso das perdas e outros fatores culminaram por deix-lo deprimido numa fase posterior. A cultura psicanaltica no livrou este pensador de sua misria
interior. Hebert Spencer, um grande pensador ingls do sculo XIX, comentou certa vez que no valia a pena viver a vida. Durant, historiador da filosofia, procurou
defend-lo*. Comentou que Spencer "enxergava to longe que as coisas que se passavam debaixo do seu nariz no tinham sentido para ele". A defesa que Durant faz de
Spencer  muito incompleta. No  pelo fato de ter sido um grande pensador que Spencer perdeu o solo do prazer, mas, entre causas interiores, deve-se ressaltar que
ele desenvolveu o mundo das idias, mas desprezou, pouco a pouco, a arte da contemplao do belo dos pequenos detalhes da vida. De fato, no poucos pensadores viveram
uma vida angustiante. Eles caminharam no mundo das idias, mas no aprenderam a navegar no mundo da emoo. Assim, perderam o sentido da vida, o prazer de viver.
Esses homens foram frgeis?  difcil julgar o outro sem se colocar no lugar dele e penetrar na colcha de retalhos da sua vida. Todos ns temos as nossas fragilidades
e passamos por avenidas difceis de transitar. A vida humana possui perdas imprevisveis e variveis, difceis de se administrar... Alguns dos pensadores se tornaram
excelentes negativistas, tais como Voltaire, Schopenhauer, Nietzsche. Imergiram no torvelinho das idias, mas descuidaram dos pequenos eventos que norteiam a vida.
No souberam irrigar suas emoes com os lrios dos campos sobre os quais o carpinteiro de Nazar to bem discursou para os seus discpulos. Cristo discursou sobre
os mistrios da existncia como nenhum filsofo. A eternidade, a morte, a transcendncia das dores, a transformao na natureza humana estavam constantemente na
pauta das suas idias. Apesar de ter um discurso intelectual complexo e ser drasticamente crtico da maquiagem social, da falta de solidariedade e do crcere intelectual
das pessoas, ele exalava singeleza e prazer. Grandes pensadores perderam o sentido da vida ao desenvolver o mundo das idias. Todavia, Cristo, apesar de ir to longe
no discurso dos pensamentos, ainda achava tempo para contemplar os lrios dos campos. Temos de tomar cuidado com o paradoxo da cultura e da emoo: no territrio
da emoo h iletrados que so ricos e intelectuais que so miserveis. No poucos deles se isolaram socialmente e deixaram de ser pessoas socialmente agradveis.
No perceberam que um sorriso  to importante como uma brilhante idia. No compreenderam que a cultura sem o prazer de viver  vazia e morta. Tambm vivi um perodo
de tristeza e negativismo em minha produo de conhecimento filosfica e psicolgica. Pelo fato de produzir uma nova teoria sobre o funcionamento da mente e a construo
da inteligncia, bem como por investigar exaustivamente a lgica dos pensamentos e os fenmenos que lem em fraes de segundos a memria e constroem as cadeias
das idias, tambm perdi o solo emocional e imergi numa esfera de negativismo e tristeza. Eu moro num lugar belo, rodeado de natureza. Todavia, paulatinamente, o
canto dos pssaros e a anatomia das flores no encantavam mais minha emoo como antes. Porm, felizmente, compreendi que o mundo das idias no podia ser desconectado
da arte da contemplao do belo.  possvel extrair prazer das coisas mais singelas. Estudar a personalidade de

#Cristo me ajudou muito nessa compreenso. Aprendi que a beleza no est fora, mas nos olhos de quem a v. Recordemos a atitude intrigante de Jesus na grande festa
judia. Ele levantou-se e exclamou que era uma fonte de prazer para o homem. No pensem que o ambiente exterior era favorvel. No! Era tenso e ameaador. Os soldados,
a pedido do sindrio, estavam l para prend-lo. Bastava que abrisse a sua boca que seria identificado. Nesse ambiente turbulento, ele bradou, com a maior naturalidade,
que poderia resolver a angstia essencial que est no cerne da alma humana. Os soldados, perplexos, voltaram de mos vazias, pois disseram: "Nunca ningum falou
como este homem"74.  incrvel, Jesus falou do prazer onde s havia espao para o medo e a ansiedade.

A depresso das pessoas famosas
O mundo das idias desconectado da emoo retrai o prazer de viver, e a fama inadequadamente trabalhada  incompatvel com a sade emocional. Com o desenvolvimento
da comunicao houve uma expanso excessiva e doentia do ser famoso. As crianas desde pequenas querem ser artistas de cinema, de TV, msicos. Todos querem ser famosos.
Contudo, o mundo da fama tem abatido homens e mulheres. Uma anlise da personalidade das pessoas famosas evidencia que, no incio, a fama produz um xtase emocional,
mas com o decorrer do tempo sofrem nos bastidores de suas mentes a ao do fenmeno da psicoadaptao, que faz com que elas pouco a pouco se entediem com o sucesso
e a perda da privacidade, diminuindo, assim, o prazer com os aplausos e os assdios. Para ns que pesquisamos a inteligncia e o funcionamento da mente no existe
a fama. Ela  um artifcio social. Ningum est acima dos outros ou  mais importante do que eles.  interessante notar que o mestre de Nazar pensava exatamente
desse modo. Tanto as pessoas famosas como aquelas que esto no anonimato possuem o status de ser humano. Portanto, so dignas do mesmo respeito, pois possuem os
mesmos fenmenos inconscientes que lem a memria e constroem as cadeias de pensamentos, a conscincia e a totalidade da inteligncia. Apesar das particularidades
contidas em nossas personalidades, por termos fenmenos universais que promovem o funcionamento da mente, temos tambm necessidades psquicas e sociais universais.
As pessoas famosas, ainda que tenham conquistado um Oscar ou um Grammy, tm, tanto como o africano de Ruanda, castigado pela fome, necessidades de sonhar, dialogar,
ter amigos, superar a solido, refletir sobre a existncia. Se tais necessidades no so atendidas, contrai-se a qualidade de vida emocional. Schopenhauer, um ilustre
filsofo alemo, disse certa vez que "a fama  uma tolice; a cabea dos outros  um pssimo lugar para ser sede da verdadeira felicidade do homem"*. De fato, gravitar
em torno dos outros e esperar o retorno deles para financiar nossa paz e felicidade  uma pssima escolha. Dentro do homem deve estar a sua felicidade, e no dentro
do que os outros pensam e falam dele. Schopenhauer, embora fosse amante do mundo das idias, no viveu o que discursou, pois foi um amargo pessimista, no alcanando
o prazer dentro de si mesmo. Todavia, Cristo vivia um prazer e uma paz que emanavam do seu interior. Suas mais ricas emoes eram estveis porque no eram financiadas
pelas circunstncias sociais e nem pelas atitudes dos outros em relao a ele.

#A fama e o sucesso to divulgados pelos livros de auto-ajuda, ainda que legtimos, se no bem trabalhados se tornam um canteiro de angstia, isolamento e tdio.
Nada  to fugaz e instvel quanto a fama. Cristo era extremamente assediado. Em alguns momentos queriam aclam-lo como rei. Em outros, davam-lhe nada menos que
o status de Deus. Mas a fama no o seduzia, por isso tinha mais prazer nos pequenos eventos da vida do que nos grandes acontecimentos sociais. Seus mais brilhantes
pensamentos no foram proferidos em ambientes pblicos, mas no aconchego simples de uma praia, de um jardim ou na casa dos seus amigos.

Um resumo das caractersticas que tornavam Cristo uma pessoa saudvel
A seguir, farei uma sntese das caractersticas fundamentais de Jesus que estudamos at aqui. Elas fizeram com que o carpinteiro de Nazar, que no freqentou escola
nem cresceu aos ps dos intelectuais da sua poca, tivesse uma personalidade mpar, diferente de todas as outras. O brilho que ele emanou atravessou os sculos e
continua reluzindo nos nossos dias. Por meio dessas caractersticas podemos compreender por que ele no teve nenhum tipo de depresso, nem sndrome do pnico, nem
transtorno obsessivo compulsivo (TOC), nem a sndrome trihiper e nenhum outro transtorno psquico. 01) Protegia sua emoo diante dos focos de tenso. 02) Filtrava
os estmulos estressantes. 03) No fazia de sua memria uma lata de lixo das misrias existenciais. 04) No gravitava em torno das ofensas e rejeies sociais. 05)
Pensava antes de reagir. 06) Era convicto no que pensava e gentil na maneira de expor seus pensamentos. 07) Transferia a responsabilidade de crer nas suas palavras
e segui-lo aos prprios ouvintes. 08) Vivia a arte do perdo. Podia retomar o dilogo a qualquer momento com as pessoas que o frustravam. 09) Era um investidor em
sabedoria diante dos invernos da vida. Fazia das suas dores uma poesia. 10) No fugia dos seus sofrimentos, mas os enfrentava com lucidez e dignidade. 11) Quanto
mais sofria, mais alto sonhava. 12) No reclamava nem murmurava. Supervalorizava o que tinha, e no o que no tinha. 13) Gerenciava com liberdade seus pensamentos.
As idias negativas no ditavam ordem em sua mente. 14) Era um agente modificador da sua histria, e no vtima dela. 15) No sofria por antecipao. 16) Rompia
todo crcere intelectual. Era flexvel, solidrio e compreensvel. 17) Brilhava no seu raciocnio, pois abria as janelas da sua memria e pensava em todas as possibilidades.
18) Contemplava o belo nos pequenos eventos da vida. 19) No gravitava em torno da fama e jamais perdia o contato com as coisas simples. 20) Vivia cada minuto da
vida com intensidade. No havia nele sombra de tdio, rotina, mesmice e angstia existencial.

#21) Era socivel, agradvel, relaxante. Estar ao seu lado era uma aventura contagiante e estimulante. 22) Vivia a arte da autenticidade. 23) Sabia compartilhar
seus sentimentos e falar de si mesmo. 24) Vivia a arte da motivao. Conseguia erguer os olhos e ver as flores antes que as sementes tivessem brotado, antes do cair
das primeiras chuvas. 25) No esperava muito das pessoas que o rodeavam, nem das mais ntimas, embora se doasse intensamente por elas. 26) Tinha enorme pacincia
para ensinar e no vivia em funo dos erros dos seus discpulos. 27) Nunca desistia de ningum, embora as pessoas pudessem desistir dele. 28) Tinha enorme capacidade
para encoraj-las, ainda que fosse com um olhar. Usava os seus erros como adubo da maturidade, e no como objeto de punio. 29) Sabia estimular as suas inteligncias
e conduzi-las a pensar em outras possibilidades 30) Conseguia ouvir o que as palavras no diziam e ver o que as imagens no revelavam. 31) A ningum considerava
seu inimigo, embora alguns o considerassem uma ameaa para a sociedade. 32) Conseguia amar com um amor incondicional, um amor que ultrapassava a lgica do retorno.
Os mais eloqentes filsofos, pensadores e cientistas, se tivessem estudado a personalidade de Cristo, teriam compreendido que ele atingiu no apenas o pice da
inteligncia, mas tambm o apogeu da sade emocional e intelectual.

#CAPTULO

10

O CLICE DE CRISTO

#Dois pensamentos inesperados
O homem Jesus sempre abalou os alicerces da inteligncia de todos aqueles que cruzavam sua histria. Dos discpulos aos opositores, dos leprosos s prostitutas,
dos homens iletrados aos mestres da lei, enfim, todos ficavam intrigados com sua perspiccia, rapidez de raciocnio, eloqncia, amabilidade, delicadeza de gestos
e reaes que demonstravam poder. Entretanto, no Getsmani, ele verbalizou dois pensamentos inditos ao seu vocabulrio. O primeiro, que j estudamos, foi dirigido
aos homens. Disse: "A minha alma est profundamente angustiada". Agora, no segundo, ele foi mais longe e disse: "Pai, se possvel, afaste de mim este clice, todavia
no faa o que quero, mas sim o que Tu queres"75. O que significa esse segundo pensamento? Significa sofrer por antecipao? Aquele homem slido e aparentemente
inabalvel hesitou diante do seu martrio? Ele recuou? Certa vez, Jesus pressentiu que sua "hora" havia chegado. Quando ele pressentiu isso? Poucos dias antes do
Getsmani, quando alguns gregos vieram visit-lo. Sua fama estava ficando incontrolvel. Ela j havia atingido o pas da filosofia, a Grcia, por isso alguns gregos
queriam v-lo.  provvel que em outras naes houvesse um murmurinho a seu respeito. Na Galilia, Herodes Antipas estava ansioso por conhec-lo, pois tinha ouvido
sobre sua fama e esperava v-lo fazer algum milagre76. Cristo preferia o anonimato, mas era impossvel algum como ele passar desapercebido. Os homens do sindrio
no falavam em outra coisa a no ser do medo de que seu comportamento e o movimento das multides ao seu redor pudessem ser considerados como uma sedio a Roma,
o que estimularia uma interveno em Israel e o comprometimento dos privilgios dos seus dirigentes77. O mestre comeou a divulgar seus pensamentos a partir dos
trinta anos. Divulgou-os por apenas trs anos e meio. Nesse curto perodo, ele causou um tumulto sem precedentes naquela nao. As multides, para a inveja da cpula
judaica, seguiam-no atnitas. Se tivesse vivido mais dois ou trs anos, ainda que no fizesse qualquer marketing pessoal, talvez no apenas os povos de outras naes
se dirigissem a ele, mas tambm abalassem o imprio de Tibrio, o imperador romano. Com a aproximao dos gregos, pressentiu que o tempo de sua partida tinha chegado.
Disse: " chegada a hora"78. Sabia que seu comportamento e o que ele exaustivamente divulgava jamais seriam aceitos. Devido  sua fama e aos seus atos, o povo estava
querendo aclam-lo rei. Mas aquele dcil homem dizia, para a perplexidade de todos, que o seu reino no era deste mundo. As pessoas, obviamente, no entendiam sua
linguagem. Se a multido continuasse alvoroada, uma guerra se instalaria. Roma interviria com vigor, como ocorreu 37 anos depois, no ano de 70 d.C. Nessa poca,
Roma, sob o comando do general Tito, o mesmo que concluiu o Coliseu, iniciado pelo seu pai, o imperador Vespasiano, dilacerou Jerusalm e matou cerca de um milho
de pessoas. Jesus era veementemente contra qualquer tipo de violncia. Jamais colocaria a vida de uma pessoa em risco. Aceitava colocar sua vida em risco, mas protegia
as pessoas ao seu redor, at os seus opositores, por isso conteve a agresso de Pedro aos soldados que o prendiam. Todavia, sua fama se avolumava cada vez mais.
J no conseguia andar com liberdade. As pessoas o espremiam aonde quer que ele andasse. Nessa poca, alguns judeus, querendo mat-lo, chegaram at a usar uma mulher
como fisga, pega em flagrante adultrio, e quase a apedrejaram em sua presena. Se no fosse sua exmia sabedoria e ousadia expressa pela frase "Quem no tem pecado
atire a primeira pedra!"79, aqueles homens sedentos de sangue jamais se interiorizariam e repensariam sua violncia.

#Com a aproximao dos gregos, disse aos discpulos: "Que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este objetivo eu vim para esta hora"80. Aqui,
quando pensou no seu martrio, mencionou que estava angustiado. No entanto, nesse momento, ele sentiu apenas uma pequena amostra da angstia que sofreria dias depois
no Getsmani. Logo se refez e os discpulos no perceberam a sua breve dor. Nessa situao, ele ainda demonstrava ser inabalvel, pois discorreu sobre o julgamento
do mundo. Tambm discorreu sobre o tipo de morte que teria, dizendo: "Quando eu for levantado da terra"81. Ser "levantado da terra" significa ser crucificado. Ainda
se colocou como a luz que resplandece nos bastidores da mente e do esprito humano. Disse: "Ainda por pouco tempo a luz est entre vs"82. E, alm disso, ao invs
de dizer, como no Getsmani, "Pai, se possvel afasta de mim este clice", disse: "Mas precisamente para isso que eu vim"83. Morrer pela humanidade era sua meta
fundamental, nada o desviaria desse objetivo. Por que ento, dias depois no Getsmani ele mudou seu discurso e suplicou ao Pai que afastasse dele o clice? Nesse
jardim, a morte batia-lhe s portas. No passaria mais do que doze horas e ele seria crucificado. L, ele mudou sua atitude porque assumiu plenamente sua condio
de homem. Se ele sofresse e morresse como filho de Deus, jamais poderamos extrair experincias dele, pois somos homens frgeis, inseguros e com enormes dificuldades
para lidar com nossas misrias, mas como morreu como filho do homem, podemos extrair do seu caos profundas lies de vida. Naquele momento chegou a dizer uma frase
interessante: "O esprito est pronto, mas a carne  fraca"84. Seu ser interior, "seu esprito", estava preparado para morrer, pois era forte, estvel e determinado.
Porm, seu ser exterior, "sua carne", era frgil, fraca e sujeita a transtornos quase que incontrolveis em determinadas situaes, como ocorre com qualquer ser
humano. Dizer que a carne  fraca significa dizer que o corpo fsico, embora complexo, est sujeito a frio, fome, dor, alteraes metablicas. Indica que h uma
unidade entre "psique" (alma) e a vida fsica ("bios") e que esta vida, por meio dos instintos, prevalece muitas vezes sobre a psique, principalmente quando estamos
tensos ou vivenciando qualquer tipo de dor. O mestre tem razo. Notem que um pequeno estado febril  capaz de nos abater emocionalmente. Uma clica intestinal pode
turvar nossos pensamentos. Uma ofensa pblica pode travar a coordenao de nossas idias. Uma enxaqueca pode nos fazer irritveis e intolerantes com as pessoas que
mais amamos. Eu me alegro ao analisar um homem que teve a coragem de dizer que estava profundamente angustiado e que teve a autenticidade de clamar a Deus para que
afastasse dele o seu martrio. Se tudo em nossa vida fosse sobrenatural, no haveria beleza e sensibilidade, pois eu sou sujeito a angstias, meus pacientes so
sujeitos a transtornos psquicos e todos ns somos sujeitos a erros e dificuldades. Os homens gostam de ser deuses, mas aquele que se colocava como filho de Deus
gostava de ser homem.

Administrando a emoo no discurso do pensamento
Apesar de sofrer como um homem, Jesus tinha uma humanidade nobilssima. Notem que ele disse ao seu Pai: "Afaste de mim este clice"85. O pronome demonstrativo este
indica que ele estava se referindo ao que estava ocorrendo em sua mente com respeito ao clice fsico que iria suportar na manh seguinte.

#Imagine quantos pensamentos e emoes angustiantes no transitavam pela sua mente. Vamos nos colocar no lugar dele. Imaginemos nossa face toda cheia de hematomas
pelos murros dos soldados, nossas costas sulcadas pelos aoites, nossa cabea ferida pelos mltiplos espinhos. Imaginemos tambm os primeiros pregos esmagando a
pele, nervos e msculos de nossas mos. Qual clice seria pior: o clice psquico, ou seja, dos pensamentos antecipatrios, ou o clice fsico? Normalmente o clice
psicolgico  pior do que o fsico, mas no caso de Jesus eram ambos, pois o sofrimento da cruz era indescritvel. Entretanto, ele pedia ao Pai que afastasse dele
"este" clice, o clice psquico, o que se passava na sua mente, e no o fsico. Mas como este clice tambm fazia parte do seu martrio, em seguida, emendou: "Mas
no faa a minha vontade"86. Com resignao se rendeu  vontade de seu Pai. Ele s sofreu por antecipao porque estava s portas do seu julgamento e crucificao.
Portanto, ele, como j comentei, precisava pensar sobre as etapas da sua dor para reunir foras para suport-las como homem de carne e ossos. O procedimento do mestre
da escola da vida evidencia que h um momento em que devemos deixar a nossa despreocupao e tomar total conscincia dos problemas que atravessaremos, caso contrrio,
nos alienamos socialmente. Nesse momento, devemos penetrar-lhes e analis-los sob diversos ngulos. Porm,  difcil saber qual  o momento certo para este exerccio
intelectual . O tempo de lidar com os problemas futuros deveria ser apenas o perodo suficiente para nos dar condies para nos equiparmos e super-los. Sofrer por
um cncer que no existe, por uma crise financeira que no se sabe se ocorrer, uma dificuldade ainda distante,  se autoflagelar inutilmente. Infelizmente, uma
das caractersticas mais universais do homo sapiens, dessa espcie inigualvel da qual fazemos parte,  sofrer por antecipao. A construo de pensamentos, que
deveria gerar um osis de prazer, produz muitas vezes um espetculo de terror, o que nos expe com freqncia a transtornos psquicos. No poucas pessoas cultas
e aparentemente saudveis sofrem secretamente dentro de si mesmas. No deveramos ficar pensando dias, semanas ou meses antes dos fatos acontecerem, a no ser se
tivssemos a capacidade de no envolver a emoo com as cadeias de pensamentos, pois  ela a grande vil que rouba energia cerebral. A atividade do pensamento, quando
est envolvida com tenso, apreenso e angstia, gasta duas, trs ou dez vezes mais energia do que se estivesse desvinculada dela. Se pudssemos usar nossa capacidade
reflexiva sem empregar a ansiedade, ento poderamos ficar pensando nos fatos muito tempo antes de eles ocorrerem. Mas eu no conheo quem tenha tal habilidade.
Os vnculos da emoo com os pensamentos acompanham toda a histria de formao da personalidade. Uma anlise psicolgica estrita da personalidade de Cristo indica
que ele teve tal habilidade. S envolveu a emoo tensa na sua produo de pensamentos horas antes de morrer. Se, durante a sua jornada, no soubesse administrar
a sua inteligncia, ele estrangularia a sua emoo, pois, por estar consciente do drama que atravessaria, ficaria atormentado continuamente na sua mente, o que no
lhe daria condies para brilhar na arte de pensar, ser sereno, afetivo e dcil com todas as pessoas que cruzavam a sua histria.

No vivendo um teatro: o paradoxo entre o poder e a singeleza

#Quando aquele homem dcil e corajoso pediu a Deus que afastasse dele aquele clice, tomou a atitude mais incompreensvel de toda a sua histria. Com essas palavras,
como estudamos, ele viveu a arte da autenticidade, mas, por outro lado, essa atitude poderia comprometer a adeso de novos discpulos, pois  prprio da fantasia
humana aderir a algum que nunca expresse qualquer fragilidade. Alguns vem nessa atitude fragilidade e hesitao, mas aps estudar exaustivamente a sua personalidade,
vejo nela a mais bela poesia de liberdade. Ela retrata que, se quisesse, poderia ter evitado o seu clice, mas o tomou livre e conscientemente. Suas palavras revelam
que ele no representava uma pea, mas queria ser ele mesmo, por isso relatou sem maquiagem o que se passava no palco da sua emoo. Jesus de Nazar era to grande
e desprendido que no tinha nenhuma necessidade de simular o que sentia. Ns, ao contrrio, no poucas vezes simulamos o que sentimos, pois temos medo de ser desaprovados
e excludos do ambiente em que vivemos. Estudar a mente de Cristo  algo muito complexo. Freqentemente suas atitudes esto ocultas aos olhos da cincia, pois entram
numa esfera no investigvel, na esfera da f. Mas no podemos ficar de mos amarradas, pois  possvel garimpar tesouros escondidos nos seus pensamentos. Suas atitudes
singelas e o poder descomunal que demonstrava ter equilibravam-se perfeitamente na "balana" da sabedoria e do bom senso. As idias de grandeza so freqentemente
incompatveis com a sade psquica. Se analisarmos a histria de qualquer homem que desejou compulsivamente o poder, a exaltao suprema e a necessidade de estar
acima dos outros, verificaremos em sua personalidade algumas caractersticas doentias, tais como incoerncia, impulsividade, atitudes autoritrias e uma enorme dificuldade
de se colocar no lugar dos outros e perceber as suas dores e necessidades. Alguns deles, por amarem obsessivamente o poder, se tornaram paranicos; outros, psicopatas
e ainda outros, ditadores violentos. Os ditadores com tais caractersticas sempre violaram o direito dos outros, pois nunca conseguiram ver o mundo com os olhos
deles. Tome Hitler como exemplo. Uma anlise da sua histria pode constatar uma mente perspicaz e persuasiva associada com um delrio de grandeza, ansiedade, irritao,
incoerncia intelectual e excluso social. Mesmo derrotado, percebia-se nele uma pessoa inflexvel, incapaz de reconhecer minimamente seus erros e de possuir sentimentos
altrustas. No fim da guerra, logo antes de se suicidar, casou-se com Eva Braun*. A incoerncia no est nesse casamento, que aparentemente poderia demonstrar um
brinde ao afeto, mas no fato de que se casaram confessando que eram "arianos puros". Com isso, mesmo s portas da morte, ele ainda avalizava o holocausto judeu e
perseguia a sua insana e cientificamente dbil purificao da raa. O povo judeu sempre foi um povo brilhante. Foi dizimado por um ditador psicopata, que foi incapaz
de compreender que uma "raa" ou mesmo a cor da pele e a condio cultural jamais poderiam servir de parmetro para distinguir dois seres da mesma espcie, que tm
os mesmos fenmenos que lem a memria e produzem as insondveis cadeias de pensamentos, bem como todos os elementos que estruturam a inteligncia e a conscincia.
At uma criana deficiente mental tem a mesma complexidade na sua inteligncia e, portanto, deveria ser objeto do mesmo respeito que o mais puro dos arianos ou qualquer
outro ser humano. Jesus tambm teve idias impensveis de grandeza. Colocava-se acima dos limites do tempo. Inferia que era o Cristo, o filho do autor da existncia.
Relatava uma indestrutibilidade jamais expressa por um homem. Todavia, ao contrrio de todos os homens que amaram o poder, ele preferia a singeleza, a humildade.
Apesar de expressar um poder incomum, jamais excluiu algum. Amava os judeus com uma emoo ardente e eles o amavam igualmente, exceto a cpula. Para a felicidade
dos leprosos, das prostitutas e das barulhentas crianas, aquele homem que expressava ser to grande procurava paradoxalmente as

#pessoas mais simples para se relacionar. E, para o nosso espanto, foi mais longe ainda. Como mencionei, em vez de usar o seu poder para controlar as pessoas e almejar
que o mundo estivesse aos seus ps, ele se abaixou e lavou os ps de homens sem privilgios sociais. O amor que o movia ultrapassava os limites da lgica. A psicologia
no consegue perscrut-lo e analis-lo adequadamente, pois sua personalidade  muito diferente do prosaico.

Um plano superior
Se Cristo objetivasse camuflar as suas emoes, jamais teria expressado a sua dor no Getsmani e jamais teria manifestado a sua vontade de no beber o clice. O
objetivo do mestre era muito mais ambicioso do que fundar uma escola de idias ou corrente de pensamento. Seu objetivo era causar a mais drstica revoluo humana,
uma revoluo clandestina que comearia no esprito humano, fluiria para toda a sua inteligncia e modificaria para sempre sua maneira de ser e de pensar e que,
por fim, o introduziria na eternidade, o que indica a universalidade de Jesus Cristo. Ele veio para todos os povos e para os homens de todas as religies, cultura,
raa e condio social. Se Plato, Scrates, Hipcrates, Confcio, Squia-Mni, Moiss, Maom, Toms de Aquino, Spinoza, Kant, Descartes, Galileu, Voltaire, Rosseau,
Einstein e tantos outros homens que brilharam na sua inteligncia e contriburam para enriquecer a qualidade de vida do homem, seja por meio de pensamentos cientficos,
filosficos ou religiosos, fossem contemporneos de Jesus Cristo e vivessem nas regies da Galilia e da Judia, certamente eles no estariam no sindrio acusando-o,
mas fariam parte do rol de seus amigos. Sentariam juntos com ele  mesa e, reclinados folgadamente sobre ela, teriam ricos dilogos. Provavelmente andariam com ele
de aldeia em aldeia e chorassem quando ele partiu. O mestre de Nazar no veio destruir as culturas, segundo o seu pensamento claramente expresso em todas as suas
biografias; ele veio para dar "vida" ao homem mortal, introduzir a natureza de Deus dentro dele, enriquec-lo com uma fonte inesgotvel de prazer e imergi-lo numa
vida infindvel. Jesus no era uma estrela no meio das pessoas. Ele se misturava com elas, fazia parte da cultura delas e se tornava uma delas. Questionado por que
ele se misturava com a ral e comia sem lavar as mos, ele disse: "O mal no  o que entra pela boca, mas o que sai dela"87. No que no valorizasse a higiene, mas
queria demonstrar que ele veio para mudar o interior do homem. Para isso estabeleceu princpios universais, tais como o que bradou no sermo do monte. Disse: "Felizes
ou bem-aventurados so os pobres de esprito"88, ou seja, aqueles que valorizam mais o "ser" do que o "ter" e se colocam continuamente como aprendizes diante da
vida; tambm chamou de bem-aventurados os pacificadores, os misericordiosos, os puros de corao, os que amam e tm sede de justia etc. Chegou ainda a dizer, contrariando
a histria, que so "bem-aventurados os mansos porque herdaro a terra"89. A histria relata que freqentemente os que exerceram a violncia, ainda que fosse psicolgica,
so os que freqentemente herdaram a terra ou ocuparam os espaos sociais, embora nas sociedades democrticas tenha havido um canteiro de excees. At na teoria
de Darwin os mais fortes e adaptados so os que dominam os mais fracos. Todavia, segundo a slida convico do carpinteiro de Nazar, os mansos so aqueles que um
dia herdaro a terra. Cristo viveu a mansido como uma sinfonia de vida. Causou a maior revoluo da histria sem desembainhar nenhuma espada, sem produzir qualquer
tipo de violncia. Inspirou muitos homens ao

#longo das eras. Um deles foi Gandhi, que o admirava muito. Este, como um poeta da vida, libertou a ndia em 1947 do imprio britnico sem usar a violncia. Somente
os fortes poupam o sangue e so capazes de usar os pequenos orvalhos do dilogo, da afetividade e da tolerncia para arar e irrigar o solo rido dos obstculos que
esto  sua frente.

A mudana inesperada do discurso de Cristo
Lucas descreve que Jesus dobrava seu rosto sobre seus ps e orava intensamente. Tal posio indicava no apenas a sua humildade, mas o seu sofrimento. Nessa posio,
ele navegava para dentro do seu prprio ser e suplicava ao Pai. No captulo 17 de Joo, como vimos, ele fez a sua mais longa orao. Mencionou cerca de 39 vezes
o nome do Pai e os pronomes relacionados a Ele. Talvez tenha gastado cinco ou dez minutos neste dilogo. Contudo, aqui no Jardim do Getsmani, orou pelo menos por
duas ou trs horas90. Mas, como os discpulos dormiram, no temos o registro. Talvez tenha mencionado o nome do Pai centenas de vezes e O tenha convidado a entrar
em cada cena do filme da sua mente, em cada etapa da dor que iria atravessar. Isso deve realmente ter acontecido, pois analisando as poucas frases que foram registradas
nesse ambiente, percebemos uma mudana de discurso do filho em relao ao clice. O registro de Mateus mostra-nos que na primeira frase ele bradou: "Meu Pai: Se
possvel, passe de mim este clice! Todavia, no seja como eu quero, e, sim, como Tu queres"91. Passada uma hora, aps ter tido um rico dilogo no registrado, ele,
embora gemendo de dor, mudou seu pensamento e disse: "Meu Pai, se no  possvel passar de mim este clice sem que eu o beba, faa-se a Tua vontade"92. Essas palavras
indicam que ele se convenceu de que no era possvel ficar sem beber o clice. Essa mudana de discurso revela que ele tinha um Pai que no era fruto de sua imaginao,
de uma alucinao psictica. Uma alucinao e um delrio psictico so produzidos quando uma pessoa perde os parmetros da realidade e comea a construir, sem conscincia
crtica, uma srie de pensamentos fantasiosos que ela considera que so reais. Quando produzem imagens ou pensamentos ligados a seres ou pessoas, ela cr contundentemente
que eles no foram produzidos por si mesma, mas pertencem a outro ser real que est fora dela. Assim, ouve-se voz inexistente, vem-se imagens irreais e tm-se sensaes
estranhas e idias infundadas. Por isso, se fizermos um dilogo um pouco mais investigativo com uma pessoa que est em surto psictico, perceberemos facilmente a
incoerncia intelectual, a dificuldade consistente no gerenciamento dos pensamentos e a perda dos parmetros da realidade. Cristo no alucinava ou delirava quando
dialogava com o seu Pai. Pelo contrrio, alm de ser coerente e lcido, desenvolveu, como tenho dito, as funes da inteligncia em patamares jamais sonhados pela
psiquiatria e pela psicologia. No imaginava nem mesmo fazia um jogo de linguagem quando se referia ao seu Pai. A anlise das suas palavras e das suas intenes
subjacentes evidencia que seu Pai era to real que tinha uma existncia prpria, uma vontade definida. Talvez a vontade deles coincidissem em quase tudo o que planejaram,
mas aqui, nesta situao, a vontade do Pai no ia ao encontro da sua. O Pai queria a cruz, e o filho, na condio de homem, expressou, ainda que por algum momento,
que desejou evit-la. Esta situao revela claramente que o martrio de Cristo no foi um teatro. Ele, independente de sua divindade, sofreu como um ser de pele,
fibras musculares, nervos. Submeteu-se ao seu Pai, no por temor ou por imposio dEle, mas por amor. Um amor que excede o entendimento.

#Essa diferena de vontade no era um problema para eles, pois um procurava satisfazer o desejo do outro. Por isso, segundo os evangelhos, o maior conflito do universo
foi resolvido em pequenos momentos. Por que entre eles h uma inexprimvel harmonia? Ambos possuem uma coexistncia misteriosa, um assunto que, se os leitores quiserem
se aprofundar, devem procurar os livros dos telogos. Cristo disse certa vez a Filipe, um dos discpulos: "No crs que eu estou no Pai e que o Pai est em mim?"93.
O Pai e o filho fazem parte, juntamente com o Esprito Santo, de uma trindade incompreensvel para a inteligncia humana. A vontade do Pai prevaleceu sobre a vontade
do filho. O filho compreendeu que o clice seria inevitvel, por isso rendeu-se  vontade do Pai. Embora no tenhamos elementos investigveis, subentende-se que
o Pai, embora contemplasse os gemidos de dor do filho e tivesse conscincia dos aoites e feridas pelas quais ele passaria, o convenceu a tom-lo. Segundo o pensamento
de Cristo, se ele falhasse, o plano de Deus falharia. Neste caso, a redeno da humanidade no ocorreria, o perdo das mazelas e das misrias humanas no se realizaria,
nenhuma criatura seria eterna. A vida humana seria uma pequena brincadeira temporal, aps ela o nada... Como o Pai deve t-lo convencido a tomar o clice? Talvez
tenha relatado tudo o que o filho j sabia, todo o seu plano. Entretanto, como ele sofria intensamente como um homem, precisava ser refrigerado com as palavras do
seu Pai. Talvez este tenha mencionado o nome de Pedro, Joo, Maria Madalena, de Lzaro e de todos os homens, mulheres e crianas que ele conheceu e amou ardentemente.
Jesus no teve sua vontade atendida pelo Pai, mas ainda assim orou. Por que orou ento? Porque aquele dilogo o sustentou, irrigou sua alma com esperana, renovou-lhe
as foras. Os discpulos, estressados, dormiam um pesado sono, mas ele velejava para dentro de si mesmo. Se o filho insistisse em no tomar o clice, o Pai realizaria
o seu desejo, mas ele disse: "faa a Tua vontade...". Talvez para o Pai morrer na cruz fosse mais fcil do que suportar seu filho sendo espancado e, ainda assim,
ficar quieto; ser injuriado e, ainda assim, ser dcil; ser aoitado e, ainda assim, ser tolerante; ser esmagado na cruz e, ainda assim, ter o desprendimento de amar
e perdoar. Certa vez Jesus disse que se o homem, que  restrito na sua capacidade de amar, dava boas ddivas aos seus filhos quando eles lhe pediam, Deus muito mais,
por ter uma capacidade insondvel de amar, daria mais coisas aos homens se eles insistentemente lhe pedissem94. Por meio dessas palavras, inferia que seu Pai era
incomparavelmente mais afetivo do que o nosso instvel e circunstancial amor. Uma voz vinda do cu ecoava o que o Pai sentia pelo filho: "Este  o meu filho amado
em quem tenho prazer"95. Segundo as biografias de Cristo, a sua morte foi o evento mais importante e o mais dolorido para o Deus eterno. Vemos o desespero de Deus
e de seu filho e da angstia que ambos viveram para mudar o destino da humanidade.96 S os mortos realmente sabem se essa mudana de destino foi real ou no. Aqui,
no "palco dos vivos", s nos resta crer ou rejeitar suas palavras.  uma atitude totalmente pessoal, com conseqncias pessoais. No h como no ficarmos perplexos
diante desses acontecimentos.

A meta impressionante: "Vs sois deuses"
Agostinho, nos sculos iniciais da era crist, resumiu resolutamente o seu pensamento sobre a misso e o clice de Cristo: "Deus se tornou um homem para que o homem
se tornasse Deus"*. Agostinho, neste pensamento, quis dizer que o objetivo de Deus  que o homem conquistasse a natureza divina e se tornasse filho de Deus, no
para ser adorado, mas para receber todas as ddivas do

#seu ser. O prprio apstolo Pedro, na sua velhice, escreveu em uma de suas cartas que atravs de Cristo "ns somos cooparticipantes da natureza de Deus"97. Incompreensvel
ou no era isso que pensavam Cristo e seus mais ntimos seguidores. Como pode o homem, to cheio de falhas e to restrito na sua maneira de pensar, receber a natureza
de Deus e ser eterno como ele? De fato, independente de rejeitar ou no o pensamento de Cristo, uma anlise profunda das suas biografias revela que tomar o clice
no tinha conotao de sofrer como um pobre miservel, mas revela o plano mais ambicioso jamais realizado, o plano de Deus; o plano de infundir a imortalidade para
dentro do homem temporal. Um dia, alguns judeus se encharcaram de ira pela blasfmia de Jesus que, sendo um homem, se dizia Deus. Ento Jesus, perturbando-os drasticamente,
replicou: "No est escrito na vossa lei: `Eu disse: Sois deuses?'"98. O texto que Jesus citou do Velho Testamento caiu como uma bomba na mente daqueles homens que
supunham conhecer as Escrituras antigas. Eles nunca tinham prestado ateno em alguns pontos fundamentais que estavam implcitos neste texto do salmo 86. O mestre
continuou a confundi-los: "Se ele chamou deuses queles a quem a palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura no pode ser anulada, daquele a quem o Pai santificou
e enviou ao mundo, dizeis: Tu blasfemas, porque eu disse: sou filho de Deus?"99. Estas palavras revelam o cerne do seu plano transcendental. Ele queria que a criatura
humana recebesse a natureza incriada e eterna de Deus. Se para aqueles homens as palavras do carpinteiro de Nazar, dizendo que era o prprio filho de Deus, j era
considerada uma blasfmia insuportvel, imagine o que eles pensaram do objetivo dele de fazer criaturas instveis e temporais, filhos do Deus altssimo. Os seus
opositores no sabiam como defini-lo. Uns achavam que ele estava louco, outros que ele estava tendo um delrio espiritual (diziam que ele tinha demnio) e outros
ainda saam confusos sem nada concluir. A medicina  a mais complexa das cincias. Ela  uma fonte concentradora das diversas reas do conhecimento. Compe-se da
biologia, da qumica, da fsica, da matemtica e de outras cincias. Todavia, o mdico mais culto e experiente pode no mximo dizer que quem cr em seu tratamento
pode resolver a sua doena. Todavia, Cristo era to intrigante que dizia que quem cresse nele teria a vida eterna. Que poder se escondia dentro do carpinteiro de
Nazar para que tivesse a coragem de expressar que transcenderia todas as indescritveis conseqncias psicolgicas e filosficas do fim da existncia? H milhares
de hospitais e milhes de mdicos espalhados pelo mundo inteiro, objetivando no apenas melhorar a qualidade de vida, mas tambm retardar o fim da existncia humana.
Por fim, infelizmente, a morte triunfa e derrota a medicina. Todavia, apareceu um homem h dois milnios cujas palavras causaram o maior impacto da histria. Ele
discursou, sem qualquer insegurana, que veio com a misso de triunfar sobre a morte. Queria romper a bolha do tempo que envolvia a humanidade e fazer com que o
mortal alcanasse a imortalidade. Que propsito impressionante!

#CAPTULO

11

O HOMEM COMO SER INSUBSTITUVEL

#O mestre da sensibilidade
Chegamos ao final deste livro. Aqui veremos trs caractersticas fundamentais da personalidade de Jesus Cristo: a sensibilidade, o prazer em passar desapercebido
e a preocupao especfica por cada ser humano. Estud-las contribuir para compreendermos alguns pensamentos e reaes subjacentes da pessoa mais bela e difcil
de se compreender que passou por esta terra.

A sensibilidade e a hipersensibilidade
Para elucidar este assunto, permitam-me contar-lhes uma histria. M. L.  uma educadora brilhante. Percebe o mundo de maneira diferente da maioria das pessoas. Contempla
os pequenos detalhes da vida, capta os sentimentos mais ocultos das pessoas que a rodeiam. O sorriso de uma criana a encanta, at as folhas revoando ao lu a inspiram.
Gosta de extrair lies das dificuldades que atravessa. A vida, para ela, no  um espetculo vazio, mas um show de emoes. Concluindo: M. L. desenvolveu a sensibilidade,
que  uma das caractersticas mais nobres da inteligncia e uma das mais difceis de ser conquistadas. Contudo, dificilmente algum consegue desenvolver uma sensibilidade
madura, acompanhada de proteo emocional, segurana e capacidade de filtrar os estmulos estressantes. Por isso, normalmente, as pessoas sensveis se tornam como
M. L., ou seja, hipersensveis. As pessoas hipersensveis tm as belssimas caractersticas da sensibilidade, mas, ao mesmo tempo, tm freqentes crises emocionais
e um humor flutuante, que se alterna entre o prazer e a dor. Quando erram ou fracassam, se punem excessivamente. Quando percebem algum sofrendo, sofrem junto com
ele e, s vezes, at mais do que ele. Diante de uma perda, sofrem um impacto emocional inadministrvel. Gravitam em torno das dificuldades que ainda no aconteceram
e no conseguem impedir dentro de si mesmas o eco dos estmulos estressantes que as circundam. Pode-se dizer que as pessoas hipersensveis so as melhores da sociedade,
pois so incapazes de ferir os outros, mas so pssimas para si mesmas. Toleram os erros dos outros, mas no toleram seus prprios erros. Compreendem os fracassos
dos outros, mas no suportam os seus prprios fracassos. So especialistas em autopunir-se. Muitos poetas e pensadores eram hipersensveis, por isso tiveram graves
crises emocionais. A sensibilidade  uma das mais sublimes caractersticas da personalidade; sem ela no se desenvolve a arte da contemplao do belo, a criatividade,
a socializao. Porm a escola pouco valoriza a educao da sensibilidade, bem como pouco estimula a proteo emocional. O mestre de Nazar desenvolveu a sensibilidade
emocional no seu sentido mais belo. Nele, ela se tornou mais do que uma caracterstica de personalidade, mas uma arte potica. Era afetivo, observador, criativo,
detalhista, perspicaz, arguto, sutil. Destilava o prazer nos pequenos eventos da vida e, ainda por cima, conseguia perceber os sentimentos mais ocultos naqueles
que o cercavam. Conseguia ver encanto numa viva pobre e perceber as emoes represadas numa prostituta.

#Cristo foi o mestre da sensibilidade. Treinou sua sensibilidade desde criana.  medida que crescia em sabedoria, desenvolvia uma emoo sutil e uma inteligncia
refinada, por isso tinha uma habilidade psicoteraputica impressionante, a de perscrutar os pensamentos no verbalizados e de se adiantar s emoes no expressas.
Por que, quando adulto, se tornou um exmio contador de histrias? Porque na sua infncia e juventude a rotina e o tdio no cruzaram a sua vida. Enquanto os meninos
e at os adultos de sua poca viviam suas vidas como meros passantes, ele penetrava e meditava nos mnimos detalhes dos fenmenos que o rodeavam. Devia olhar para
o cu e compor poesia sobre as estrelas. Certamente despendia um longo tempo contemplando e admirando as flores dos campos. Os lrios cativavam seus olhos e as aves
dos cus o inspiravam100. At o canto dos pardais, que perturbam ao entardecer, soava como uma msica aos seus ouvidos. O comportamento das ovelhas e os movimentos
dos pastores no passavam desapercebidos para este poeta da vida. Por ser um exmio observador, o mestre da sensibilidade se tornou um excelente contador de histrias
e de parbolas. Suas histrias curtas e cheias de significado continham todos os elementos que ele contemplou, admirou e selecionou ao longo da vida. Morreu jovem,
tinha pouco mais de trinta anos, mas acumulou em sua humanidade uma sabedoria que o mundo acadmico ainda no incorporou. A vida no o privilegiou com fartura, mas
extraiu riqueza da misria. Rompeu os parmetros da matemtica financeira; era riqussimo, embora no tivesse onde reclinar a cabea. Mergulhou desde a meninice
num ambiente estressante, mas destilou mansido e lucidez do seu "deserto". Tornou-se to manso e calmo que, quando adulto, considerou-se a prpria matriz da tranqilidade.
Por isso fez ecoar nos tensos territrios da Judia e Galilia um convite nunca antes ouvido: "Aprendei de mim porque sou manso e humilde de corao"101. Nossa pacincia
 instvel e circunstancial, mas a dele era estvel e contagiante. Aqueles que o seguiam de perto no sentiam temores nem abalos emocionais. Sua sensibilidade era
to arguta que quando uma pessoa sofria ao seu lado, ele era o primeiro a perceber e a procurar alivi-la. As dores e as necessidades dos outros mexiam com as razes
do seu ser. Tudo o que tinha repartia. Era um antiindividualista. Cristo tinha uma amabilidade surpreendente. Freud excluiu da famlia psicanaltica os que pensavam
contrariamente s suas idias, mas o mestre de Nazar no excluiu da sua histria aquele que o traiu e aquele que o negou. As pessoas podiam abandon-lo, mas ele
jamais desistia de algum. Era de se esperar que, pelo fato de ter desenvolvido o pice da sensibilidade, tivesse todos os sintomas da hipersensibilidade. Ao contrrio,
ele conseguiu reunir na mesma orquestra de vida duas caractersticas quase que irreconciliveis: a sensibilidade e a proteo emocional. Cuidava dos outros como
ningum, mas no deixava a dor deles invadir a sua alma. Vivia no meio dos seus opositores, mas sabia se proteger, por isso no se abatia quando desprezado ou injuriado.
Conseguia mesclar a segurana com a docilidade, a ousadia com a simplicidade, o poder com a capacidade de apreciar os pequenos detalhes da vida. Ao contrrio das
pessoas sensveis, as insensveis dificilmente expem suas emoes. So egostas, individualistas, implacveis e reconhecem pouco seus erros, por isso so especialistas
em reclamar e criticar superficialmente tudo o que as circundam. Elas esto sempre se escondendo atrs de uma cortina de segurana, que reflete no uma emoo tranqila,
mas uma emoo engessada e insegura. Terapeuticamente falando,  muito mais fcil conduzir uma pessoa hipersensvel a proteger sua emoo e a aparar algumas arestas
da sua hipersensibilidade do que conduzir uma pessoa insensvel a despojar-se da sua rigidez e conquistar a sensibilidade. Todavia,  sempre possvel reescrever
algumas caractersticas da personalidade; o desafio est em sair da condio de espectador passivo para agente modificador do script de sua histria.

#Os melhores pensadores da psicologia, da filosofia e da literatura conquistaram algumas caractersticas da sensibilidade, mas, ao mesmo tempo, sucumbiram nas guas
da hipersensibilidade emocional. Diferente deles, o mestre de Nazar, apesar de ter desenvolvido todas as caractersticas da sensibilidade, sabia navegar com habilidade
no territrio da emoo. Embora a sensibilidade freqentemente penda para a hipersensibilidade, quanto mais uma pessoa aprende a destilar o prazer nos pequenos detalhes
da vida, mais ela  saudvel emocionalmente. No espere encontrar, em abundncia, homens ricos na matemtica da emoo na avenida Paulista, na avenida Champs Elisee,
em Wall Street e entre os milionrios listados pela Forbes. Procure-os entre aqueles que acham tempo para observar "o brilho das estrelas". Algum poder argumentar:
em So Paulo no podemos ver as estrelas, pois o ar  poludo! Sempre haver argumentos para adiarmos o desenvolvimento da sensibilidade. Se h uma cortina de poluio
que aborta nosso campo visual, h certamente um universo de detalhes que pulsa ao nosso redor: um dilogo aberto, o sorriso das crianas, uma viagem para dentro
de si mesmo, uma reviso de paradigmas, a leitura de um livro. Precisamos gastar tempo com aquilo que no d lucro para o bolso, mas para o interior. Jesus dizia
que o tesouro do corao  estvel, enquanto o material  transitrio102. Ao preservar sua emoo nos focos de tenso e destilar o prazer nos pequenos eventos da
vida, o carpinteiro deixou-nos um modelo vivo de que  possvel desenvolver a sensibilidade, mesmo num ambiente em que s podia ver pedras e areia...

As caractersticas mpares do carter de Deus e de Jesus
Jesus Cristo no foi apenas o mestre da sensibilidade, mas tambm teve uma caracterstica difcil de ser compreendida, o que torna a sua personalidade paradoxal,
diferente de todas as outras que possamos analisar: gostava de passar desapercebido e de ser encontrado por aqueles que enxergam com o corao. Antes de estudarmos
essa caracterstica de Cristo, gostaria de convidar o leitor a mergulhar em algumas indagaes filosficas sobre o carter do autor da existncia, Deus. Ao olharmos
para o universo percebemos tudo to belo e organizado, entretanto onde est o seu autor? Se h um Deus no universo, por que Ele deixa a mente humana em suspense
e no mostra claramente a sua identidade? Se Ele  onisciente, ou seja, se tem plena conscincia de todas as coisas, inclusive das nossas indagaes a seu respeito,
por que no resolve as dvidas que h sculos nos perturbam? O universo todo, incluindo as milhes de espcies da natureza, acusam a existncia de um criador. Todavia,
apesar de ter feito uma obra fantstica, Ele no quis assin-la. Por que no? No quis porque Ele  um mero fruto da nossa mente e, portanto, no existe, ou porque
Ele possui uma personalidade que rejeita o exibicionismo? Essa  uma grande questo! Muitos se tornaram ateus porque no encontraram respostas para suas dvidas.
Outros, no entanto, procuram o Criador com os olhos do corao e, por isso, afirmam encontrar sua assinatura em cada lugar e em cada momento, nas serenatas dos pssaros,
na anatomia das flores e at no sorriso das pessoas...  prprio de um autor assinar a sua obra, ainda que com pseudnimo, mas, ao que tudo indica, o Criador deixou
que os inumerveis detalhes da sua criao falassem por si s, fossem a sua prpria assinatura.

#Alguns administradores pblicos realizam pequenas obras, mas, ao inaugur-las, fazem grandes discursos. O autor da existncia, ao contrrio, fez obras admirveis,
to grandes que todas as enciclopdias do mundo no poderiam descrev-las, contudo no fez nenhum discurso de inaugurao. Ningum invade a esfera patrimonial de
algum sob pena de, ao faz-lo, sofrer uma ao judicial. Contudo, estamos vivendo numa propriedade, a terra, onde dela retiramos o alimento para viver, o ar para
respirar e ainda fazemos dela um territrio para morar. Mas onde est o proprietrio deste planeta azul, imergido no tempo e no espao, que se destaca dos trilhes
de outros no cosmos? Por que ele no reivindica o que  seu e nos cobra "impostos" para usufruir sua mais excelente propriedade? Estas so questes importantes!
Existiram, em toda a histria, homens no campo filosfico e teolgico que consumiram grande parte de sua energia mental tentando descobrir os mistrios da existncia.
E quanto mais perguntaram, mais aumentaram suas dvidas. Por que o autor da vida no se revela sem rodeios a essa espcie pensante,  qual pertencemos? Alguns argumentaro:
Ele deixou diversos escritos de homens que tiveram o privilgio de conhecer parte dos seus desgnios. Tome como exemplo a Bblia. Ela tem dezenas de livros e demorou
cerca de 1500 anos para ser escrita. Convenhamos que, ainda que possamos mergulhar nos textos bblicos e ficar encantados com muitas de suas passagens, temos de
reconhecer que Deus  um ser misterioso e muito difcil de ser compreendido. Apesar de onipresente, ou seja, de estar em todo tempo e em todo lugar, Ele no se mostra
claramente, por isso usou homens para escrever algo sobre si. Isaas foi um dos maiores profetas das Antigas Escrituras. Em um dos seus textos, ele fez uma constatao
brilhante sobre uma caracterstica de Deus que s os mais sensveis conseguem perceber. Disse: "... verdadeiramente Tu s um Deus que se encobre"103. Isaas olhava
para o universo, via um mundo admirvel, mas ficava perturbado, pois seu autor no gostava de se ostentar, ao contrrio, apreciava se ocultar aos olhos visveis.
Certo dia, Elias, outro profeta de Israel, atravessava um grande problema. Estava sendo perseguido e corria grave risco de vida. Conflitante, se escondeu da presena
dos seus inimigos e perguntava onde estaria o Deus a que ele servia. Este fez surgir um vento impetuoso, mas Ele no estava no vento. Fez surgir um forte fogo, mas
tambm no estava na violncia das suas labaredas. Ento, para o espanto de Elias, Ele fez surgir uma brisa suave, quase que imperceptvel, e l Ele estava104. Amamos
os grandes eventos, mas Deus ama as coisas singelas.  preciso enxergar as coisas pequenas para encontrar Aquele que  grande. Einstein, o maior cientista do sculo
XX, queria entender a mente de Deus. O autor da teoria da relatividade era mais ambicioso do que se pode imaginar. Como investigador irrefrevel, estava interessado
em conhecer mais do que os mistrios da fsica, mais do que a relao tempo/espao que tanta insnia causa nos cientistas. Queria compreender os pensamentos de Deus.
Outros pensadores, como Descartes, Spinoza, Kant, Kierkegaard, fizeram de suas indagaes a respeito de Deus objeto constante de suas pesquisas. Gastavam tempo produzindo
conhecimento sobre o Criador. Nunca brotou no cerne da inteligncia do leitor indagaes sobre o que  a existncia e quem  o seu autor?  prprio do homem amar
os aplausos, gostar da aparncia, ter prazer no poder e se sentir acima dos seus pares. Pense um pouco. Se o autor da existncia aparecesse subitamente na terra,
de maneira clara e visvel, Ele no mudaria completamente a rotina humana? Os homens todos no se prostrariam aos seus ps? No seria Ele estampado nas primeiras
pginas de todos os jornais? Sua presena certamente seria o maior acontecimento da histria. Segundo as biografias de Jesus Cristo, esse fato j ocorreu. H dois
mil anos o Deus eterno finalmente resolveu mostrar a sua "face", dar-se a conhecer a suas criaturas terrenas. Joo 1 diz:

#"Ningum jamais viu a Deus; o filho unignito, que est no seio do Pai, o revelou"105. Diante dessas palavras, todos poderamos exclamar: "Agora, afinal, o autor
da existncia veio revelar sua identidade". Todavia, ao analisar a histria de Jesus, em vez de termos resolvido nossas dvidas, eis que elas aumentaram. Por qu?
Porque era de se esperar que o filho do Deus altssimo nascesse no melhor palcio da terra, no mnimo na fortaleza Antnia, que era o palcio de Pilatos. Para nosso
espanto, nasceu entre os animais. No aconchego de um curral ele soltou suas primeiras lgrimas. O ar, saturado de um odor azedo de estrume fermentado, ventilou pela
primeira vez seus pequenos pulmes. Tambm era de se esperar que ele mostrasse ao mundo as suas virtudes e seu poder desde o seu nascimento, mas viveu no anonimato
at os trinta anos. Quando resolveu, enfim, se manifestar, fez milagres inacreditveis, mas, em vez de us-los para convencer os homens da sua real identidade, pedia
insistentemente para que as pessoas no contassem a ningum o que havia feito. Esse Jesus  to inusitado que confunde qualquer pessoa que investigar a sua personalidade.
Ele, pelo simples poder da sua palavra, rompeu as leis da fsica como se fossem brinquedos. Curou cegos, ressuscitou mortos, acalmou tempestades, andou sobre as
guas, multiplicou a matria (pes), transfigurou-se, enfim fez tudo o que a fsica e as cincias mais lcidas acham impossvel ser feito. Fez o que ningum jamais
sonhou em realizar. Por isso, ao investig-lo, no  possvel ter mais do que duas hipteses: Ou ele  a maior fraude da histria ou a maior verdade do universo;
ou os discpulos estavam delirando quando o descreveram ou, de fato, estavam relatando a pessoa mais admirvel, atraente e difcil de ser compreendida que transitou
por esta terra. Crer ou no em Jesus Cristo  algo totalmente pessoal, algo que diz respeito  conscincia individual. Entretanto, independente de rejeit-lo ou
am-lo, de acordo com a tese que defendi no primeiro livro, Anlise..., os discpulos no poderiam ter inventado uma personalidade como a dele. Nem o autor mais
frtil conseguiria imaginar um personagem com as suas caractersticas, pois suas reaes e pensamentos ultrapassam os limites da previsibilidade, da criatividade
e da lgica humana. O menino Jesus deveria ter crescido aos ps dos intelectuais da sua poca e ter convivido com a "fina flor" da filosofia grega. Mas no freqentou
escolas e, ainda por cima, foi entalhar madeiras. Como  possvel que aquele que postula ser o co-autor de bilhes de galxias perca tempo em trabalhar uma tora
de madeira bruta? Isto no parece loucura? Loucura aos olhos fsicos, mas sabedoria para aqueles que enxergam com o corao, para aqueles que enxergam alm dos limites
da imagem. Os deuses gregos, se fossem vivos, ficariam boquiabertos ao saber que aquele que postula ser o criador dos cus e da terra, na nica vez que veio se revelar
claramente ao homem, escondeu-se atrs dos estalidos dos martelos.

O co-autor da existncia na pele de um carpinteiro
Joo, na sua velhice, fez um relato surpreendente sobre Jesus . Descreveu: "Tudo foi feito nele (Cristo) e sem ele nada do que foi feito se fez"106. Segundo o pensamento
desse discpulo, o prprio Jesus projetou junto com o Pai a existncia, o mundo animado e inanimado. Ambos, Pai e filho, colocaram o cosmos numa "prancha de arquitetura".
Ambos foram responsveis pela autoria da existncia, por isso disse que sem ele nada se realizou.

#Joo foi mais longe ainda e comentou: "O verbo se fez carne e habitou entre os homens"107. Segundo esse discpulo, o co-autor da existncia pisou nesta terra, revestiu-se
de um corpo biolgico, adquiriu uma humanidade e habitou entre os homens. Por estar escondido na pele de um carpinteiro,  provvel que muitos dos que o elogiam
e dizem am-lo hoje, se estivessem presentes naquela poca, tivessem grande dificuldade de enxerg-lo e segui-lo. A convico com que ele discorre sobre Jesus 
admirvel. Segundo sua tica, aquele que nasceu num curral foi o autor da vida, foi quem confeccionou os segredos dos cdigos genticos, bem como a plasticidade
das suas mutaes. Segundo o pensamento dos quatro evangelhos, Deus e seu filho no so uma mera energia csmica e extremamente inteligente, no so um mero poder
superior ou uma mente universal, mas seres dotados de personalidade e com caractersticas particulares, como cada um de ns. Diversas caractersticas so claramente
percebidas, entre elas o prazer de passarem desapercebidos e de darem plena liberdade ao homem de procur-los ou rejeit-los. Um dia, uma criana, filha de Jairo,
morreu. Jesus foi at a sua casa. Chegando l, encontrou muitas pessoas pranteando na sala de espera. Tentando consol-las, disse com a maior naturalidade: "No
choreis; ela no est morta, mas dorme."108. Imediatamente aquelas pessoas mudaram seu estado emocional e comearam a rir dele, pois sabiam que ela estava morta.
Sem se importar com este fato, adentrou no quarto em que a menina jazia e onde estavam os pais e alguns discpulos. L, com incrvel determinao, chocou os presentes.
Apenas deu uma ordem para a menina se levantar e ela imediatamente reviveu. Em seguida, teve duas reaes inesperadas que mostravam seu carter de no buscar ostentao.
Primeiro, pediu que dessem de comer para a menina. Ora, para quem fez o milagre de ressuscit-la, no seria fcil aliment-la sobrenaturalmente? Claro! Contudo,
ele se escondeu atrs daquele pedido e, alm disso, por meio dele queria mostrar que a vida humana no deveria ser feita de milagres, mas de labutas. O mesmo ocorreu
quando ele pediu para que tirassem a pedra do tmulo de Lzaro. Segundo, apesar de os pais da menina terem ficado maravilhados com seu ato, advertiu-os para que
no contassem a ningum o que havia acontecido. Como seria possvel esconder aquele fato? Jesus sabia que ele se alastraria como fogo no feno seco. Mas por que pediu
o silncio? Tal pedido no era seu marketing, ou seja, no advertia as pessoas para ocultarem os seus atos para despertar nelas o desejo de divulg-los. No, ele
no simulava seu comportamento, pois, como vimos, viveu a arte da autenticidade. Ao fazer esse pedido, estava somente querendo ser fiel  sua conscincia, pois nunca
fazia nada para se autopromover, mas para aliviar a dor humana. Se quisesse, poderia abalar o Imprio Romano, mas preferia ser apenas um semeador que planta ocultamente
suas sementes.

Recusando usar seu poder para aliviar-se
Ns gostamos de ser estrelas no meio da multido. E, ainda que no confessemos, apreciamos que o mundo gravite em torno de ns. Mas Jesus simplesmente no tinha
essa necessidade. Os seus inimigos o tratavam como a um nazareno, como pessoa desprezvel, sem cultura e status poltico, mas isso no o perturbava. Pelo contrrio,
alegrava-se em no pertencer ao staff dos fariseus. Fazia questo de ser confundido com seus amigos. Muitos querem ser diferentes dos outros, embora no tenham nada
de especial. Contudo, Jesus, apesar de ser to diferente da multido, agia com naturalidade. Ele alcanou

#uma das virtudes mais belas da inteligncia: ser especial por dentro, mas comum por fora, ainda que famoso. Havia uma estrutura dentro dele que nos deixa estarrecidos.
Enquanto os seus inimigos estavam tramando como mat-lo, ele estava discursando que era uma fonte de prazer, uma fonte de gua viva. Enquanto os seus inimigos preparavam
falsas testemunhas para conden-lo, ele ainda achava tempo para falar de si mesmo com poesia, discursava simbolicamente que era uma videira que jorrava uma rica
seiva capaz de satisfazer seus discpulos e torn-los frutferos109. Que homem  este que expressava um ardente prazer de viver num ambiente de perdas e rejeies?
Que segredos se escondiam no cerne do seu ser que o inspiravam a fazer poesia onde s havia clima para chorar e no para pensar? Cristo viveu um paradoxo brilhante.
Demonstrou um poder incomum, mas na hora do seu sofrimento, esquivou-se completamente de us-lo. Vocs no acham isso estranho? Por isso seus acusadores o torturavam
aos ps da sua cruz dizendo: "Salvou a outros, mas no salvou a si mesmo"110. Seus detratores jamais poderiam torturar aquele homem que exalava doura e amabilidade,
mas por outro lado eles tinham razo de ficar perturbados com o fato de ele ter feito tanto por outros, mas nada para si mesmo. Nunca na histria algum to forte
esquivou-se de usar a sua fora em benefcio prprio. No Getsmani, no conteve nem mesmo a sua taquicardia, seu suor e a dor da sua alma. Na cruz no o deixaram
morrer em paz: um eco provocativo feria-lhe a emoo j angustiada: "Mdico, salva-te a ti mesmo". Mas, ainda que combalido, resistia. Usou todas as suas clulas
para se comportar como um homem.

O homem, um ser insubstituvel
Quando eu era um ateu ctico, pensava que Deus fosse apenas uma fantasia humana, um fruto imaginrio da mente para abrandar os seus conflitos, uma desculpa da fantstica
mquina cerebral que no aceita o caos da finitude da vida. Posteriormente, ao investigar o processo de construo da inteligncia e perceber que nele h fenmenos
que ultrapassam os limites da lgica, comecei a perceber que as leis e os fenmenos fsicos no podem explicar plenamente a psique humana. Em milsimos de segundos
entramos nos labirintos da memria e, em meio a bilhes de opes, construmos as cadeias de pensamentos com substantivos, sujeitos, verbos, sem saber previamente
qual o lcus deles. Como isso  possvel? Intrigado, comecei a perceber que deve haver um Deus que se esconde atrs do vu da sua criao. Perguntei, questionei,
indaguei continuamente alguns mistrios da existncia. A arte da pergunta ajudou muito a me esvaziar dos preconceitos e abrir as janelas da minha mente. O tamanho
das perguntas determina a dimenso das respostas. S quem no tem medo de perguntar e de questionar, inclusive as suas prprias verdades, pode se fartar das mais
belas respostas. Que respostas encontrei? No preciso diz-las. Encontre as suas. Pergunte e investigue quantas vezes for necessrio. Ningum pode fazer essa tarefa
por ns. Ningum pode ser responsvel pela nossa conscincia. Permitam-me afirmar que o final das biografias de Cristo revelam algo nunca escrito ou pensado, que
passo a discorrer. Esses textos compem a mais bela passagem da literatura mundial. Do ponto de vista filosfico, a vida humana  uma gota existencial na perspectiva
da eternidade. Num instante somos moos e noutro instante somos velhos... Morremos um pouco a cada dia. Milhares de genes conspiram contra a continuidade da existncia,
traando as linhas da velhice, nos conduzindo para o fim do tnel do tempo.

#A histria de Cristo mostra-nos que o Deus auto-existente e sempiterno se importa realmente com os complicados mortais. Sem analisar a sua histria,  difcil olhar
para o universo e no questionar: quem nos assegura que no somos marionetes do poder do Criador? Ser que no somos objetos do seu divertimento que mais tarde sero
descartados no torvelinho do tempo? Nas sociedades humanas, mesmo nas democrticas, somos mais um nmero de identidade, mais um ser que compe a massa da sociedade.
Contudo, apesar de Jesus ser uma pessoa coroada de mistrios, ele no deu margem a dvidas que tinha vindo com a misso de proclamar ao mundo que o homem era singular
para Deus. Na parbola do filho prdigo111, da ovelha perdida112 e de tantas outras, este agradvel contador de histrias empenha a sua prpria palavra afirmando
categoricamente que o ser humano no  um objeto descartvel do Criador, mas cada um deles  um ser insubstituvel e inigualvel, apesar dos seus erros, falhas,
fragilidades e dificuldades. Usou seu prprio sangue como tinta para escrever um tratado eterno entre o Criador e a criatura. Se os textos dos evangelhos no nos
tivessem relatado, no seria possvel a mente humana, seja de um pensador ou do mais ilustre telogo, conceber a idia de que o autor da existncia tivesse um filho
e que, por amar a humanidade incondicionalmente, Ele o enviaria ao mundo para viver as condies mais inumanas e, por fim, se sacrificar por ela113. Como pode o
Criador amar a tal ponto uma espcie to cheia de defeitos, cuja histria est mergulhada num mar de injustia e violao de direitos? O filho morreu como o mais
indigno dos homens e, paralelamente, enquanto ele morria, o Pai chorava intensamente, ainda que possamos no atribuir lgrimas fsicas a Deus. Ele chorava a cada
ferida, hematoma e estalido de martelo que cravava seu filho na cruz. Os pais no suportam a dor dos seus filhos. Uma pequena ferida de um deles  capaz de fazer
alguns entrarem em desespero. Por isso, um dos maiores desejos deles  fechar seus olhos antes dos seus filhos. V-los morrer  indubitavelmente a maior dor que
podem sofrer. Agora, imagine a dor do Pai pedindo para Jesus se entregar voluntariamente e deixar que os homens o julgassem. Segundo as escrituras neotestamentrias,
h dois mil anos aconteceu o evento mais importante da histria. O mais dcil e amvel dos homens foi espancado, ferido e torturado. O seu Pai estava assistindo
a todo o seu martrio. Podia fazer tudo por ele, mas, se interviesse, a humanidade estaria excluda do seu plano. Por isso, nada fez. Foi a primeira vez na histria
que um pai teve pleno poder e pleno desejo de salvar o seu filho, de estancar a sua dor e punir os seus inimigos e se absteve de faz-lo. Quem mais sofreu, o filho
ou o Pai? Ambos. O Autor da existncia abriu uma profunda vala na sua emoo  medida que seu filho morria lentamente. Ambos viveram o mais impressionante espetculo
de dor. Que entrega arrebatadora! Deus estava soluando em todos os cantos do universo. O imenso universo ficou pequeno demais para o Todo-poderoso. O tempo, inexistente
para o Onipresente, fez pela primeira vez uma pausa, custou a passar. Cada minuto se tornou uma eternidade. O comportamento do "Deus Pai" e o do "Deus filho" implodem
completamente nossos paradigmas religiosos e filosficos, dilaceram os parmetros da psicologia. Em vez de exigirem sacrifcios e reverncias da humanidade, ambos
se sacrificaram por ela. Pagaram um preo indescritvel para dar para eles o que consideravam a maior ddiva que um ser humano pode receber, aquilo que Cristo chamava
de o "outro consolador", o Esprito Santo. Que amor  este que se doa at as ltimas conseqncias? Tibrio Csar estava assentado no trono em Roma. Queria dominar
a terra com espadas, lanas e mquinas de guerra. Mas o Autor da vida e seu filho, que postulam ser os donos do mundo, queriam sujeit-lo com uma histria de amor.
Gostamos das torrentes de guas, mas eles preferem o silncio da brisa, a umidade annima dos orvalhos.

#O Pai e o filho so fortes ou fracos? Fortes a tal ponto que no precisavam mostrar sua fora. Grandes a tal ponto que se misturaram com os homens mais desprezados
da sociedade. Nobres a tal ponto que queriam ser amados pelos homens, e no t-los como seus escravos ou servos. Pequenos a tal ponto que s so perceptveis queles
que enxergam com o corao. Somente algum to forte e to grande consegue se fazer to pequeno e acessvel!  impossvel analis-los e no sentir o quanto somos
mesquinhos, orgulhosos, individualistas e emocionalmente frios. As metas de Jesus no eram os seus milagres exteriores. Esses eram pequenos perto do seu real desejo
de transformar o interior do homem, reparar as avenidas dos seus pensamentos, arejar os becos das suas emoes e fazer uma faxina nos pores inconscientes de sua
memria. Somente uma mudana de natureza conduziria o homem a conquistar as caractersticas mais importantes da personalidade que Cristo amplamente viveu. Se cada
ser humano, independente da religio que professe, incorporasse em sua personalidade algumas dessas caractersticas, a terra no seria mais a mesma. Os consultrios
dos psicoterapeutas se esvaziariam. No haveria mais violncia nem crimes. As naes no gastariam mais um tosto com armas. A fome e as misrias seriam extintas.
As prises virariam museus. Os soldados tornar-se-iam romancistas. Os juzes despiriam suas togas. No haveria mais necessidade da carta magna da ONU (Organizao
das Naes Unidas), que declaram os direitos universais do homem, pois o amor, a preocupao com as necessidades dos outros, a solidariedade, a tolerncia, a busca
de ajuda mtua, o prazer pleno, o sentido existencial e a arte de pensar seriam cultivados indefinidamente. As sociedades se tornariam um jardim com uma nica estao,
a primavera.

O mestre da sensibilidade foi para o caos
Estudamos a trajetria de Cristo at o Getsmani. Agora, chegou o momento de o mestre da sensibilidade ser preso e julgado. O mundo, a partir de ento, conheceria
a mais dramtica seqncia de dor fsica e psicolgica que um homem j suportou. So mais de trinta tipos de sofrimentos, assunto a ser estudado no prximo livro
da srie Anlise.... Jamais algum pagou conscientemente um preo to alto para executar suas metas, para materializar seu sonho. Ao estudarmos cada uma das etapas
de sofrimento que Jesus Cristo viveu nos instantes finais de sua vida e como ele se comportou diante delas, at morrer de desidratao, hemorragia, exausto e falncia
cardaca, provavelmente nunca mais seremos os mesmos... Alguns, diante das suas angstias, desistem dos seus sonhos e, s vezes, at da prpria vida. Cristo era
diferente, amava viver cada minuto da sua vida.Tinha conscincia de que o feririam sem piedade, mas ele no se suicidaria. Havia predito que o humilhariam, cuspir-lhe-iam
no rosto e o tornariam um show pblico de vergonha e dor, mas ele permaneceria de p, firme, fitando os olhos dos seus acusadores. A nica maneira de cort-lo da
terra dos viventes era mat-lo, extrair-lhe cada gota do seu sangue. Nunca algum que sofreu tanto demonstrou convictamente que a vida, apesar de todas as suas intempries,
vale a pena ser vivida!

#Notas Bibliogrficas

#1- Mateus 26:39 2- Joo 12:27 3- Mateus 11:29 4- Joo 16:33 5- Mateus 6:12 6- Joo 9:2 7- Joo 9:3 8- Mateus 5:22 9- Mateus 5:9 10- Joo 7:37 11- Joo 5:39-40 12-
Mateus 23:1-36 13- Mateus 23:6-7 14- Mateus 22:23 15- Mateus 22:29 16- Lucas 13:33 17- Mateus 22:16 18- Mateus 22:17 19- Mateus 22:20-21 20- Mateus 6:10 21- Mateus
6:33 22- Lucas 22:15 23- Joo 1:29 24- Mateus 26:26 25- Joo 6:53 26- Mateus 26:30 27- Mateus 26:30 28- Mateus 26:30 29- Joo 7:37-38 30- Joo 16:29 31- Joo 16:33
32- Joo 13:34 33- Joo 14:2 34- Joo 14:19 35- Joo 17:1-5 36- Joo 17:5 37- Joo 8:58 38- xodo 3:14 39- Joo 17:1 40- Mateus 17:2 41- Joo 17:2 42- Joo 12:24
43- Joo 6:51 44- Joo 17:12; 20-21a 45- Joo 17:13 46- Joo 17:26 47- Joo 2:16 48- Joo 2:19 49- Joo 2:21 50- Efsios 2:19 51- Efsios 2:22 52- Joo 13:34 53-
Joo 12:3-5 54- Mateus 26:38a 55- Mateus 26:38b 56- Lucas 22:45 57- Mateus 26:40 58- Mateus 26:46 59- Marcos 14:27 60- Mateus 26:35 61- Mateus 5:21-22

#62- Mateus 6:3 63- Mateus 8:27 64- Lucas 22:38 65- Lucas 22:57 66- Lucas 22:15 67- Mateus 5:44 68- Lucas 22:44 69- Mateus 26:37 70- Lucas 2:40 71- Lucas 2:48 72-
Joo 4:35 73- Joo 4:34 74- Joo 7:46 75- Mateus 26:39 76- Mateus 14:1 77- Mateus 27:17-18 78- Marcos 14:41 79- Joo 8:7 80- Joo 12:27 81- Joo 12:32 82- Joo 12:35
83- Joo 12:27 84- Mateus 26:41 85- Marcos 14:36 86- Lucas 22:42 87- Mateus 15:11 88- Mateus 5:3 89- Mateus 5:5 90- Mateus 26:39-45 91- Mateus 26:39 92- Mateus 26:42
93- Joo 14:10 94- Mateus 7:9 95- Mateus 3:17 96- Mateus 26:38 97- 2 Pedro 1:4 98- Joo 10:34 99- Joo 10:36 100- Mateus 6:26-28 101- Mateus 11:29 102- Mateus 6:19-20
103- Isaas 45:15 104- 1 Reis 19:11-13 105- Joo 1:18 106- Joo 1:3 107- Joo 1:14 108- Marcos 5:39 109- Joo 15:1-5 110- Mateus 27:42 111- Lucas 15:11-32 112- Lucas
15:3-7 113- Joo 5:36

#voc quiser fazer um comentrio sobre este livro ou quiser divulg-lo em sua escola, empresa ou grupo social, por favor entre em contato com Editora Academia de
Inteligncia. Telefax (0XX17) 342-4844 E-mail: academiaint@mdbrasil.com.br E-mail do autor: jcury@mdbrasil.com.br Televendas (0XX17) 343-1112

Se

#Opinies de alguns leitores sobre o primeiro livro da coleo:
ANLISE DA INTELIGNCIA DE CRISTO -O MESTRE DOS MESTRES.

"Desde que adquiri este livro, ele tem sido meu livro de cabeceira... Parece que cada frase fala comigo" Arquiteta

Cludia Braga -

"Nos ltimos captulos no suportei, comecei a chorar diante de tanta riqueza... Este livro ser de grande ajuda para os professores e os alunos do ensino fundamental,
mdio e superior. Espero que os professores o adotem em salas de aulas..." Dirce Cabrera Farhate - Educadora "Em Anlise da Inteligncia de Cristo, o Cristo  apresentado
de forma ideal. Linguagem alta, simples, bela, convincente, precisa, sem perder a poesia. Linguagem de quem viu um ngulo novo desse gnio bimilenar..." Mrio Ribeiro
Frigeri - Analista Judicirio do TRT "Parabns pela sua obra. Voc  um desses raros astros que volta e meia vem iluminar o caos literrio que envolve os assuntos
de Deus..." Roberto Fuganholi - Educador e Empresrio "Este livro tem um grande defeito: tem poucas pginas. Sua leitura mudou minha histria de vida..." Ernesto
Citta - Agrnomo e Empresrio Rural Uma leitura espetacular. Durante vrios momentos revisamos o que fizemos tempos atrs e analisamos como poderamos ter agido
diferente..." Joo Henrique - Estudante de direito "Em meio a muitas angstias e contrariedades, li vrios livros, mas foi unicamente atravs da leitura do livro
"ANLISE DA INTELIGNCIA DE CRISTO  O MESTRE DOS MESTRES" que encontrei respostas para todas elas..." Adenir Pereira da Silva - Juiz Federal "Esperamos que todos
neste pas tenham a chance de ler este livro. Ele nos ensina muitas lies sobre nossa existncia e nos encoraja a superar nossas dores e perdas. Alm disso, ele
contribui para expandir nossas inteligncias e nos tornar mais tolerantes... " Juracy Gomes Reis - Fiscal do Trabalho Miriam M. Reis - Mdica Anestesista "Este livro
nos ensina uma nova maneira de ver a vida e reagir ao mundo. Eu o tenho dado de presente para muitos amigos, na esperana que eles aprendam a enxergar com o corao..."
Paula Hunter - Atriz e Cantora "Sua leitura  to profunda que pode contribuir para a preveno da depresso, stress e ansiedade. Eu o tenho recomendado aos meus
pacientes..." Eni Peniche- Psicloga

#A PIOR PRISO DO MUNDO
A PIOR PRISO DO MUNDO  um livro apaixonante e esclarecedor, escrito pelo Dr. Augusto Jorge Cury, autor da coleo "Anlise da Inteligncia de Cristo". Nele compreendemos
que a pior priso do mundo  aquela que aprisiona a emoo e nos impede de ser livres e felizes... Diversas doenas, tais como a depresso, a sndrome do pnico,
os transtornos obsessivos, as fobias, encarceram a emoo. Entre elas tambm se encontra a dependncia de drogas ou a farmacodependncia. Nada afeta tanto a emoo
do que gravitar em torno dos efeitos de uma droga. H milhes de usurios em todo o mundo. Eles so amantes do prazer, mas, sorrateiramente, destroem aquilo que
mais os motivam a viver, a liberdade. Quem  prisioneiro no mago da sua alma, alm de perder a liberdade de pensar, faz de sua vida um canteiro de tdio e de angstia.
A PIOR PRISO DO MUNDO abrir as janelas de nossas mentes para compreendermos de maneira totalmente nova um dos mais graves problemas da humanidade, o crcere das
drogas. Conduzir os pais e professores a abordar o assunto com clareza e inteligncia, tanto com os jovens que ainda no esto usando drogas, como com aqueles que
j esto usando-a. Neste livro, Dr. Cury, evidencia que as relaes entre pais e filhos precisam passar por uma verdadeira revoluo. Pais e filhos, bem como educadores
e alunos, dividem o mesmo espao, respiram o mesmo ar, mas vivem em mundos diferentes. Esto prximos fisicamente, mas distantes interiormente, o que os tornam um
belo grupo de estranhos... O autor enfatiza a necessidade dos jovens expandirem as funes mais importantes da inteligncia, pois, somente assim, eles sero livres
e saudveis no territrio da emoo. Comenta sobre a terapia Multifocal, que abre novos caminhos para o tratamento das doenas psquicas. Por fim, nos faz resgatar
o sentido da vida e nos mostra que aqueles que atravessam o caos emocional e os supera ficam mais experientes e ricos no cerne da alma. A PIOR PRISO DO MUNDO interessa
no apenas aos que desejam compreender com profundidade o crcere das drogas e os segredos do funcionamento da mente humana, mas tambm aos que almejam enriquecer
sua qualidade de vida e ser livres dentro de si mesmos.

Este livro se encontra nas principais livrarias do pas

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